Archive for the ‘Milan KUNDERA’ Category

MixLit 65: Os sumiços

Interrompemos a nossa emissão para avançar com uma notícia de última hora: Há 24 h que são reportados desaparecimentos, em diferentes locais, de pessoas que se encontravam a ler.1

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O que o jornalista dizia era interessante, mas Tomas não conseguia se concentrar em suas palavras. Pensava no filho.2 Sempre lendo romances.3 Chegava em casa muito tarde, esgotado e devastado pel4o amor aos livros.5

– Todo mundo está apavorado.6 Duas irmãs foram mortas em casa, porque não trancaram a porta direito.7 – Sua esposa lhe disse8, prestes a desabar em lágrimas.9 

– É mesmo?

– Foi o que me disseram  – disse sem muita convicção.10 Ela só queria11 encontrar um barco que aceitasse retirá-los da cidade.1    

– Quanto tem? – perguntou ele,13 pasmo, os punhos cerrados.14

MixLit 65 walking-away

– Pouco.15

– Porcaria16 Como…? – balbuciou e depois parou.17 – Onde vou arranjar dinheiro?18  – começou a se mexer e depois a correr e a fugir19, com seu baú e suas trouxas, sem se despedir.20

O filho de Tomas21 chegou enfim22 lendo23 um livro na mão.24 A mãe do menino então25 se jogou no seu pescoço e chorou como uma criança, chamando-o de meu pequeno isso e meu pequeno aquilo.26 Abraçados pela cintura, ficaram de pé no alto da escada. Embaixo, viram três homens mascarados com fuzis nas mãos. Era inútil hesitar, pois não havia maneira de fugir.27



1 Patrícia PORTELA. Para cima e não para norte. Lisboa: Caminho, p.175.

2 Milan KUNDERA. A insustentável levaza do ser. Tradução de Teresa Bulhões Carvalho Fonseca. São Paulo: Companhia das Letras, p.242.

3 Italo CALVINO. Se um viajante numa noite de inverno. Tradução de Nilson Moulin. São Paulo: Companhia das Letras, p.50.

Bruno SCHULZ. Ficção completa. Tradução de Henryk Siewierski. São Paulo: Cosac Naify, p.69.

João TORDO. O bom inverno. Rio de Janeiro: Língua Geral, p.52.

Woody ALLEN. Sem plumas. Tradução de Ruy Castro. Rio Grande do Sul: L&PM, p.51.

Woody ALLEN, idem.

Yasunari KAWABATA. O país das neves. Tradução de Neide Hissae Nagae.São Paulo: Estação Liberdade, p.80.

Raphael MONTES. Suicidas. São Paulo: Benvirá, 2012, p.227.

10 Julian BARNES. O sentido de um fim. Rio de Janeiro: Rocco, p.31.

1Henry MILLER. Trópico de Câncer. Tradução de Beatriz Horta. Rio de Janeiro: José Olympio, p.278.

12 Rui TAVARES. O pequeno livro do grande terramoto. Lisboa: Tinta-da-China, p.110.

1Henry MILLER, idem, p.285.

14 Raphael MONTES, idem.

1Henry MILLER, idem, p.278.

1Daniel MACIVOR. A primeira vista/In on it. Tradução de Daniela Avila Small. Rio de Janeiro: Cobogó, p.156.

1Kurt VONNEGUT JR. Matadouro número 5. Tradução de George Gurjan. Rio de Janeiro: Artenova, p.49.

1Luiz Alfredo GARCIA-ROZA. Fantasma. São Paulo: Companhia das Letras, p.82.

1Milan KUNDERA, idem, p.342.

20 Bruno SCHULZ, idem, p.245.

2Milan KUNDERA, idem, p.243.

2Milan KUNDERA, idem, p.242.

2Julian BARNES, idem, p.123.

2João TORDO, idem.

25 Kurt VONNEGUT JR, idem, p.135.

2Henry MILLER, idem, p.278

27 Milan KUNDERA, idem, p.342.

Ilustração por Lauren Nassef.

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Nos últimos meses, o MixLit foi notícia em diversos veículos. Gostaria de indicar especialmente dois. Em dezembro saiu um artigo de Luiza Miguez, jornalista da revista Piauí, no novo site do Itaú Cultural. Luiza ganhou uma bolsa para escrever esse artigo durante todo o ano de 2012. Ela fez entrevistas comigo e com muitas outras pessoas, estudou o tema a fundo e frequentou uma das Oficinas de remix literário que dei nesse ano que está terminando. O artigo, intitulado “Os DJs da Literatura” traz comentários de Heloísa Buarque de Hollanda e José Castello, e tem como personagens principais Mário de Andrade – um dos cabeças do movimento de antropofagia, autor de “Macunaíma” -, os norte-americanos Kenneth Goldsmith (autor de Uncreative Writing) e Mark Amerika (autor de remixthebook), e eu. Você pode ler o divertido e bem-humorado artigo aqui. A segunda matéria que gostaria de recomendar está no site BaixaCultura, um site que frequento bastante e que traz notícias e ensaios sobre cultura digital, cultura hacker, arte de vanguarda, copyright e copyleft, creative commons e outros assuntos contemporâneos. Leonardo Foletto, jornalista autor de “Efêmero revisitado – conversas sobre teatro e cultura digital”, é o principal responsável pelo site e fez uma entrevista muito estimulante comigo, na qual fomos desde o processo criativo até a maneira como a cultura do compartilhamento nas redes sociais tem influenciado a criação artística . Você pode encontrar “A literatura sampleada do MixLit” aqui.

Um abraço,
Leonardo Villa-Forte.

MixLit 57: Eu li, está me ouvindo?

Por onde enfio a cabeça para respirar, frenético de sufoco, depois dessa natação profunda de seiscentos e dezessete páginas?1 Não consigo mais aguentar2 essa precavida arte do pastoreio3, dominando-me com sua densa realidade4, mais densa e mais eloquente que a vida cotidiana5. Onde está o exército? Por que não prendem essa gente?6

“O homem, pelo fato de escrever livros, transforma-se em universo (não se fala no universo de Balzac, no universo do Tchekhov, no universo de Kafka?) e o próprio de um universo é justamente ser único. A existência de um outro universo o ameaça na sua própria essência”7, você dirá, e concordarei em parte8. Se você leva duas páginas para dizer que uma pessoa percorreu um quilômetro9, a amargura te invade o coração10. Tirar seriedade do acto da escrita, aprendi-o na infância, tirar seriedade aos actos da vida11. Bem, não vou me estender12, você nunca vai se encher de mim13, sei quando as pessoas não estão me acompanhando, elas reclinam a cabeça para a esquerda e surge essa ruga na testa, essa14.

1 Julio CORTÁZAR. A volta ao dia em 80 mundos – tomo II. Tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht. Civilização Brasileira/Editora Record. Rio de Janeiro. 2008, pg.44.

2 Raymond CARVER. Iniciantes. Tradução de Rubens Figueiredo. Conto: O lance. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, pg.42.

3 Peter SLOTERDIJK. Regras para o parque humano. Tradução de José Óscar de Almeida Marques. São Paulo: Estação Liberdade, 2000, p.52.

4 Lya LUFT.  Reunião de família. Rio de Janeiro: Record, 2008, p.57.

5 Tzvetan TODOROV. A literatura em perigo. Tradução de Caio Meira. Rio de Janeiro: Difel, 2009, p.23.

6 Moacyr SCLIAR. Minha mãe não dorme enquanto eu não chegar. Rio Grande do Sul: L&PM, 1996, p.84.

7 Milan KUNDERA. O livro do riso e do esquecimento. Tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1987, p.121.

8 Flávio CARNEIRO. O leitor fingido. Rio de Janeiro: Rocco, 2010, p.15.

9 Umberto ECO. Seis passeios no bosque da ficção. Tradução de Hildegard Feist. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, pgs.65,66.

10 Moacyr SCLIAR. Idem.

11 Gonçalo TAVARES. 1 – poemas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005, p.163.

12 Simone CAMPOS. Owned – um novo jogador. Rio de Janeiro: 7Letras, 2011. Retirado de trecho disponibilizado no site Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ.

13 Dan RHODES. Timoleon Vieta volta para casa. Tradução de Ryta Vinagre. Rio de Janeiro: Rocco, 2005, p.105.

14 Simone CAMPOS. Idem.

MixLit 48: Parar antes de ter que parar

À noite, durante o jantar, após eu1 fazer a barba2, meu pai3 veio se sentar no sofá, ao meu lado. Queria me dizer alguma coisa. Eu o adivinhava desde o começo do jantar, e já sabia do que se tratava.

– Como bebi! – disse ele – Isso é pior do que qualquer veneno. Mas esta é a última vez. Palavra! A última vez! Tenho força de vontade…4

Coçava a cabeça com a caneta como se isto pudesse devolver-lhe a consciência interrompida pelo5 seu conhaque francês6.

– Chega um momento em que não se pode mais continuar7 – continuava falando8 – Livre! Enfim livre!9

Levantou-se e10 avançou dois passos, os braços estirados como para abraçar alguém, sem ver nada. Infelizmente escorregou no soalho muito lustroso e parou. Veio-lhe então a ideia de que escorregar era inconveniente. Não devia escorregar11.

– Me desculpa. Estou meio alegre. Esta noite nunca mais12.

Não ouço outra coisa desde que existo13. Que tragédia, meu pai14.


1 Vladimir NABOKOV. Lolita. Tradução de Jorio Dauster. Rio de Janeiro: O Globo; São Paulo: Folha de São Paulo, 2003, p.49.

2 Georg BÜCHNER. Woyzeck. 1835. Tradução de Tércio Redondo. Hedra. São Paulo. 2003, p.63.

3 Orhan PAMUK. Neve. 2002. Tradução de Luciano Machado. Companhia das Letras. São Paulo. 8ª edição, 2007, p.137.

4 Anton TCHEKHOV. Estranha confissão. 1945. Tradução do castelhano por Bernardo Ajzenberg. Editora Planeta. São Paulo. 2005, pg.63.

5Mariel REIS. A caderneta. Em: Revista Ficções 18. 7Letras. Rio de Janeiro. 2009, p.62.

6Autran DOURADO. Os mínimos carapinas do nada. Em: Os cem melhores contos brasileiros do século. Org. de Italo Moriconi. Objetiva. Rio de Janeiro. 2000, p.514.

7 e 10 Milan KUNDERA. O livro do riso e do esquecimento. Tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1987, p.47, 55.

8 Jorge Luis BORGES. Ficções. Tradução de Davi Arrigucci Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p.105.

9, 12 e 14Dalton TREVISAN. 33 contos escolhidos.  Rio de Janeiro: Record, 2005, p.92, 93 e 96.

11 Graciliano RAMOS. Insônia.  Rio de Janeiro: Record. 2001, pg.100.

13Thomas BERNHARD. Montaigne – Uma narrativa. Em: Revista Serrote. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2011, p.232.


MixLit 41: A postura do poeta Miguel

“Não viajo para países em guerra”, me disse o Miguel quando eu perguntei se ele tinha vontade de ir1.

Ele2 mantém cuidadosamente seu diário, guarda sua correspondência, redige as minutas de todas as reuniões em que discutem a situação e se indagam como continuar. Ele lhes explica3: as palavras sempre foram inimigas das coisas e há desde sempre uma luta entre a fala e os ídolos4.

Aprendi há muito5: não agir dá-nos tudo. Imaginar é tudo, desde que não tenda para agir6.  É sempre mais tentador se empenhar em algo familiar7. O poeta é o gênio da lembrança. Não pode fazer senão recordar, não pode fazer mais do que admirar o que foi realizado pelo herói8.

Quanto a mim, apetecer-me-ia9 o gosto do sangue10.

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1. Os sete NOVOS. Amoramérica. Rio de Janeiro: 7 Letras. 2008, p.63.

2,3. Milan KUNDERA. O livro do riso e do esquecimento. Tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1987, p.10.

4. Valère NOVARINA. Diante da palavra. Tradução de Ângela Leite Lopes. Rio de Janeiro: 7 Letras. 2009, p.15.

5. José Eduardo AGUALUSA. Milagrário pessoal. Rio de Janeiro: Língua Geral. 2010, p. 21.

6. Fernando PESSOA. Livro do desassossego. São Paulo: Companhia das Letras. 2009, p.179.

7. Waly SALOMÃO. Babilaques. Trabalho: “Construtivista tabaréu”, 1977. Rio de Janeiro: Contracapa. 2007, pg.41

8. Soren KIERKEGAARD. Temor e Tremor. Tradução de Torrieri Guimarães. Rio de Janeiro: Ediouro. Sem data, p.35

9. Walter CAMPOS DE CARVALHO. A lua vem da Ásia. Escrito em 1956, edição eletrônica em pdf disponível na internet, p.71.

10. André MALRAUX. A condição humana. Tradução de Jorge de Sena. São Paulo: Abril. 1972, p.41.

Mixlit 4: Os deslizes

Após a discussão de toda noite, ele demora-se no banheiro. Ali no espelho xinga-se de rato piolhento, mergulha o rosto na água fria. Mais calmo, volta para o quarto: sua alma coágulo de sangue negro. De nada serviu a espera.(1)

_ _ _ _

Ao levantar da cama, a primeira ideia que me acudiu foi aquela que escrevi ontem, à meia-noite: “Esta moça (Fidélia) foge a alguma coisa, se não foge a si mesma.(2) O melhor que faço é me casar com ela. Depois posso moldar-lhe a alma como bem desejar. É um pedaço de cera em minhas mãos: darei a ela a forma que eu quiser. Durante minha ausência, quase a arrebataram de mim, devido à sua inocência exagerada. Mas, com tudo isso, ainda acho melhor que a mulher que escolhi erre por esse lado. Essa espécie de erro tem remédio bem fácil. Toda pessoa simples obedece a lições. E quando alguém a desvia do caminho do bem, duas palavras certas fazem com que retorne imediatamente. Mas uma mulher esperta é outro animal. Nossa sorte toda pende e depende apenas da sua vontade: nada a afastará daquilo a que se propôs, e tudo o que dissermos é orquestra pra surdos. Usa a inteligência para ridicularizar nossas lições, para transformar seus vícios em virtudes. E pra chegar a seus fins inomináveis encontra desvios capazes de iludir o mais habilidoso.(3) Se para outras mulheres a sedução é uma segunda natureza, uma rotina insignificante, para ela, de agora em diante, é o campo de uma investigação importante que deve ajudá-la a descobrir aquilo de que é capaz. Mas por ser tão importante, tão grave, sua sedução perdeu toda a leveza, é forçada, intencional, excessiva. O equilíbrio entre a promessa e ausência de garantia (em que reside precisamente o autêntico virtuosismo da sedução!) foi rompido. Está pronta demais…” (4)

…Até que chegava o momento em que, entre palavras de ódio, surgiam palavras doces. E essas palavras doces acabavam se transformando em beijos doces (desesperados), em toques doces (desesperados), em carinhos doces (desesperados). Então, fazíamos amor (doce, desesperado) como nunca antes. Devorávamo-nos como se tivéssemos acabado de nos conhecer, como se entre nós não houvesse rancores. Os corpos melados sobre a cama, o cheiro do sexo no quarto inteiro. Depois de muito tempo, decidíamos tomar um banho gelado, e era como se fôssemos duas crianças, como se nunca tivéssemos brigado, como se nunca tivéssemos terminado, como se sempre tivéssemos sido um do outro, como se fôssemos sempre um do outro(5) ao fim, assim que ela erga e vibre inquieta o seu turíbulo. E alto, longo, à turva; sobrelevada nave; a estrela-sino tange, enquanto, calmas; as espirais do incenso ascendem, nuvem sobre nuvem; rumo-ao-vazio, do venerável; resíduo de almas.(6)

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1. Dalton TREVISAN. Contos eróticos. 1984. Editora Record. Rio de Janeiro. 1999, 5ª edição, pg.41.

2. Machado DE ASSIS. Memorial de Aires. 1908. Klick Editora. Sem local, sem data, pg.11.

3. MOLIÉRE. Escola de mulheres. 1662 (1ª encenação). Tradução de Millôr Fernandes. Círculo do Livro. São Paulo. Sem data, pgs.58, 59.

4. Milan KUNDERA. A insustentável leveza do ser. 1984. Tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca. Companhia das Letras. São Paulo. 2007, 9ª reimpressão, pgs. 164, 165.

5.Tatiana SALEM LEVY. A chave de casa. 2007. Editora Record. Rio de Janeiro. pgs.91, 92.

6. James JOYCE. Pomas, um tostão cada. 1913-1916. 1927 (1ª publicação). Tradução de Alípio Correia de Franca Neto. Editora Iluminuras. São Paulo. 2001, poema: Noturno, pg.63.

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