Archive for abril \25\UTC 2010

MixLit 9: Julgamento

A multidão começava a se dispersar, os vendedores recolhiam as suas coisas em grandes cestos, das varias fórnices que despontavam nas paredes de rocha, baixavam cordas e havia sempre alguém, nas diversas moradias, que puxava as mercadorias. Era um sobe e desce operoso, e logo toda a cidade ficou deserta.(1)

A reunião estava aberta, faziam-se os rodeios e as demoras protocolares como manda a boa tradição. Não se entrou diretamente no assunto, vagueando-se sobre o vento, o calor e outras ninharias. Todos se serviram cerveja, patrocinada pelo Tio Casuarino. Não havia copo para Mwadia, ela era mulher. Os homens bebiam devagar por respeito à bebida. Fazendo de conta que ninguém no mundo nunca antes tivesse bebido.(2)

Garambold não conseguia disfarçar a própria perturbação. Por mais que não quisesse ter nenhuma responsabilidade, e por mais que de fato não fosse diretamente responsável pelo que acontecera, ainda assim se sentia de alguma forma comprometido com o desaparecimento do rapaz. “Purevbaatar deve ter uma explicação”, repetia a propósito do outro.(3)

– Por que deste o recém-nascido a este ancião?

– Por piedade, meu senhor.(4)

A discussão foi viva, mas não prosperou: uma dessas faíscas súbitas que sobressaltam uma paisagem quieta, ameaçam revolucionar tudo e depois se extinguem na mesma velocidade com que irromperam. Nada mudou.(5)

Com o tronco estendido para a frente os dois homens, ansiosos, não se olharam.

Nolan deu o sinal.

Pardo, vaidoso do que ia fazer, caprichou na mão e deu um corte vistoso que ia de uma a outra orelha. O correntino contentou-se com um pequeno talho. Das gargantas brotou um jato de sangue, os homens deram uns passos e caíram de bruços.(6)

____________________

1. Umberto ECO. Baudolino. 2000. Tradução de Marco Lucchesi. Editora Record. Rio de Janeiro. 2001, pg.330.

2. Mia COUTO. O outro pé da sereia. 2006. Companhia das Letras. São Paulo. 2006, pg.128.

3. Bernardo CARVALHO. Mongólia. 2003. Companhia das Letras. São Paulo. 2004, 2a reimpressão, pg.48.

4. SÓFOCLES. A trilogia tebana. 430 a.C. Tradução de Mário da Gama Kury. Jorge Zahar Editor. Rio de Janeiro. 1989, 8a edição, tragédia: Édipo Rei, pg.82.

5. Alan PAULS. O passado. 2003. Tradução de Josely Vianna Baptista. CosacNaify editora. São Paulo. 2007, pgs.456, 457.

6. Jorge Luis BORGES. O informe de Brodie. 1970. Tradução de Hermilo Borba Filho. Editora Globo. Rio Grande do Sul. 1983, 2a edição, conto: O outro duelo, pg.90.

Imagem: “We will ride” (parte), de Mike Priddy, 2008, http://www.mikepriddy.com.au/

Anúncios

Mixlit 8: O que se pode querer por aí

Cheguei a Paris dois dias depois, transformado numa ruína física e moral. Não havia pregado os olhos nem comido nada nas últimas 48 horas. Mas também cheguei – tinha ruminado isso durante toda a viagem – decidido a não me deixar abater completamente, vencer a depressão que me corroía.◊

No salão estreito, o clima era eufórico, promovido pelo lazer involuntário que os passantes gozavam àquela hora da manhã. O garçom encheu um copo de conhaque até a borda e recolheu as moedinhas que eu depositara ao lado. A metade do conteúdo sorvi em um único gole, sentindo o líquido se assentar em meu estômago e distribuir fogo em todas as direções.○ Puta que pariu, tinha mulher por tudo quanto era canto e mais da metade parecia ser boa de cama, e não havia nada que se pudesse fazer – a não ser ficar olhando. Quem será que bolou um troço horrível desses? E no entanto não havia muita diferença entre uma e outra – descontando-se uma gordurinha aqui, uma falta de bunda lá – simplesmente uma porção de papoulas desabrochando no campo. Qual que se ia escolher? E por qual seria escolhido? Que importância tinha? Era tudo tão triste.□ Não amo as mulheres. O amor está para ser inventado, sabe-se. Elas só podem desejar uma situação segura. Ganha a situação, coração e beleza são postos de lado: não resta senão frio desdém, o alimento do casamento de hoje! Ou então vejo mulheres com sinais de felicidade, que eu podia tornar boas camaradas, já endurecidas por rústicos, sensíveis como açougueiros…⌂

Que consciência sádica, jocosa, tenho. Uma consciência insone, bêbada como um mar de ressaca gargalhando.∆ Minha razão condena em verdade tais recriminações e procura fortalecer-me contra os golpes da natureza, mas ela não pode impedir-me de os sentir. Iria de bom grado buscar no fim do mundo um bom ano de verdadeira tranquilidade e alegria, eu que só tenho como objetivo viver de bom humor. Sou muitas vezes de uma serenidade tristonha e estúpida, que me adormece e me dá dor de cabeça; não me basta. Se há por aí, em França ou alhures, alguém que aprecie a boa companhia, em viagem ou no lar, que se adapte ao meu humor e a quem eu me ajeite, que me comunique logo.◙

____________________

◊ Mario VARGAS LLOSA. Travessuras da menina má. 2006. Tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht. Editora Objetiva/Alfaguara. Rio de Janeiro. 2006, pg.158.

○ Adriana LUNARDI. Vésperas. 2002. Editora Rocco. Rio de Janeiro. 2002, pg.94.

□ Charles BUKOWSKI. A mulher mais linda da cidade e outras histórias. 1967. Tradução de Albino Poli Jr. Editora L&PM. Rio Grande do Sul. 1997, pgs.81, 82.

⌂ Arthur RIMBAUD. Uma temporada no inferno. 1873. Tradução de Paulo Hecker Filho. Editora L&PM. Rio Grande do Sul. Edição bilíngue, 2006, pgs.52, 53.

∆ Diana DE HOLLANDA. Dois que não o amor. 2007. Editora 7Letras. Rio de Janeiro. Seção: dois que não, pg.19.

◙. Michel de MONTAIGNE. Ensaios. 1580. Tradução de Sérgio Milliet. Editora Abril. São Paulo. Coleção Os Pensadores, 2ª edição, 1980, pg.384, 385.

Mixlit 7: Corte no mundo

Tudo na cidade continuava como antes – o exército no quartel, as fotografias do presidente por todo lado, o vapor realizando suas viagens regulares vindo da capital. Mas os homens haviam perdido ou rejeitado a idéia de uma autoridade vigilante(1). O pelotão que saía à noite para proteger o quartel, alapado nas matas rasas que cresciam, amarelentas, na areia, torcidas de anemia, aproximava-se no escuro, passava sob a lâmpada coberta de um abajur de insectos, dispersava-se sem ruído nas cabanas das casernas, onde a profundidade do sono se media pela intensidade do cheiro dos corpos, amontoados ao acaso como nas fossas de Auschwitz, e eu perguntava ao capitão O que fizeram do meu povo(2).

Desci a viela bêbado a ponto de precisar me apoiar na parede das casas, a maioria pintada de branco, uma afronta ao pó avermelhado daquele lugar(3). Nossas janelas estavam escuras. A entrada estava vazia. Entrei caminhando junto à parede da esquerda, mas não havia ninguém: só a escada subindo em curva na sombra ecos de passos de gerações tristes como poeira leve sobre as sombras, meus passos a despertá-las como pó, que depois descia, leve, outra vez. Vi a carta antes mesmo de acender a luz, em pé, apoiada num livro sobre a mesa, para que eu a visse:(4)

“Se a voz de uma mulher que conta histórias tem o poder de trazer crianças ao mundo, é também verdade que uma criança tem o poder de dar vida a histórias. Dizem que um homem ficaria louco se não pudesse sonhar à noite. Do mesmo modo, se não é permitido a uma criança entrar no…”(5)

Ouviu?, é tiro, vamos lá!(6)

____________________

1. V.S. NAIPUL. Uma curva no rio. 1979. Tradução de Carlos Graieb. Companhia das Letras. São Paulo. 2004, pg.239.

2. Antonio LOBO ANTUNES. Os cus de Judas.  1979. Alfaguara – Objetiva. Rio de Janeiro. 2007, 2ª edição, pg.54.

3. Marçal AQUINO. Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios. 2005. Companhia das Letras. São Paulo. 2009, 4ª reimpressão, pg.78.

4. William FAULKNER. O som e a fúria. 1929. Tradução de Paulo Henriques Britto. Cosac & Naify. São Paulo.2003, pg.166.

5. Paul AUSTER. A invenção da solidão. 1982. Tradução de Rubens Figueiredo. Companhia das Letras. São Paulo. 1999, pg.172.

6. Luiz RUFFATO. Eles eram muitos cavalos. 2001. Boitempo editorial. São Paulo. 2002, 2ª edição, pg 143.

Mixlit 6: Entre os outros

Simplesmente desligou o telefone e guardou os pacotes ainda fechados no armário. Depois seguiu, com o prato de sobremesa atulhado de queijo, para a sala, pousando-o sobre a mesa de centro. Ligou o gravador de rolo, onde dormia uma fita do Frank Sinatra, abriu seu novo Cutty Sark e sentou-se na poltrona. Ficou ali por cerca de vinte minutos(1).

Ao sair, ouviu os gritos excitados dos jornaleiros.

– Extra! – Extra! Parlamentar assassinado brutalmente!(2)

As implicações da palavra o atingiram, e uma terrível onda de medo subiu rolando seu sistema nervoso central, e seu coração começou a batucar num ritmo assustador.

O que foi que eu fiz? Cadeia! Eles vão me mandar para a cadeia(3).

Não era homem de chorar, um militar não chora mesmo após ter deixado a farda. Mas seus olhos ficaram miúdos, sua voz mudou, perdeu toda a fanfarronada. Era quase uma voz de criança ao perguntar:

– Como pôde acontecer?(4)

Quando viu o ajuntamento de pessoas lá embaixo, apontando mais ou menos em sua direção, não lhe passou pela cabeça que pudesse ser ele o centro das atenções. Não estava habituado a ser este centro e olhou para baixo e para cima e até para trás, a janela às suas costas. Talvez pudesse haver um princípio de incêndio ou algum andaime em perigo ou alguém prestes a pular(5).

Era uma época em que a vontade e a obstinação de existir, de deixar marcas, de provocar atrito com tudo aquilo que existe, não era inteiramente usada, dado que muitos não faziam nada com isso – por miséria ou ignorância ou porque tudo dava certo para eles do mesmo jeito – e assim uma certa quantidade andava perdida no vazio(6).

Pacientemente, fez um último esforço para conseguir mais uma batida de coração, mais uma respirada, e então lhes disse com teimosia e ênfase, sem demonstrar nenhum arrependimento ou pesar:

-Ora, com diabos, fui imortal até morrer.

Esperou, mas não ouve mais respiração. Sucumbindo por si mesmo, relaxou e deixou que o levassem(7).

____________________

1. Marcelo MOUTINHO. Somos todos iguais nesta noite. 2006. Editora Rocco. Rio de Janeiro. 2006, conto: Da profundeza do azul, pg.99.

2. Robert Louis STEVENSON. O médico e o monstro. 1886. Tradução de Heloisa Jahn. Editora Ática. São Paulo.1996, 4ª edição, pg.46.

3. Tom WOLFE. Emboscada no Forte Bragg. 1996. Tradução de Toni Marques. Editora Rocco/L&PM Editores. Rio de Janeiro/Rio Grande do Sul. 2008, edição pocket, pg.128.

4. Jorge AMADO. A morte e a morte de Quincas Berro Dágua. 1959. Editora Record. Rio de Janeiro.1998, 75ª edição, pg.58.

5. Sérgio SANT´ANNA. A senhorita Simpson. 1989. Companhia das Letras. São Paulo. 2003, 3ª reimpressão, conto: Um discurso sobre o método, pg.87

6. Italo CALVINO. O cavaleiro inexistente. 1959. Tradução Nilson Moulin. Companhia das Letras. São Paulo. 2007, 2ª reimpressão, edição de bolso, pg.31.

7. Jim DODGE. Fup. 1983. Tradução de Mela Laterman. Editora Nova Fronteira. Rio de Janeiro. 1984, pgs.93,94.

%d blogueiros gostam disto: