Archive for the ‘Cristovão TEZZA’ Category

MixLit 64: Ela com os dela, eu com os meus

Apoiando o dorso das mãos na testa e ronronando impaciente1, Beatriz enfim ergueu os olhos atentos do papel amarelo – ela acabava de ler a expressão2 todo muro é um tanto confuso3. Pronuciava a frase diante do espelho em voz baixa4 e com as próprias palavras ia-se excitando. Os olhos brilhavam5 metidos à procura de um ponto fixo, abstrato, que a fizesse encontrar uma resposta para uma pergunta sem resposta6, à espera de que alguma coisa, qualquer coisa, acontecesse7.

Fingi mais uma vez que não via nada8. Falei que ia embora9.

Quietos estamos salvos10, cada qual com seus demônios11.









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1 Daniel GALERA. Dentes guardados. Rio Grande do Sul: Livros do Mal, 2004, p.9.

2 Cristovão TEZZA. Um erro emocional. Rio de Janeiro: Record, 2010, p.57.

3 Ricardo DOMENECK. A cadela sem Logos. Rio de Janeiro/São Paulo: 7Letras/Cosac Naify, 2007, p.98.

4 Bernardo AJZENBERG. Olhos secos. Rio de Janeiro: Rocco, 2010, p.11.

5 Luandino VIEIRA. A cidade e a infância. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p.40.

6 Valter HUGO MÃE. A máquina de fazer espanhóis. São Paulo: Cosac Naify, 2011, p.146.

7 André DE LEONES. Dentes negros. Rio de Janeiro: Rocco, 2011, p.36.

8 Bruna BEBER. “Baixo orelhão”. Em: Liberdade até agora – uma antologia de contos. Organização de Eduardo Coelho e Márcio Debellian, Rio de Janeiro: Móbile, 2011, p.45.

9 Luiz RUFFATO. O livro das impossibilidades. Rio de Janeiro: Record, 2008, p.75.

10 Laura ERBER. Os corpos e os dias. São Paulo: Editora De Cultura, 2008, p.49.

11 José REZENDE JR. Eu perguntei pro velho se ele queria morrer. Rio de Janeiro: 7Letras, 2009, p.70.

Este MixLit com apenas autores de língua portuguesa foi publicado sob o título de “E o muro se ilumina” na terceira edição da Revista Pessoa.

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MixLit 59: A criança está para chegar

Tomando nosso café com torradas1, Maria olhava-me e ria2 sugerindo nomes (para meninos)3. Eu me levantei, pedi desculpas bestamente e4 saí à rua5. Durante a caminhada6, senti que um medo irracional e perturbador começou a me percorrer7.

Um filho?8 Meu filho9. O filho é a imagem mais próxima da ideia de destino, daquilo de que você não escapa. Ou daquilo de que você não pode escapar? Por quê? Por que eu não posso tomar outro rumo?10 Não conquistei nada11. Um derrotado na vida12. Quem não pode cumprir os deveres de pai não tem direito de tornar-se pai13.

– E se eu for um homem mau? – falei, e claro, me senti imediatamente desastrado14 – Não, não pode ser assim – disse15 – O que é que me tortura?16

Andei devagar para ganhar tempo17. Maria18 me aguardava andando pelo gramado, veio me abrir o portão19 e caminhou descalça até onde eu estava20. Tinha as faces vermelhas e molhadas de lágrimas21. Passou a mão na minha cabeça22 sem olhar para mim23 e sussurrou: “Na verdade, estou com um pouco de medo.”24

Cheguei a abrir a boca, e o que eu ia dizer envelheceu de imediato25. Então nos beijamos26.

Quando senti que a porta às minhas costas se fechava, não soube se começava a rir ou se chorava. Respirei aliviado27. Eu não queria mais lutar28. O que tem que ser será bom29.


1 Mario VARGAS LLOSA. Travessuras da menina má. Tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht. Rio de Janeiro: Objetiva, 2006, p.185.

2 e 18 Albert CAMUS. Estado de sítio/O estrangeiro. Tradução de Antonio Quadros. São Paulo: Abril Cultural, 1979, p.211.

3 Lionel SHRIVER. Precisamos falar sobre Kevin. Tradução de Beth Viera e Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2007, p.70.

4 Bernardo AJZENBERG. Olhos secos. Rio de Janeiro: Rocco, 2009, p.29.

5 e 12 Enrique VILA-MATAS. Doutor Pasavento. Tradução de José Geraldo Couto. São Paulo: Cosac Naify, 2009, p.189.

6 Herman HESSE. Sidarta. Tradução de Herbert Caro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1973, p.42.

7 Raymond CARVER. Iniciantes. Tradução de Rubens Figueiredo. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.83.

8 e 23 Milton HATOUM. Cinzas do Norte. São Paulo: Companhia das letras (de bolso), 2010, p.45 e p.13.

9 e 13 Jean-Jacques ROUSSEAU. Emílio ou Da educação. Tradução de Roberto Leal Ferreira. Rio de Janeiro: Martins Fontes, 2004, p.297 e p.27.

10 Cristovão TEZZA. O filho eterno. Rio de Janeiro: Record, 2010, p.41.

11 e 26 Roberto BOLAÑO. Estrela distante. Tradução de Bernardo Ajzenberg. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.142 e p.139.

14 João Gilberto NOLL. Harmada. São Paulo: Francis, 2003, p.96.

15 Leon TOLSTÓI. A morte de Ivan Ilitch. Tradução de Vera Karam. Rio Grande do Sul: L&PM, 2007, p.56.

16 Fernando PESSOA. Ficções do interlúdio. Lisboa: Assírio & Alvim, 2007, p.21.

17 Witold GOMBROWICZ. Cosmos. Tradução de Tomasz Barcinski e Carlos Alexandre Sá. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p.79.

 19 Raduan NASSAR. Um copo de cólera. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p.9.

20 Philip ROTH. Adeus Columbus. Tradução de Paulo Henriques Britto. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p.81.

21 Fernando SABINO. Duas novelas de amor. São Paulo: Ática, 2002, p.35.

22 Jorge AMADO. Capitães de areia. Rio de Janeiro: Record, 1996, p.54. 

23 Ian MCEWAN. Na praia. Tradução de Bernardo Carvalho. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p.68.

25 Adriana LUNARDI. A vendedora de fósforos. Rio de Janeiro: Rocco, 2011, p.80.

26 Marçal AQUINO. Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.228.

28 Clarice LISPECTOR. A paixão segundo G.H. Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p.88.

29 Walt WHITMAN. Folhas de relva. Tradução de Rodrigo Garcia Lopes. São Paulo: Iluminuras, 2008, p.153.

MixLit 56: Em casa

Quando Anton acordou, o cheiro do almoço já se espalhava pela casa inteira. Farejou: tinha torta no forno!1 Levantou-se, calçou as sandálias de couro e se arrastou até a cozinha2.  Sobre a mesa jaziam os restos do café da manhã, do qual não parecia ter sido consumida muita coisa3.  O pai estava sentado 4 , o copo de vinho à mão5.

– Dê só uma olhada – ele pediu, com6 a expressão fatigada e triste de um ator que já está farto de representar7.

Depois de8 Anton9 atacar um tomate cereja que ficava continuamente deslizando do seu garfo10, o velho11 murmurou:

– Cão, cão, falta à sua palavra12. Tens de mendigar o teu pão13. Conheço um lugar melhor para fazer isso14.

Por um momento, Anton ficou indeciso15. Repuxou o canto da boca e sorriu16.

– Eu… vou dormir. – disse17.

 – Que palhaçada é esta?18 – falou19 o pai20 –  Já não há erros; você cometeu todos eles21 – e não pôde ver como Anton tinha ficado vermelho22.


1 Angela SOMMER-BODENBURG. O pequeno vampiro. Tradução de João Azenha Jr. São Paulo: Martins Fontes, 1993, p.44.

2 Bernardo AJZENBERG. Olhos secos. Rio de Janeiro: Rocco, 2009, p.122.

3 Franz KAFKA. O veredicto/Na colônia penal. Tradução de Modesto Carone. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.15.

4 Franz KAFKA. Idem.

5 Cristovão TEZZA. Um erro emocional. Rio de Janeiro: Record, 2010, p.89.

6 Orhan PAMUK. A maleta do meu pai. Tradução de Sérgio Flaksman. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p.9.

7 Lygia FAGUNDES TELLES. Apenas um saxofone. Em: Liberdade até agora. Organização de Márcio Debellian e Eduardo Coelho. Rio de Janeiro: Móbile, 2011, p.149.

8 Azar NAFISI. Lendo Lolita em Teerã. Tradução de Fernando Esteves. Rio de Janeiro: Record/BestBolso, 2009, p.196.

9 Angela SOMMER-BODENBURG. Idem.

10 Azar NAFISI. Idem.

11 Hermann BROCK. Pasenow ou O Romantismo. Em: Os sonâmbulos. Tradução de Wilson Hilário Borges. São Paulo: Germinal, 2003, p.105.

12 Hermann BROCK. Idem.

13 Daniel DEFOE. Robinson Crusoé. Adaptação e revisão de Terra de Sena. Rio de Janeiro: Minerva, 1954, p.14

14 Adriana LUNARDI. A vendedora de fósforos. Rio de Janeiro: Rocco, 2011, p.75.

15 Angela SOMMER-BODENBURG. Idem, p.37.

16 Angela SOMMER-BODENBURG. Idem, p.131.

17 Angela SOMMER-BODENBURG. Idem, p.132.

18 Marcelino FREIRE. Vovô valério vai voar. Em: Liberdade até agora. Organização de Márcio Debellian e Eduardo Coelho. Rio de Janeiro: Móbile, 2011, p.239.

19 Marcelino FREIRE. Idem, p.232.

20 Franz KAFKA. Idem.

21 Dorothy PARKER. Meia-idade, triste idade. Em: Serrote número 7. Rio de Janeiro: Instituto Moreira Salles, 2011, p.205.

22 Angela SOMMER-BODENBURG. Idem, p.1.

MixLit 46: Inventar a terra

Depois de ter transformado a sua casa na vila, em Amarante, num verdadeiro museu etnológico de Angola, tendo consumido em vão essa fúria que o movia desde pequeno, João Teixeira de Vasconcelos pôs-se a escrever o África vivida, que termina desta forma1:

“Já fui um rapaz e já fui uma jovem, já fui um arbusto e já fui um pássaro da floresta, assim como já fui um peixe mudo do mar2. O mundo vive, mesmo de outra maneira3.”

Pela sua expressão atenciosamente irônica entendi que ele não estava interessado4 naquele interior familiar5, na nossa terra6, em ninguém do mundo que freqüentava7.

João baixou a cabeça no peito8:

– Você acha que meu livro está pronto, Celeste?9

– Acorda, homem, que estás na tua terra!10 Que obsessão mais deselegante11. Um livro grosso assim…12 Para quem você escreveu isso?13

Confuso e aflito consigo, eriçado de interrogações, de dúvidas, de escrúpulos14, apenas desdenhou15:

– A curiosidade, essa estranha força que nos empurra para diante, mesmo quando todos os sentidos nos dizem para recuar, a curiosidade há-de levá-lo longe – eventualmente até o abismo16.

– Estas banalidades!17 Tudo na nossa terra é extraordinário18. Você é que deu pra implicar19. Tem os terrenos mais férteis do mundo…20

– Que valem, portanto? Nada!… E nada, nada e nada milhões de vezes nada21.

João22 olhou para o mato sem saber o que fazer23. Percorria o globo e os planetas dentro de poucos minutos24, em silêncio25, em imaginação26. Começou a andar27.

– Adeus; tenho ainda que ver umas coisas que me faltam para logo à noite28.

Foi-se e não voltou29. Nunca mais30.

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TEXTO E IMAGEM PUBLICADOS ORIGINALMENTE NA REVISTA PESSOA, EDIÇÃO 1, EM NOVEMBRO DE 2010.

1 Miguel SOUSA TAVARES. Não te deixarei morrer, David Crockett. Nova Fronteira. Rio de Janeiro, 2005, p.162.
2 Lygia FAGUNDES TELLES. Conspiração de nuvens. Rocco. Rio de Janeiro, 2007, p.96.
3 Pedro ROSA MENDES. Baía dos Tigres. Sá/Rosari. São Paulo, 2001, p.88.
4 Lygia FAGUNDES TELLES. Conspiração de nuvens. Rocco. Rio de Janeiro, 2007, p.96.
5,6,7 Lima BARRETO. Triste fim de Policarpo Quaresma. Ática. São Paulo, 1993, p.106, p.75 e p.39.
8 Dalton TREVISAN. 33 contos escolhidos. Record. Rio de Janeiro, 2005, p.137.
9 Lúcia BETTENCOURT. A secretária de Borges. Record. Rio de Janeiro, 2006, p.117.
10 Eça de QUEIRÓS. A cidade e as sereias. Villa Rica. Belo Horizonte/Rio de Janeiro, 1994, p.101.
11 Reinaldo MORAES. Tanto faz. Brasiliense. São Paulo, 1982, p.140.
12 Machado de ASSIS. A idéia de Ezequiel Maia. Domínio público. Arquivo no site do Domínio Público, Brasil, p.6.
13 Cristovão TEZZA. Juliano Pavollini. Record. Rio de Janeiro, 2010, p.122.
14 António LOBO ANTUNES. Memória de elefante. Dom Quixote. Lisboa, 2007, p.45.
15 Luiz Antonio de ASSIS BRASIL. A margem imóvel do rio. L&PM. Porto Alegre, 2003, p.111.
16 José Eduardo AGUALUSA. Um estranho em Goa. Gryphus. Rio de Janeiro, 2010, p.154.
17 João do RIO. A alma encantadora das ruas. Domínio público. Arquivo no site do Domínio Público, Brasil, p.125.
18,19,20 Lima BARRETO. Triste fim de Policarpo Quaresma. Ática. São Paulo, 1993, p.105, p.27 e p.74.
21 João do RIO. A alma encantadora das ruas. Domínio público. Arquivo no site do Domínio Público, Brasil, p.125.
22 Dalton TREVISAN. 33 contos escolhidos. Record. Rio de Janeiro, 2005, p.137.
23 José Claudio da SILVA. Pai, posso dar um soco nele?. Casa do Novo Autor. São Paulo, 2003, p.7.
24 Machado de ASSIS. A idéia de Ezequiel Maia. Domínio público. Arquivo no site do Domínio Público, Brasil, p.2.
25 Olavo BILAC. Via-Láctea. Domínio público. Arquivo no site do Domínio Público, Brasil, p.2.
26 João Batista ALMEIDA GARRET. Viagens na minha terra. Domínio público. Arquivo no site do Domínio Público, Brasil, p.13.
27 José Claudio da SILVA. Pai, posso dar um soco nele?. Casa do Novo Autor. São Paulo, 2003, p.7.
28 Artur AZEVEDO. Viagem ao Parnaso. Domínio público. Arquivo no site do Domínio Público, Brasil, p.35.
29,30 João Batista ALMEIDA GARRET. Viagens na minha terra. Domínio público. Arquivo no site do Domínio Público, Brasil, p.13 e p.32.

IMAGEM: Desenho de Maria Beatriz Machado: http://www.flickr.com/photos/mariabiamachado

MixLit 15: Heranças e lições

Pareceu-lhe que os empregados retiraram seu avião do hangar vagarosamente e de má vontade.

– Depressa!, disse Bernard irritado. Um deles olhou-o. Seria uma espécie de zombaria bestial que ele identificou naqueles olhos baços e vazios? Depressa!, gritou mais alto e sua voz mostrou-se desagradavelmente rouca.(1)

– Será que me tornarei também um chefe?, perguntou Lucien.

– Mas certamente, meu rapagão, foi para isso que você nasceu.(2) Com sua boa vontade de aprender, de trabalhar e seguir avante, (3) aposto que sim.(4)

– E em quem eu mandarei?

– Bem, quando eu tiver morrido, você será o dono da usina e mandará nos operários.

– Mas eles estarão mortos também.

– Então você mandará nos filhos deles e será preciso que saiba fazer-se obedecer e amar.

– E como me farei amar, papai?

Papai refletiu um pouco e disse:

– Em primeiro lugar, será necessário que você conheça a todos pelos seus nomes.(5)Trata-se apenas de um jogo, ou, antes ainda, trata-se da encenação de um jogo, no qual o filho reproduz o que se espera dele.(6) Boa tática, meu jovem, é influenciar no começo e no fim todos os meios de comunicação do país. Esse é o objetivo.(7)

Assim falou ele e todos quedaram emudecidos.(8)

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1. Aldous HUXLEY. Admirável mundo novo. 1931. Tradução de Felisberto Albuquerque. Bradil – Cia. Brasileira de divulgação do livro. Rio de Janeiro. 1969, 11ª edição, pg.94.

2, 5. Jean-Paul SARTRE. O muro. 1938. Tradução de H. Alcântara Silveira. Editora Civilização Brasileira. Rio de Janeiro. 1963, conto: Infância de um chefe, pg.126.

3. Cristovão TEZZA. O filho eterno. 2007. Editora Record. Rio de Janeiro. 2007, 3ª edição, pg.154.

4. Carlo COLLODI. As aventuras de Pinóquio. Tradução de Ivo Barroso. São Paulo: Cosac Naify, pg.337.

6. Irvine WELSH. Trainspotting. Tradução de Daniel Pellizzari e Daniel Galera. Rio de Janeiro: Rocco, pg.315.

7. Lygia FAGUNDES TELLES. Seminário dos ratos. 1977. José Olympio Editora. Rio de Janeiro. 1980, 3ª edição, conto: Seminário dos ratos, pg.120.

8. HOMERO. Odisséia. III-II a.C. Tradução de Jaime Bruna. Editora Cultrix. São Paulo. Sem data, Canto VIII, pg.92.

Image: Tim Thomsom, Father and son, http://www.burnside.sa.gov.au/webdata/resources/images/Tim_Thomson__Father_and_Son.jpg

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