Archive for the ‘Ian McEWAN’ Category

MixLit 63: Os noivos

Naquela mesma noite, Emilia mentiu pela primeira vez para Julio, e a mentira foi1: não sou virgem.2

Ele não sabia o que dizer. Filho único, internato só de meninos – não sabia como falar com uma mulher quando as coisas davam errado.3 A verdade não se comunica4, cada um que entra imagina ser o primeiro a entrar.5

Levantou o rosto, apertou os olhos, estremeceu. A sua face doía. E quando pensava em levantar-se, logo desistia.6

Um estado de contemplação associado a uma respiração forte começou a acalmá-lo e, enquanto os ombros baixavam em verdadeiro relaxamento, lhe veio a ideia7: Largar o cobertor, a cama, o medo, o terço, o quarto, largar toda simbologia e religião; largar o espírito, largar a alma, abrir a porta principal e sair.8

 Emilia9 permaneceu deitada com o corpo tensionado10 em silêncio, o silêncio mais longo que já houvera entre eles.11


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1 Alejandro ZAMBRA. Bonsai. Tradução de Josely Vianna Baptista. São Paulo: Cosac Naify, 2012, p.21.

2 Nicolas BEHR. Poesia marginal – Poeta marginal? Eu, hein? No site do autor: http://www.nicolasbehr.com.br/pagpoesiamarg.htm

3 Ian MCEWAN. Serena. Tradução de Caetano Galindo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p.79.

4 Elaine PAUVOLID. O silêncio como contorno da mão. Rio de Janeiro: Multifoco, 2011, p.61.

James JOYCE. Ulysses. Tradução de Caetano Galindo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p.1029.

6 Nilton RESENDE. Diabolô. Maceió: Editora da Universidade de Alagoas, 2011, p.55

7 Leandro JARDIM. Rubores. Rio de Janeiro: Oito e meio, 2012, p.65.

8 Antônio CÍCERO. A cidade e os livros. Rio de Janeiro: Record, 2002, p.8 na amostra distribuída durante a Flip em Paraty, 2012.

9  Alejandro ZAMBRA, idem.

10 Jennifer EGANA visita cruel do tempo. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2011, p.16 na amostra distribuída durante a Flip em Paraty, 2012.

11 Jennifer EGAN, idem.

MixLit 59: A criança está para chegar

Tomando nosso café com torradas1, Maria olhava-me e ria2 sugerindo nomes (para meninos)3. Eu me levantei, pedi desculpas bestamente e4 saí à rua5. Durante a caminhada6, senti que um medo irracional e perturbador começou a me percorrer7.

Um filho?8 Meu filho9. O filho é a imagem mais próxima da ideia de destino, daquilo de que você não escapa. Ou daquilo de que você não pode escapar? Por quê? Por que eu não posso tomar outro rumo?10 Não conquistei nada11. Um derrotado na vida12. Quem não pode cumprir os deveres de pai não tem direito de tornar-se pai13.

– E se eu for um homem mau? – falei, e claro, me senti imediatamente desastrado14 – Não, não pode ser assim – disse15 – O que é que me tortura?16

Andei devagar para ganhar tempo17. Maria18 me aguardava andando pelo gramado, veio me abrir o portão19 e caminhou descalça até onde eu estava20. Tinha as faces vermelhas e molhadas de lágrimas21. Passou a mão na minha cabeça22 sem olhar para mim23 e sussurrou: “Na verdade, estou com um pouco de medo.”24

Cheguei a abrir a boca, e o que eu ia dizer envelheceu de imediato25. Então nos beijamos26.

Quando senti que a porta às minhas costas se fechava, não soube se começava a rir ou se chorava. Respirei aliviado27. Eu não queria mais lutar28. O que tem que ser será bom29.


1 Mario VARGAS LLOSA. Travessuras da menina má. Tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht. Rio de Janeiro: Objetiva, 2006, p.185.

2 e 18 Albert CAMUS. Estado de sítio/O estrangeiro. Tradução de Antonio Quadros. São Paulo: Abril Cultural, 1979, p.211.

3 Lionel SHRIVER. Precisamos falar sobre Kevin. Tradução de Beth Viera e Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2007, p.70.

4 Bernardo AJZENBERG. Olhos secos. Rio de Janeiro: Rocco, 2009, p.29.

5 e 12 Enrique VILA-MATAS. Doutor Pasavento. Tradução de José Geraldo Couto. São Paulo: Cosac Naify, 2009, p.189.

6 Herman HESSE. Sidarta. Tradução de Herbert Caro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1973, p.42.

7 Raymond CARVER. Iniciantes. Tradução de Rubens Figueiredo. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.83.

8 e 23 Milton HATOUM. Cinzas do Norte. São Paulo: Companhia das letras (de bolso), 2010, p.45 e p.13.

9 e 13 Jean-Jacques ROUSSEAU. Emílio ou Da educação. Tradução de Roberto Leal Ferreira. Rio de Janeiro: Martins Fontes, 2004, p.297 e p.27.

10 Cristovão TEZZA. O filho eterno. Rio de Janeiro: Record, 2010, p.41.

11 e 26 Roberto BOLAÑO. Estrela distante. Tradução de Bernardo Ajzenberg. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.142 e p.139.

14 João Gilberto NOLL. Harmada. São Paulo: Francis, 2003, p.96.

15 Leon TOLSTÓI. A morte de Ivan Ilitch. Tradução de Vera Karam. Rio Grande do Sul: L&PM, 2007, p.56.

16 Fernando PESSOA. Ficções do interlúdio. Lisboa: Assírio & Alvim, 2007, p.21.

17 Witold GOMBROWICZ. Cosmos. Tradução de Tomasz Barcinski e Carlos Alexandre Sá. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p.79.

 19 Raduan NASSAR. Um copo de cólera. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p.9.

20 Philip ROTH. Adeus Columbus. Tradução de Paulo Henriques Britto. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p.81.

21 Fernando SABINO. Duas novelas de amor. São Paulo: Ática, 2002, p.35.

22 Jorge AMADO. Capitães de areia. Rio de Janeiro: Record, 1996, p.54. 

23 Ian MCEWAN. Na praia. Tradução de Bernardo Carvalho. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p.68.

25 Adriana LUNARDI. A vendedora de fósforos. Rio de Janeiro: Rocco, 2011, p.80.

26 Marçal AQUINO. Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.228.

28 Clarice LISPECTOR. A paixão segundo G.H. Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p.88.

29 Walt WHITMAN. Folhas de relva. Tradução de Rodrigo Garcia Lopes. São Paulo: Iluminuras, 2008, p.153.

MixLit 52: A uma distância segura

Fechou o chuveiro, pegou a toalha1. Enorme, apareceu resmungando. Disse:

– O que está se passando?2

– Não consigo ficar bem com o sono. Mesmo tudo parecendo claro…3 A miragem, a alucinação, o sonho…4 Eu não faço idéia, pai. Podem ser muitas coisas5.

Os dois ficaram pensativos6.

– Por favor, não vá embora!7

O pai, sem pronunciar uma única palavra, pôs-se a andar de um lado para o outro8 num silêncio inquietante9, dirigindo-se até a janela da sala em busca de ar puro. Abriu-a violentamente, com gesto enérgico, quase que num ato de protesto silencioso contra o filho, que com um par de frases afundara toda sua vida dedicada com sucesso a10 cancelar11 o aumento da intimidade entre os dois12.

Olhou para as montanhas mais além de Lordsburg. Observando13, ficou sozinho com vontade de estar em algum lugar onde alguém gostasse dele14.

E voltou15.


1 Marçal AQUINO. Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios. Sã o Paulo: Companhia das Letras, 2009, pg.134.

2 Neil GAIMAN. Cabelo doido. Tradução de Leonardo Villa-Forte. Rio de Janeiro: Rocco, 2010, p.34.

3 Nira KAUFMAN. “Sonho”, em: Ar comprimido. São Paulo: Escola da Vila, 2001, p.73.

4 Michel TOURNIER. Sexta-feira ou Os limbos do pacífico. Tradução de Fernanda Botelho. São Paulo: Difel, 1985, p.48.

5 Antônio XERXENESKY. Areia nos dentes. Rio de Janeiro: Rocco, 2010, p.62.

6 Idem, p.57.

7 Maurice SENDAK. Onde vivem os monstros. Tradução de Heloisa Jahn. São Paulo: Cosac Naify, 2009, p.32.

8 Hermann BROCK. Pasenow ou O Romantismo, em: Os sonâmbulos. Tradução de Wilson Hilário Borges. São Paulo: Germinal, 2003, p.15.

9 Idem, p.13.

10 Enrique VILA-MATAS. A viagem vertical. Tradução de Laura Janina Hosiasson. São Paulo: Cosac Naify, 2010, p.42.

11 Ian McEWAN. Solar. Tradução de Jorio Dauster. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p.20.

12 Mallanaga VATSYAYANA. Kama Sutra. Tradução de Waltensir Dutra da versão cá·ssica de Richard Burton. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, p.146.

13 Ian McEWAN. Idem, p.308.

14 Maurice SENDAK. Idem, p.30.

15 Hermann BROCK. Idem, p.31.

MixLit 35: Gente velha

Sempre que vejo gente velha, especialmente meu pai, sinto que não estou nem mais nem menos perto da morte do que qualquer um deles, e isso me deixa profundamente inquieto: eles me fazem pensar que talvez eu tenha1 essa expressão fria e a mil léguas de distância da sensação presente2.

Com seu jeito tranquilo, minha mãe3 havia chegado à terceira idade e continuava desinteressada de esportes, ginástica, clubes de dança, enfim, do que cheirasse a “lazer para velhos que, divertindo, melhora a saúde e prolonga a vida”4.

– Sou a favor de qualquer coisa que me ajude a viver melhor. Mas bem no fundo, todos, em qualquer momento, sabemos mais ou menos o que está acontecendo.

– E o que acha que está acontecendo agora? – perguntei.

Sentia a sua mão na minha cabeça, mexendo no meu cabelo5.

– Deus vos abençoe, meu filho6.

Era preciso traçar-lhe novos horizontes7.

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1 João Paulo CUENCA. O único final feliz para uma história de amor é um acidente. 2010. Companhia das Letras. São Paulo. 2010, p.82.

2 STENDHAL. O vermelho e o negro. 1830. Tradução de Raquel Prado. CosacNaify. São Paulo. 2008, 2ª edição, 1ª reimpressão, p.301.

3 Ian MCEWAN. O jardim de cimento. 1978. Tradução de Jorio Dauster. Companhia das Letras. São Paulo. 2009, edição de bolso, p.18.

4 Adélia PRADO. Filandras. 2001. Record. Rio de Janeiro. 2001, p.125.

5 Gabi MARTÍNEZ. Sudd. 2007. Tradução de Mario Fondelli. Rocco. Rio de Janeiro. 2010, p.318.

6 Francis BACON. Nova Atlântida. 1627. Em: Bacon – Vida e obra. Tradução de José Aluysio Reis de Andrade. Nova Cultural. São Paulo. 1999, coleção: Os pensadores, pg.245.

7 João MELO. Crônica verdadeira da língua portuguesa. Sem data. Em: Revista Pessoa. Mombak/Imprensa Oficial. São Paulo. 2010, p.19.

MixLit 32: O que lhe passa?

– Desconfio que, nesses últimos meses, ele nunca procurou emprego. Dá pra fazer isso, vestido de sunga e camiseta?1

– Esses bichos aí – declarou Gridoux -, a gente nunca sabe o quê que eles têm na cabeça2.

Macedonio3, aborrecido consigo mesmo, esforçou-se por esconder o rosto dos olhares deles, fingindo contemplar, virado para um lado, o movimento das águas sem profundidade debaixo da ponte4.

– O que é que você anda fazendo esses dias?5 Com o quê que você sonha? – perguntou Gridoux6.

– Estou tão melancólico, sou muito fantasioso. Acabo sempre por chorar, só de ver meu casaco pendurado na parede. É lá que ele fica.

– Hum, inchado, obeso, pescoço volumoso, constituição apoplética7. Já está ficando mais amolecido. Também dever ser de ter pensado muito8. Aconteceu-lhe alguma coisa?

– Sim9. – tentou gritar.

Começou a chorar de mansinho10.

– Fiquei impressionado com a futilidade das esperanças e ambições que acossam, incansavelmente, a maioria dos homens durante toda a sua vida11. – diria Macedonio12.

Teria conseguido13.

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1 Ana Cristina MELO. Caixa de desejos. 2010. Usina de Letras. Brasília/Rio de Janeiro. 2010, p.40.

2,6 Raymond QUENEAU. Zazie no metrô. 1959. Tradução de Paulo Werneck. CosacNaify. São Paulo. 2009, p.130/p.133.

3,12 Ricardo PIGLIA. Formas breves. 2000. Tradução de José Marcos Mariani de Macedo. Companhia das Letras. São Paulo. 2004, p.30/p.25.

4 James JOYCE. Retrato do artista quando jovem. 1916. Tradução de José Geraldo Vieira. Ediouro e Publifolha. Rio de Janeiro e São Paulo. 1998, p.174.

5 Ian MCEWAN. O jardim de cimento. 1878. Tradução de Jorio Dauster. Companhia de bolso. São Paulo. 2009, p.92.

7 Georg BÜCHNER. Woyzeck. 1835. Tradução de Tércio Redondo. Hedra. São Paulo. 2003, p.61.

8 João GUIMARÃES ROSA. Sagarana. 1937. Nova Fronteira. Rio de Janeiro. 2001, p.168

9 André MALRAUX. A condição humana. 1933. Tradução de Jorge de Sena. Abril. São Paulo, 1972, p.41.

10 Mauro SIQUEIRA. Conto: Lullaby. Em: Revista Ficções 18. 7Letras. Rio de Janeiro. 2009, p.40.

11 Albert EINSTEIN. O pensamento vivo de. Tradução de José Geraldo Simões Jr. Ediouro. Rio de Janeiro. 1986, p.81.

13 Marguerite DURAS. O homem sentado no corredor/A doença da morte. 1980/1983. Tradução de Vadim Nikitin. Cosac Naify. São Paulo. P.18

Imagem: hardyc: http://www.flickr.com/people/hardyc/

MixLit 13: O amor ao longo do tempo

– Principais motivos para morrer: é o que os outros esperam que se faça quando você chega à minha idade; a decrepitude e senilidade iminentes; o desperdício de dinheiro – gastando a herança – para manter viva uma saca de ossos velhos incontinentes, com o cérebro morto; interesse reduzido nas notícias, fomes, guerras, etc. (1)

Carlos achou miseráveis as suas ideias. Na impossibilidade de encontrar palavras à altura da cena, tão simples e tão elevada ao mesmo tempo, respondeu com lugares-comuns sobre o destino das mulheres:

– Senhora – ele disse – é preciso sabermos esquecer nossas dores, ou então cavamos nossa sepultura.

Mas a razão é sempre mesquinha em face do sentimento; uma é naturalmente limitada, como tudo que é positivo, e o outro é infinito. Raciocinar onde é preciso sentir, isso é próprio das almas medíocres.(2)

– Que é que você está pretendendo? – ela perguntou finalmente.

– Nada, ora essa, já não falei? Quer que eu vá embora?

– Não… Pode ficar.

Sem se olharem, cada um esperava que o outro prosseguisse a conversa.(3)

– Você não quer voltar pra festa?

Laura franze as sobrancelhas.

– Acho que tá chata aquela festa.

E ri.

– Sério, você lembra o que aconteceu?

– Ahn, não muito. Eu fiquei tonta e comecei a pensar e ver umas coisas meio doidas. É isso que eu lembro.

– Talvez você devesse comer uns doces. Eu posso trazer uns doces pra você.(4)

– És um homem, tu! Tens tudo o que é preciso para te fazeres amar. Mas vamos recomeçar, não é verdade? Vamo-nos amar muito. Vês? Estou a rir, sinto-me feliz! Que dizes?(5)

– Viver é fazer mal, aos outros e a si próprio, através dos outros.(6)

– Mas você me ama.

– Por isso eu te amo.(7)

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1. Julian BARNES. Um toque de limão. 2004. Tradução de Ana Deiró. Editora Rocco. Rio de Janeiro. 2006, conto: Saber francês, pgs.190, 191.

2. Honoré de BALZAC. A mulher de trinta anos. 1842. Tradução de Casimiro Fernandes e Wilson Lousada. Círculo do Livro/Editora Globo. São Paulo. 1973, pg.132.

3. Fernando SABINO. Duas novelas de amor. 1998. Editora Ática. São Paulo. 2002, novela: Noite única, pg.85.

4. Carol BENSIMON. Pó de parede. Não Editora. Rio Grande do Sul. 2008, pgs.38, 39.

5. Gustave FLAUBERT. Madame Bovary. 1857. Tradução de Fernanda Ferreira Graça. Abril/Controljornal Edipresse. Linda-a-velha, Portugal. Biblioteca Visão, pg.285.

6. Albert CAMUS. Diário de viagem – A visita de Camus ao Brasil. 1949. Publicado na França em 1978. Tradução de Valerie Rumjnek Chaves. Editora Record. Rio de Janeiro.  Sem data, 2ª edição, pg.116.

7. Ian McEWAN. Na praia. 2007. Tradução de Bernardo Carvalho. Companhia das Letras. São Paulo. 2008, 6ª reimpressão, pg.100.

Imagem: Joan Brockwoldt, “The elderly couple”, http://joanbreckwoldt.blogspot.com

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