Archive for the ‘Roland BARTHES’ Category

MixLit 54: Uma ida à vida

Aqui o público entra e diz: VEJAMOS A CENA.

O morto responde: Eis1 o verdadeiro método para chegar ao conhecimento de todas as coisas2: Deus desistiu? Não resta nada para nós a não ser derramar nosso próprio sangue?3 De que estava Deus querendo nos lembrar? Não sou pessoa que precise ser lembrada de que dentro de tudo há sangue. Não só não esqueço o sangue de dentro como eu o admito e o quero, sou demais o sangue para esquecer o sangue, e para mim a palavra espiritual não tem sentido4, uma mistificação colossal5, e nem a palavra terrena6. Mas a verdade é que7 depois de dias fechados, uma manhã de bom tempo8, vacas aparando a grama, galinhas arregaladas9, brilho e sutileza da atmosfera: uma seda fresca e luminosa; este momento vazio (nenhum significado) produz uma evidência: vale a pena viver10. Mas não é lá um conselho que eu siga11. A estadia foi boa12, mas ela foi também forçosamente monótona13.

A essa altura, então, na peça bem desenvolvida (e, talvez, na vida honestamente analisada)14 estaremos livres para suspirar ou lamentar. E aí poderemos ir para casa15.

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1 Valère NOVARINA. Diante da palavra. Tradução de Ângela Leite Lopes. Rio de Janeiro: 7 Letras. 2009, p.29.

2 René DESCARTES. “Discurso do método”, em Descartes – Vida e obra, coleção Os pensadores. Tradução de Enrico Corvisieri. São Paulo: Nova Cultural, 1999, p.48.

3 Toni MORRISON. Amada. Tradução de José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p.257.

4 Clarice LISPECTOR. Felicidade clandestina. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1998, conto: Perdoando Deus, p.42.

5 Nelson RODRIGUES. O beijo no asfalto.Em: O teatro completo de, 4 – Tragédias cariocas II. 1961-1978. Nova Fronteira. Rio de Janeiro. 1990, p.143.

6 Clarice LISPECTOR. Idem, p.42.

7 Angélica FREITAS. Rilke-shake. Rio de Janeiro/São Paulo: 7Letras/Cosac Naify, 2006, p.28.

8 Roland BARTHES. A preparação do romance, vol.1. Tradução de Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Martins Fontes, 2005, p.99.

9 Angélica FREITAS. Idem, p.20.

10 Rolanda BARTHES. Idem, p.99.

11 Bruno AZEVÊDO. Breganejo Blues – novela trezoitão. Maranhão: Pitomba, 2009, p.48.

12 Bernardo AJZENBERG. Olhos secos. Rio de Janeiro: Rocco, 2011, p.9.

13 Bernardo AJZENBERG. Idem.

14 David MAMET. Três usos da faca. Tradução de Paulo Reis. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001, p.77.

15 David MAMET. Idem.

MixLit 30: Nunca, nenhuma, nada

Ajoelhado no assoalho de madeira, Silas orou suplicando perdão. Depois, tirando a túnica, estendeu o braço outra vez para pegar(1) o meu corpo, a minha pele clara, o meu seio(2).

– Nunca, na minha vida, nunca toquei numa prostituta!

– Eu conheço vocês todos!

– Sua nojentinha!

– Quem é que é nojenta?

– Você, sua vagabunda!(3) Tome. Quer mais? – Acrescentou uma nota maior, sentindo que a odiava, que teria dado qualquer coisa para não a ter encontrado(4). – Para tomar um traguinho – cochicha. E fica, todo excitado, a olhar para as estrelas(5). – O prazer e a dor – diz ele – que são dois sentimentos em si mesmos tão diferentes, não diferem tanto quanto a suas causas(6). Há apenas duas saídas e ambas estão igualmente trancadas: dos dois lados, nada posso fazer senão calar-me(7).

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Ele tinha se enforcado de madrugada(8).

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1. Dan BROWN. O código Da Vinci. 2003. Tradução de Cecília Cavalcante Falck-Cook. Sextante. Rio de Janeiro. 2004, p.160.

2. Sérgio TAVARES. Cavala. 2009. Record. Rio de Janeiro. 2010, conto: Cavala, p.41.

3. Nelson RODRIGUES. Toda nudez será castigada. 1965. Em: O teatro completo de, 4 – Tragédias cariocas II. 1961-1978. Nova Fronteira. Rio de Janeiro. 1990, p.172.

4. Juan Carlos ONETTI. O possível Baldi. Sem data. Tradução de Eliane Zagury. Em: Os primeiros contos de dez mestres da narrativa latino-americana. Org. de Ángel Rama. Paz e Terra. Rio de Janeiro. 1978, p.132.

5. Érico VERÍSSIMO. As mãos de meu filho. 1942. Em: Os cem melhores contos brasileiros do século. Org. de Italo Moriconi. Objetiva. Rio de Janeiro. 2000, p.179.

6. David HUME. A tragédia. Entre 1741 e 1751. Hume – Vida e obra. Tradução de João Paulo Gomes Monteiro e Armando Mora D´Oliveira. Nova Cultural. São Paulo. 1999, coleção: Os pensadores, pg.326.

7. Roland BARTHES. Fragmentos de um discurso amoroso. 1977. Tradução de Márcia Valéria Martinez de Aguiar. Martins Fontes Editora. São Paulo, 2ª edição, 2007, p.322.

8. Hafid AGGOUNE. Os amanhãs. 2004. Tradução de Maria Angela Villela. Rocco. Rio de Janeiro 2005, p.14.

Mixlit 1: Irrompe!

Havia, primeiro, a memória da infância, com as árvores tão sérias e caladas como pessoas enfeitiçadas.(1) Desculpe, me excedi um pouco, nem parece que tantos anos se passaram, quando me vejo tão exaltado até me esqueço de que aprendi, com a minha, digamos, experiência, não esta que acabo de relatar, tão reles, tão mínima se comparada à outra, que ainda não contei mas vou contar, tenha paciência, vou contar, até me esqueço que aprendi o segredo do mistério, gostaria de saber?(2) Eles têm muitos pensamentos, eu tenho só um pensamento, meu único pensamento vai acabar sendo mais forte que os muitos deles.(3)

Há certos tipos de pessoas que têm algo que as distingue dos outros seres humanos. Pessoas assim possuem um instinto geralmente encontrado apenas nas crianças pequenas: o instinto de estabelecer imediatamente um contato vital entre elas e todas as coisas do mundo.(4) Estão acostumadas, é o modo de ser que escolheram, estabilizando-se assim, e mexer nisto fará com que se voltem contra nós, a despeito das nossas melhores intenções.(5)

Da terça-feira e da quarta, guardo flashes desconexos. A imagem mais nítida está relacionada ao liquidificador. Acho que fiz uma batida com suco de maracujá, leite condensado, vodca ou tequila e uma mão cheia de comprimidos de diversas cores e calibres.(6)

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Nesse momento sua memória começou a esgarçar, até mesmo a ficar desorientada, como seus passos; em algum lugar, voltou a se deparar com uma praça: perambulou por aléias poeirentas, entre gangorras quebradas, castelos de areia inacabados, passou por bancos largos e pesados, esquecidos de tempos imemoriais.(7) Com a mão no peito e o ouvido atento escutava aquela entediante música sabendo que era ela, afinal, que o permitia durar. A repetição salvava o organismo por dentro, mas por fora era indispensável uma expectativa em relação a surpresas, invasões, derrocadas, saltos súbitos e outros percalços.(8)

Quando assim me acontece de abismar-me, é porque já não há lugar para mim em parte alguma, nem mesmo na morte.(9)

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[1] Robert MUSIL. O jovem Torless. 1906. Tradução de Lya Luft. Coleção Grandes Romances. Editora Nova Fronteira. Rio de Janeiro, 1978, p.85.

[2] Flávio CARNEIRO. A confissão. 2006. Editora Rocco. Rio de Janeiro, 2006, p.34.

[3] J.M. COETZEE. Vida e época de Michael K. 1983. Tradução de José Rubens Siqueira. Companhia das Letras. São Paulo, 2ª edição, p.65.

[4] Carson MCCULLERS. A balada do café triste. 1951. Tradução de Caio Fernando Abreu. Círculo do Livro. São Paulo, 1987, p.31.

[5] Nuno RAMOS. Ó. 2008. Editora Iluminuras. São Paulo, 2009, p.207.

[6] Max MALLMAN. Síndrome de Quimera. 2000. Editora Rocco. Rio de Janeiro, 2000, p.58.

[7] Imre KÉRTESZ. O fiasco. 1988. Tradução de Ildikó Suto. Editora Planeta. São Paulo, 2004, p.137.

[8] Gonçalo M. TAVARES. O senhor Calvino. 2004. Casa da Palavra. Rio de Janeiro, 2007, p.58.

[9] Roland BARTHES. Fragmentos de um discurso amoroso. 1977. Tradução de Márcia Valéria Martinez de Aguiar. Martins Fontes Editora. São Paulo, 2ª edição, 2007, p.4.



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