Archive for junho \30\UTC 2011

MixLit 50: À procura

– Você não quer confrontá-lo? Ou quer confrontá-lo sozinha?1 – O irmão disse à irmã – Vamos embora desta cidade, irmãzinha2, quero conhecer meu pai. Se você não for procurar comigo, eu vou sozinho3.

Ela, frágil e forte, talvez ao mesmo tempo, se desmanchava em lágrimas4. A leste, as montanhas; a oeste, o mar5.

– Me deixa em paz…6 – Júlia sacudiu a cabeça para afastar o cabelo das têmporas7. Surpreendeu-se, ainda, com o silêncio que se impunha até mesmo sobre a água8. Por fim, ela pediu:

– Vamos embora9.

Calaram-se, embarcaram ambos quando a barca chegou10.

Um pouco mais tarde, as luzes piscaram nas janelinhas11. Quando ela acordou12, abriu as cortinas de par em par13. A fria iluminação halógena da cabine não era mais artificial. Era a luz fria do sol por trás de uma nuvem momentânea14, inundando o quarto de uma claridade cinza15.

Ela se virou de súbito16. Também de súbito ele fechou os olhos, e ela ficou sem saber se ele dormia de verdade ou se fingia17.

– Saudades?18 – Suspirou19.


1 Contardo CALLIGARIS. A mulher de vermelho e branco. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p.120.

2 Angela CARTER. A menina do capuz vermelho e outras histórias de dar medo. Tradução de Luciano Vieira Machado. São Paulo: Companhia das Letras/Penguim, 2011, p.105.

3Laura RESTREPO. Heróis demais. Tradução de Ernani Ssó. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p.21.

4 Paulo Roberto PIRES. Do amor ausente. Rio de Janeiro: Rocco, 2000, p.51.

5 Kyoichi KATAYAMA. Um grito de amor do centro do mundo. Tradução de Liça Hashimoto. Rio de Janeiro: Objetiva/Alfaguara, 2011, p.151.

6Fabrício CARPINEJAR. Borralheiro. Rio de Janeiro: Bertrand, 2011, p.84.

7Jonathan FRANZEN. As correções. Tradução de Sérgio Flaksman. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p.311.

8Paulo Roberto PIRES. Idem, p.116.

9Contardo CALLIGARIS. Idem, p.120.

10Emanuel CARRÈRE. O bigode/A colônia de férias. Tradução de André Telles. Rio de Janeiro: Objetiva/Alfaguara, 2011, p.118.

11Emanuel CARRÈRE. Idem, p.95.

12Jonathan FRANZEN. Idem, p.334.

13 Georges SIMENON. O homem que via o trem passar. Tradução de Raul de Sá Barbosa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006, p.59.

14Jonathan FRANZEN. Idem, p.334.

15 Georges SIMENON. Idem, p.59.

16Georges SIMENON. Idem, p.58.

17Georges SIMENON. Idem, p.58.

18João UBALDO RIBEIRO. Um brasileiro em Berlim. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011, p.101.

19Georges SIMENON. Idem, p.59.

MixLit 49: Uma moça às voltas com um problema

Ela voltou-se ligeiramente, olhou-me, e o seu rosto teve sobre mim um efeito extraordinário. Parecia envolver-me e rejeitar-me ao mesmo tempo. Como se fosse um personagem de sonho, próxima e intangível. Os seus olhos comunicavam1 não-me-toques, não-me-deixes, não-te-esqueças-de-mim2.

Finalmente, rompeu o silêncio, sem tirar os olhos dos meus olhos atônitos3:

– Por acaso temos direito à palavra? E por mais que a tivéssemos, de que valeria?4

Fez um monte de travesseiros ao canto da cama, perto da luz e, fincando o cotovelo neles5, terminou de anotar no caderno o que precisava anotar, guardou seus folhetos, desligou o abajur da mesa de cabeceira e adormeceu com a cabeça apoiada no meu ombro. Fechei os olhos6.


1 Inês PEDROSA. Os íntimos. Rio de Janeiro: Alfaguara/Obetiva, 2010, p.95.

2 Diana de HOLLANDA. Dois que não o amor. Rio de Janeiro: 7 Letras. 2007, p.55.

3 Tatiana SALEM LEVY. Shabat. In: Primos. Organização de Adriana Armony e Tatiana Salem Levy. Rio de Janeiro: Record. 2010, p.293.

4 Paulina CHIZIANE. Niketche: uma história de poligamia. São Paulo: Companhia das Letras. 2004, p.154.

5 Rachel de QUEIROZ. O quinze. Rio de Janeiro: José Olympio, 2010, 90ª edição, p.12.

6 Adriana LISBOA. Azul-corvo. Rio de Janeiro: Rocco. 2010, p.187.

Imagem: Foto de Maria Beatriz Machado.

TEXTO E IMAGEM PUBLICADOS ORIGINALMENTE NA REVISTA PESSOA  EDIÇÃO 2, DE MARÇO de 2011.

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