Archive for julho \30\UTC 2011

MixLit 52: A uma distância segura

Fechou o chuveiro, pegou a toalha1. Enorme, apareceu resmungando. Disse:

– O que está se passando?2

– Não consigo ficar bem com o sono. Mesmo tudo parecendo claro…3 A miragem, a alucinação, o sonho…4 Eu não faço idéia, pai. Podem ser muitas coisas5.

Os dois ficaram pensativos6.

– Por favor, não vá embora!7

O pai, sem pronunciar uma única palavra, pôs-se a andar de um lado para o outro8 num silêncio inquietante9, dirigindo-se até a janela da sala em busca de ar puro. Abriu-a violentamente, com gesto enérgico, quase que num ato de protesto silencioso contra o filho, que com um par de frases afundara toda sua vida dedicada com sucesso a10 cancelar11 o aumento da intimidade entre os dois12.

Olhou para as montanhas mais além de Lordsburg. Observando13, ficou sozinho com vontade de estar em algum lugar onde alguém gostasse dele14.

E voltou15.


1 Marçal AQUINO. Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios. Sã o Paulo: Companhia das Letras, 2009, pg.134.

2 Neil GAIMAN. Cabelo doido. Tradução de Leonardo Villa-Forte. Rio de Janeiro: Rocco, 2010, p.34.

3 Nira KAUFMAN. “Sonho”, em: Ar comprimido. São Paulo: Escola da Vila, 2001, p.73.

4 Michel TOURNIER. Sexta-feira ou Os limbos do pacífico. Tradução de Fernanda Botelho. São Paulo: Difel, 1985, p.48.

5 Antônio XERXENESKY. Areia nos dentes. Rio de Janeiro: Rocco, 2010, p.62.

6 Idem, p.57.

7 Maurice SENDAK. Onde vivem os monstros. Tradução de Heloisa Jahn. São Paulo: Cosac Naify, 2009, p.32.

8 Hermann BROCK. Pasenow ou O Romantismo, em: Os sonâmbulos. Tradução de Wilson Hilário Borges. São Paulo: Germinal, 2003, p.15.

9 Idem, p.13.

10 Enrique VILA-MATAS. A viagem vertical. Tradução de Laura Janina Hosiasson. São Paulo: Cosac Naify, 2010, p.42.

11 Ian McEWAN. Solar. Tradução de Jorio Dauster. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p.20.

12 Mallanaga VATSYAYANA. Kama Sutra. Tradução de Waltensir Dutra da versão cá·ssica de Richard Burton. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, p.146.

13 Ian McEWAN. Idem, p.308.

14 Maurice SENDAK. Idem, p.30.

15 Hermann BROCK. Idem, p.31.

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MixLit 51: Descarregar

Na solidão em que se encontrava com cervejas e fumaças1, Nate sacudiu a cabeça, frustrado2,   cuspiu por entre os dentes3, deitado com o rosto virado para as costas do sofá, solidão no meio de uma cidade superpovoada e rodeado de inúmeros conhecidos – solidão mais completa que qualquer outra4, um silêncio espesso5.

Nate6 enxugou o suor com as mãos e7 fixou o olhar na estátua do Rio de Janeiro. Comparou o Cristo ao crucifixo que trazia preso ao pescoço. Deu-lhe ainda um último beijo8 e passou a mão por cima do bolso lateral para se certificar mais uma vez de que a pistola automática9 encontrava-se realmente ali10.

Na ponta do cabo, tinha gravada uma palavra11: Metalman12. Todas as ferramentas servem para modificar alguma coisa13, Nate pensou14.


1 Leon TOLSTOI. A morte de Ivan Ilitch. Tradução de Vera Karam. Rio Grande do Sul: L&PM, 2007, p.90.

2 John GRISHAM. O testamento. Tradução de Lilian Dias. Edição condensada da Seleções de Livros Reader´s Digest, 2002, p.123.

3 Jorge AMADO. Capitães de areia. Rio de Janeiro: Record, 1996, p.107.

4 Leon TOLSTOI. Idem.

5 Joel RUFINO DOS SANTOS. Quatro dias de rebelião. Rio de Janeiro: José Olympio, 2007, p.93.

6 John GRISHAM. Idem, p.123.

7 PETRÔNIO. Satyricon.  Tradução de Sandra Braga Bianchet. Rio de Janeiro: Crisálida, 2004, edição bilingue, p.19.

8 Alexandre José FRAGA. Quando os demônios vão ao confessionário. Rio de Janeiro: Eldorado, 2002, p.53.

9 John BERGER. G. Tradução de Roberto Grey. Rio de Janeiro: Rocco, 2005, p.202.

10 John BERGER. G. Idem.

11 José Luís PEIXOTO. Cemitério de pianos. Lisboa: Bertrand, 2007, pg.276.

12 David FOSTER WALLACE. The broom of the system. Nova York: Penguin, 2010, p.413.

13 Ludwig WITTGENSTEIN. Investigações Filosóficas – Coleção Os Pensadores. Tradução de José Carlos Bruni. São Paulo: Nova Cultural, 1999, p.31.

14 John GRISHAM. Idem, p.38.

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