Archive for the ‘José Eduardo AGUALUSA’ Category

MixLit 46: Inventar a terra

Depois de ter transformado a sua casa na vila, em Amarante, num verdadeiro museu etnológico de Angola, tendo consumido em vão essa fúria que o movia desde pequeno, João Teixeira de Vasconcelos pôs-se a escrever o África vivida, que termina desta forma1:

“Já fui um rapaz e já fui uma jovem, já fui um arbusto e já fui um pássaro da floresta, assim como já fui um peixe mudo do mar2. O mundo vive, mesmo de outra maneira3.”

Pela sua expressão atenciosamente irônica entendi que ele não estava interessado4 naquele interior familiar5, na nossa terra6, em ninguém do mundo que freqüentava7.

João baixou a cabeça no peito8:

– Você acha que meu livro está pronto, Celeste?9

– Acorda, homem, que estás na tua terra!10 Que obsessão mais deselegante11. Um livro grosso assim…12 Para quem você escreveu isso?13

Confuso e aflito consigo, eriçado de interrogações, de dúvidas, de escrúpulos14, apenas desdenhou15:

– A curiosidade, essa estranha força que nos empurra para diante, mesmo quando todos os sentidos nos dizem para recuar, a curiosidade há-de levá-lo longe – eventualmente até o abismo16.

– Estas banalidades!17 Tudo na nossa terra é extraordinário18. Você é que deu pra implicar19. Tem os terrenos mais férteis do mundo…20

– Que valem, portanto? Nada!… E nada, nada e nada milhões de vezes nada21.

João22 olhou para o mato sem saber o que fazer23. Percorria o globo e os planetas dentro de poucos minutos24, em silêncio25, em imaginação26. Começou a andar27.

– Adeus; tenho ainda que ver umas coisas que me faltam para logo à noite28.

Foi-se e não voltou29. Nunca mais30.

____________________

TEXTO E IMAGEM PUBLICADOS ORIGINALMENTE NA REVISTA PESSOA, EDIÇÃO 1, EM NOVEMBRO DE 2010.

1 Miguel SOUSA TAVARES. Não te deixarei morrer, David Crockett. Nova Fronteira. Rio de Janeiro, 2005, p.162.
2 Lygia FAGUNDES TELLES. Conspiração de nuvens. Rocco. Rio de Janeiro, 2007, p.96.
3 Pedro ROSA MENDES. Baía dos Tigres. Sá/Rosari. São Paulo, 2001, p.88.
4 Lygia FAGUNDES TELLES. Conspiração de nuvens. Rocco. Rio de Janeiro, 2007, p.96.
5,6,7 Lima BARRETO. Triste fim de Policarpo Quaresma. Ática. São Paulo, 1993, p.106, p.75 e p.39.
8 Dalton TREVISAN. 33 contos escolhidos. Record. Rio de Janeiro, 2005, p.137.
9 Lúcia BETTENCOURT. A secretária de Borges. Record. Rio de Janeiro, 2006, p.117.
10 Eça de QUEIRÓS. A cidade e as sereias. Villa Rica. Belo Horizonte/Rio de Janeiro, 1994, p.101.
11 Reinaldo MORAES. Tanto faz. Brasiliense. São Paulo, 1982, p.140.
12 Machado de ASSIS. A idéia de Ezequiel Maia. Domínio público. Arquivo no site do Domínio Público, Brasil, p.6.
13 Cristovão TEZZA. Juliano Pavollini. Record. Rio de Janeiro, 2010, p.122.
14 António LOBO ANTUNES. Memória de elefante. Dom Quixote. Lisboa, 2007, p.45.
15 Luiz Antonio de ASSIS BRASIL. A margem imóvel do rio. L&PM. Porto Alegre, 2003, p.111.
16 José Eduardo AGUALUSA. Um estranho em Goa. Gryphus. Rio de Janeiro, 2010, p.154.
17 João do RIO. A alma encantadora das ruas. Domínio público. Arquivo no site do Domínio Público, Brasil, p.125.
18,19,20 Lima BARRETO. Triste fim de Policarpo Quaresma. Ática. São Paulo, 1993, p.105, p.27 e p.74.
21 João do RIO. A alma encantadora das ruas. Domínio público. Arquivo no site do Domínio Público, Brasil, p.125.
22 Dalton TREVISAN. 33 contos escolhidos. Record. Rio de Janeiro, 2005, p.137.
23 José Claudio da SILVA. Pai, posso dar um soco nele?. Casa do Novo Autor. São Paulo, 2003, p.7.
24 Machado de ASSIS. A idéia de Ezequiel Maia. Domínio público. Arquivo no site do Domínio Público, Brasil, p.2.
25 Olavo BILAC. Via-Láctea. Domínio público. Arquivo no site do Domínio Público, Brasil, p.2.
26 João Batista ALMEIDA GARRET. Viagens na minha terra. Domínio público. Arquivo no site do Domínio Público, Brasil, p.13.
27 José Claudio da SILVA. Pai, posso dar um soco nele?. Casa do Novo Autor. São Paulo, 2003, p.7.
28 Artur AZEVEDO. Viagem ao Parnaso. Domínio público. Arquivo no site do Domínio Público, Brasil, p.35.
29,30 João Batista ALMEIDA GARRET. Viagens na minha terra. Domínio público. Arquivo no site do Domínio Público, Brasil, p.13 e p.32.

IMAGEM: Desenho de Maria Beatriz Machado: http://www.flickr.com/photos/mariabiamachado

Anúncios

MixLit 41: A postura do poeta Miguel

“Não viajo para países em guerra”, me disse o Miguel quando eu perguntei se ele tinha vontade de ir1.

Ele2 mantém cuidadosamente seu diário, guarda sua correspondência, redige as minutas de todas as reuniões em que discutem a situação e se indagam como continuar. Ele lhes explica3: as palavras sempre foram inimigas das coisas e há desde sempre uma luta entre a fala e os ídolos4.

Aprendi há muito5: não agir dá-nos tudo. Imaginar é tudo, desde que não tenda para agir6.  É sempre mais tentador se empenhar em algo familiar7. O poeta é o gênio da lembrança. Não pode fazer senão recordar, não pode fazer mais do que admirar o que foi realizado pelo herói8.

Quanto a mim, apetecer-me-ia9 o gosto do sangue10.

____________________

1. Os sete NOVOS. Amoramérica. Rio de Janeiro: 7 Letras. 2008, p.63.

2,3. Milan KUNDERA. O livro do riso e do esquecimento. Tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1987, p.10.

4. Valère NOVARINA. Diante da palavra. Tradução de Ângela Leite Lopes. Rio de Janeiro: 7 Letras. 2009, p.15.

5. José Eduardo AGUALUSA. Milagrário pessoal. Rio de Janeiro: Língua Geral. 2010, p. 21.

6. Fernando PESSOA. Livro do desassossego. São Paulo: Companhia das Letras. 2009, p.179.

7. Waly SALOMÃO. Babilaques. Trabalho: “Construtivista tabaréu”, 1977. Rio de Janeiro: Contracapa. 2007, pg.41

8. Soren KIERKEGAARD. Temor e Tremor. Tradução de Torrieri Guimarães. Rio de Janeiro: Ediouro. Sem data, p.35

9. Walter CAMPOS DE CARVALHO. A lua vem da Ásia. Escrito em 1956, edição eletrônica em pdf disponível na internet, p.71.

10. André MALRAUX. A condição humana. Tradução de Jorge de Sena. São Paulo: Abril. 1972, p.41.

MixLit 12: Coisa desagradável

Às dez e meia estávamos como dois colegiais na recepção do hotel, esperando. Chegaram Oscar Niemayer e José Aparecido, e desafiando, uma vez mais, o calor, partimos rumo a Canoas, um paraíso na Gávea.  A casa foi construída em 1953, mas desde há anos que Oscar não a habita, porque o sítio se tornou pouco seguro.(1)

Nós dois, brancos e rodeados por dez ou doze negros, e nada com que nos preocuparmos, nada a temer da parte deles: não éramos nós os seus opressores nem eram eles os nossos inimigos – o inimigo-opressor que nos aterrorizava a todos era a forma pela qual a sociedade estava organizada e era governada.(2)

– Consegue viver com isso?

– Você acha que um leão deve preocupar-se com as gazelas que mata? Acha que seria um leão melhor caso se preocupasse? A mim parece-me, pelo contrário, que seria um mau leão. A natureza dele é comer as gazelas. O destino das gazelas é deixarem-se comer pelos leões.(3)

Todos se sentiram desanimados quando viram o sol passar sobre suas cabeças e começar a declinar em direção ao longínquo horizonte. (4) Mal dava para perceber o recorte dos morros contra o céu, com a imponente silhueta da pedra da Gávea ao fundo.(5) No jardim, lá embaixo, a brisa levantava de vez em quando a bandeira adornada de um caduceu. O céu voltara a nublar-se em toda parte. Desapareceu o sol, e quase imediatamente surgiu um frio pouco hospitaleiro.(6)

– Embaixada cruel! Viagem malograda, preparativos inúteis, favor devolver-me as fotos.(7)

____________________

1. José SARAMAGO. Cadernos de Lanzarote II. 1998. Companhia das Letras. São Paulo. 1999, pgs.62,63.

2. Philip ROTH. Casei com um comunista. 1998. Tradução de Rubens Figueiredo. Companhia das Letras. São Paulo. 2005, 1ª reimpressão, pg.126.

3. José Eduardo AGUALUSA. Um estranho em Goa. 2000. Editora Gryphus. Rio de Janeiro. 2001, pg.65.

4. J.K. ROWLING. Os contos de Beedle, O Bardo. 2008. Tradução de Lia Wyler. Editor Rocco. Rio de Janeiro. 2008, pg.29.

5. Luiz Alfredo GARCIA-ROZA. Céu de origamis. 2009. Companhia das Letras. São Paulo. 2009, pg.142.

6. Thomas MANN. A montanha mágica. 1924. Tradução de Herbert Caro. Editora Nova Fronteira. Rio de Janeiro. 2000, 9ª reimpressão, pg.110.

7. Julio CORTÁZAR. A volta ao dia em 80 mundos – tomo II. 1967. Tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht. Civilização Brasileira/Editora Record. Rio de Janeiro. 2008, pg.160.

%d blogueiros gostam disto: