Archive for the ‘Jorge AMADO’ Category

MixLit 59: A criança está para chegar

Tomando nosso café com torradas1, Maria olhava-me e ria2 sugerindo nomes (para meninos)3. Eu me levantei, pedi desculpas bestamente e4 saí à rua5. Durante a caminhada6, senti que um medo irracional e perturbador começou a me percorrer7.

Um filho?8 Meu filho9. O filho é a imagem mais próxima da ideia de destino, daquilo de que você não escapa. Ou daquilo de que você não pode escapar? Por quê? Por que eu não posso tomar outro rumo?10 Não conquistei nada11. Um derrotado na vida12. Quem não pode cumprir os deveres de pai não tem direito de tornar-se pai13.

– E se eu for um homem mau? – falei, e claro, me senti imediatamente desastrado14 – Não, não pode ser assim – disse15 – O que é que me tortura?16

Andei devagar para ganhar tempo17. Maria18 me aguardava andando pelo gramado, veio me abrir o portão19 e caminhou descalça até onde eu estava20. Tinha as faces vermelhas e molhadas de lágrimas21. Passou a mão na minha cabeça22 sem olhar para mim23 e sussurrou: “Na verdade, estou com um pouco de medo.”24

Cheguei a abrir a boca, e o que eu ia dizer envelheceu de imediato25. Então nos beijamos26.

Quando senti que a porta às minhas costas se fechava, não soube se começava a rir ou se chorava. Respirei aliviado27. Eu não queria mais lutar28. O que tem que ser será bom29.


1 Mario VARGAS LLOSA. Travessuras da menina má. Tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht. Rio de Janeiro: Objetiva, 2006, p.185.

2 e 18 Albert CAMUS. Estado de sítio/O estrangeiro. Tradução de Antonio Quadros. São Paulo: Abril Cultural, 1979, p.211.

3 Lionel SHRIVER. Precisamos falar sobre Kevin. Tradução de Beth Viera e Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2007, p.70.

4 Bernardo AJZENBERG. Olhos secos. Rio de Janeiro: Rocco, 2009, p.29.

5 e 12 Enrique VILA-MATAS. Doutor Pasavento. Tradução de José Geraldo Couto. São Paulo: Cosac Naify, 2009, p.189.

6 Herman HESSE. Sidarta. Tradução de Herbert Caro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1973, p.42.

7 Raymond CARVER. Iniciantes. Tradução de Rubens Figueiredo. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.83.

8 e 23 Milton HATOUM. Cinzas do Norte. São Paulo: Companhia das letras (de bolso), 2010, p.45 e p.13.

9 e 13 Jean-Jacques ROUSSEAU. Emílio ou Da educação. Tradução de Roberto Leal Ferreira. Rio de Janeiro: Martins Fontes, 2004, p.297 e p.27.

10 Cristovão TEZZA. O filho eterno. Rio de Janeiro: Record, 2010, p.41.

11 e 26 Roberto BOLAÑO. Estrela distante. Tradução de Bernardo Ajzenberg. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.142 e p.139.

14 João Gilberto NOLL. Harmada. São Paulo: Francis, 2003, p.96.

15 Leon TOLSTÓI. A morte de Ivan Ilitch. Tradução de Vera Karam. Rio Grande do Sul: L&PM, 2007, p.56.

16 Fernando PESSOA. Ficções do interlúdio. Lisboa: Assírio & Alvim, 2007, p.21.

17 Witold GOMBROWICZ. Cosmos. Tradução de Tomasz Barcinski e Carlos Alexandre Sá. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p.79.

 19 Raduan NASSAR. Um copo de cólera. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p.9.

20 Philip ROTH. Adeus Columbus. Tradução de Paulo Henriques Britto. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p.81.

21 Fernando SABINO. Duas novelas de amor. São Paulo: Ática, 2002, p.35.

22 Jorge AMADO. Capitães de areia. Rio de Janeiro: Record, 1996, p.54. 

23 Ian MCEWAN. Na praia. Tradução de Bernardo Carvalho. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p.68.

25 Adriana LUNARDI. A vendedora de fósforos. Rio de Janeiro: Rocco, 2011, p.80.

26 Marçal AQUINO. Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.228.

28 Clarice LISPECTOR. A paixão segundo G.H. Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p.88.

29 Walt WHITMAN. Folhas de relva. Tradução de Rodrigo Garcia Lopes. São Paulo: Iluminuras, 2008, p.153.

MixLit 51: Descarregar

Na solidão em que se encontrava com cervejas e fumaças1, Nate sacudiu a cabeça, frustrado2,   cuspiu por entre os dentes3, deitado com o rosto virado para as costas do sofá, solidão no meio de uma cidade superpovoada e rodeado de inúmeros conhecidos – solidão mais completa que qualquer outra4, um silêncio espesso5.

Nate6 enxugou o suor com as mãos e7 fixou o olhar na estátua do Rio de Janeiro. Comparou o Cristo ao crucifixo que trazia preso ao pescoço. Deu-lhe ainda um último beijo8 e passou a mão por cima do bolso lateral para se certificar mais uma vez de que a pistola automática9 encontrava-se realmente ali10.

Na ponta do cabo, tinha gravada uma palavra11: Metalman12. Todas as ferramentas servem para modificar alguma coisa13, Nate pensou14.


1 Leon TOLSTOI. A morte de Ivan Ilitch. Tradução de Vera Karam. Rio Grande do Sul: L&PM, 2007, p.90.

2 John GRISHAM. O testamento. Tradução de Lilian Dias. Edição condensada da Seleções de Livros Reader´s Digest, 2002, p.123.

3 Jorge AMADO. Capitães de areia. Rio de Janeiro: Record, 1996, p.107.

4 Leon TOLSTOI. Idem.

5 Joel RUFINO DOS SANTOS. Quatro dias de rebelião. Rio de Janeiro: José Olympio, 2007, p.93.

6 John GRISHAM. Idem, p.123.

7 PETRÔNIO. Satyricon.  Tradução de Sandra Braga Bianchet. Rio de Janeiro: Crisálida, 2004, edição bilingue, p.19.

8 Alexandre José FRAGA. Quando os demônios vão ao confessionário. Rio de Janeiro: Eldorado, 2002, p.53.

9 John BERGER. G. Tradução de Roberto Grey. Rio de Janeiro: Rocco, 2005, p.202.

10 John BERGER. G. Idem.

11 José Luís PEIXOTO. Cemitério de pianos. Lisboa: Bertrand, 2007, pg.276.

12 David FOSTER WALLACE. The broom of the system. Nova York: Penguin, 2010, p.413.

13 Ludwig WITTGENSTEIN. Investigações Filosóficas – Coleção Os Pensadores. Tradução de José Carlos Bruni. São Paulo: Nova Cultural, 1999, p.31.

14 John GRISHAM. Idem, p.38.

MixLit 40: O dia seguinte

A noite tinha sido difícil, a pior até agora, embora eu já estivesse acostumado ao interregno turbulento em que meu sono havia se transformado. Eram pequenas nebulosas no estado de vigília e não duravam mais de quinze minutos, tempo suficiente, contudo, para inquietar- me com as imagens pavorosas que apareciam nos sonhos1. Se a escuridão fosse completa, eu conseguiria encostar-me de novo, cerrar os olhos, pensar num encontro que tive durante o dia, recordar uma frase, um rosto, a mão que apertou os dedos, mentiras sussurradas inutilmente2. Tudo de repente se tornara um tanto solene, esquisito.

Eu ia dobrando as roupas e as depositava meio ritualisticamente numa valise de segunda mão que eu comprara fazia pouco tempo. Quando via uma camisa ou uma calça que acabara de colocar na valise eu respirava fundo, me vinham imagens mudas como a de uma velha vassoura varrendo folhas de uma calçada, figurações assim, rápidas e como que despojadas de uma motivação inicial, e eu me sentia a cumprir uma tarefa extrema, como se depois dali eu não tivesse que fazer malas nunca mais3.

Foi quando cinco raios sucederamse no céu, a trovoada reboou num barulho de fim do mundo4. Com uma chuva destas, que pouco lhe falta para um dilúvio, seria de esperar que as pessoas estivessem recolhidas, à espera que o tempo estiasse5. Foi a própria Ana que tomou a iniciativa de vir até a minha mesa. – Posso me sentar por um instante? – ela perguntou6 – Não retires de mim a tua mão, eu me prometo que talvez até o fim deste relato impossível talvez eu entenda, oh talvez pelo caminho do inferno eu chegue a encontrar o que nós precisamos, mas não retires a tua mão7. Pausei num sorriso de magia e encantamento, coisa familiar mesmo.

Acho que ela não ia acreditar se eu lhe dissesse a verdade8. – A questão é que minha insônia começou há 30 anos, quando nasci. E só vai terminar daqui a 30 anos, quando eu morrer9. Não podia mudar aquilo que era definitivo, mas apenas deixei os braços e as pernas perderem a força sobre a cama, apenas deixei o corpo repousar, aceitar a noite, quando, na escuridão do quarto, me convenci de que tinha tomado uma decisão10.

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1. Adriana LUNARDI. Vésperas. Rocco. Rio de Janeiro. 2002, pg.41.

2. Graciliano RAMOS. Insônia. 1947. Record. Rio de Janeiro. 2001, pg.10.

3. João Gilberto NOLL. Harmada. 2003. W11, selo Francis. São Paulo. 2003, pg.93.

4. Jorge AMADO. A morte e a morte de Quincas Berro D’água. 1959. Record. Rio de Janeiro.1998, 75a edição, pg.94.

5. José SARAMAGO. Ensaio sobre a cegueira. 1995. Companhia das Letras. São Paulo. 2004, 28a reimpressão, pg.225.

6. Sérgio SANT ́ANNA. A senhorita Simpson. 1989. Companhia das Letras. São Paulo. 2003, 3a reimpressão, pgs.160,161.

7. Clarice LISPECTOR. A paixão segundo G.H. 1964. Rocco. Rio de Janeiro. 1998, pg.73.

8. ONDJAKI. Os da minha rua. 2009. Língua Geral. Rio de Janeiro. 2009, 1a reimpressão, pg.129.

9. Gonçalo M. TAVARES. O homem ou é tonto ou é mulher. 2002. Casa da Palavra. Rio de Janeiro. 2005, pg.15.

10. José Luís PEIXOTO. Cemitério de pianos. 2006. Bertrand. Lisboa. 2007, 3a edição, pg.215.

Imagem: Foto, por Maria Beatriz Machado

ESTE TEXTO FOI PUBLICADO ORIGINALMENTE NA REVISTA PESSOA, EDIÇÃO ZERO, E COM ELE É DADO ENCERRADO O TRABALHO NO MixLit DURANTE O ANO DE 2010.

Mixlit 6: Entre os outros

Simplesmente desligou o telefone e guardou os pacotes ainda fechados no armário. Depois seguiu, com o prato de sobremesa atulhado de queijo, para a sala, pousando-o sobre a mesa de centro. Ligou o gravador de rolo, onde dormia uma fita do Frank Sinatra, abriu seu novo Cutty Sark e sentou-se na poltrona. Ficou ali por cerca de vinte minutos(1).

Ao sair, ouviu os gritos excitados dos jornaleiros.

– Extra! – Extra! Parlamentar assassinado brutalmente!(2)

As implicações da palavra o atingiram, e uma terrível onda de medo subiu rolando seu sistema nervoso central, e seu coração começou a batucar num ritmo assustador.

O que foi que eu fiz? Cadeia! Eles vão me mandar para a cadeia(3).

Não era homem de chorar, um militar não chora mesmo após ter deixado a farda. Mas seus olhos ficaram miúdos, sua voz mudou, perdeu toda a fanfarronada. Era quase uma voz de criança ao perguntar:

– Como pôde acontecer?(4)

Quando viu o ajuntamento de pessoas lá embaixo, apontando mais ou menos em sua direção, não lhe passou pela cabeça que pudesse ser ele o centro das atenções. Não estava habituado a ser este centro e olhou para baixo e para cima e até para trás, a janela às suas costas. Talvez pudesse haver um princípio de incêndio ou algum andaime em perigo ou alguém prestes a pular(5).

Era uma época em que a vontade e a obstinação de existir, de deixar marcas, de provocar atrito com tudo aquilo que existe, não era inteiramente usada, dado que muitos não faziam nada com isso – por miséria ou ignorância ou porque tudo dava certo para eles do mesmo jeito – e assim uma certa quantidade andava perdida no vazio(6).

Pacientemente, fez um último esforço para conseguir mais uma batida de coração, mais uma respirada, e então lhes disse com teimosia e ênfase, sem demonstrar nenhum arrependimento ou pesar:

-Ora, com diabos, fui imortal até morrer.

Esperou, mas não ouve mais respiração. Sucumbindo por si mesmo, relaxou e deixou que o levassem(7).

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1. Marcelo MOUTINHO. Somos todos iguais nesta noite. 2006. Editora Rocco. Rio de Janeiro. 2006, conto: Da profundeza do azul, pg.99.

2. Robert Louis STEVENSON. O médico e o monstro. 1886. Tradução de Heloisa Jahn. Editora Ática. São Paulo.1996, 4ª edição, pg.46.

3. Tom WOLFE. Emboscada no Forte Bragg. 1996. Tradução de Toni Marques. Editora Rocco/L&PM Editores. Rio de Janeiro/Rio Grande do Sul. 2008, edição pocket, pg.128.

4. Jorge AMADO. A morte e a morte de Quincas Berro Dágua. 1959. Editora Record. Rio de Janeiro.1998, 75ª edição, pg.58.

5. Sérgio SANT´ANNA. A senhorita Simpson. 1989. Companhia das Letras. São Paulo. 2003, 3ª reimpressão, conto: Um discurso sobre o método, pg.87

6. Italo CALVINO. O cavaleiro inexistente. 1959. Tradução Nilson Moulin. Companhia das Letras. São Paulo. 2007, 2ª reimpressão, edição de bolso, pg.31.

7. Jim DODGE. Fup. 1983. Tradução de Mela Laterman. Editora Nova Fronteira. Rio de Janeiro. 1984, pgs.93,94.

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