Archive for the ‘Thomas BERNHARD’ Category

MixLit 58: Se estou vivo, algo está morrendo

Não me venha com teorias, estou farto1. É necessário que no trato com nós próprios nos portemos com extrema sinceridade. Caso contrário2, por que romper certos silêncios e ouvir sombras capazes de ferir?3 Peço  justiça para aqueles que, com suas vidas e obras, são uma benção para a humanidade. Não coloco acima de tudo4 Nietzsche e os conceitos de vontade de potência e eterno retorno, Bergson e os conceitos de multiplicidade, atual e virtual, gênese, atualização, duração e Espinosa e os conceitos de intensidade, expressão, imanência5. A razão humana é um amálgama confuso  em que todas as opiniões e todos os costumes, qualquer que seja a sua natureza, encontram igualmente lugar6. Nos últimos meses, três ex-colegas meus se mataram7, desesperados com o fato de o mundo já não possuir os sentidos e a capacidade para acolher suas artes e ciências8. O que é que interessa às pessoas hoje em dia? Dançar, tomar banho, conversar; porém, nada de coisas sérias nem de trabalhar9. Começo a ficar rabugento10, estragado, como qualquer um pode ver11. Não me incomodo em repetir12: Não sabia que a morte podia ser vivida13.

____________________

1 Herberto HELDER. Photomaton & Vox. Lisboa: Assírio e Alvim, 1979, pg.89.

2 Ramón Gómez de LA SERNA. O médico inverossímil.  Tradução de Júlio Henriques. Lisboa: Antígona, 1998, pg.23.

3 Lu MENEZES. Onde o céu descasca. Rio de Janeiro: 7Letras, 2011, p.78.

4 Henry David THOREAU. Walden, ou a vida nos bosques. Tradução de Denise Bottman. Rio Grande do Sul: L&PM, 2010, pg.82.

5 Roberto MACHADO. Deleuze, a arte e a filosofia. Rio de Janeiro: Zahar, 2010, pg.247.

6 Michel de MONTAIGNE. Ensaios. Tradução de Sérgio Milliet. São Paulo: Abril. Coleção Os Pensadores, 2ª edição, 1980, pg.59.

Thomas BERNHARD. O imitador de vozes. Tradução de Sérgio Tellaroli. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, pg.151.

8 Thomas BERNHARD. Idem.

9 Elias CANETTI. Auto de fé. Tradução de Luís de Almeida Campos. Lisboa: Cavalo de Ferro, 2011, pg.30.

10 Herman MELVILLE. Moby Dick. Tradução de Irene Hirsch e Alexandre Barbosa de Souza. São Paulo: Cosac Naify, 2010, pg.26.

11 Carlito AZEVEDO. Collapsus linguae. Rio de Janeiro: 7Letras, 2001, pg.15.

12 João Gilberto NOLL. Harmada. São Paulo:Francis, 2003, pg.63.

13 Marguerite DURAS. O homem sentado no corredor/A doença da morte. Tradução de Vadim Nikitim. São Paulo: Cosac Naify, 2007, pg.78.

MixLit 48: Parar antes de ter que parar

À noite, durante o jantar, após eu1 fazer a barba2, meu pai3 veio se sentar no sofá, ao meu lado. Queria me dizer alguma coisa. Eu o adivinhava desde o começo do jantar, e já sabia do que se tratava.

– Como bebi! – disse ele – Isso é pior do que qualquer veneno. Mas esta é a última vez. Palavra! A última vez! Tenho força de vontade…4

Coçava a cabeça com a caneta como se isto pudesse devolver-lhe a consciência interrompida pelo5 seu conhaque francês6.

– Chega um momento em que não se pode mais continuar7 – continuava falando8 – Livre! Enfim livre!9

Levantou-se e10 avançou dois passos, os braços estirados como para abraçar alguém, sem ver nada. Infelizmente escorregou no soalho muito lustroso e parou. Veio-lhe então a ideia de que escorregar era inconveniente. Não devia escorregar11.

– Me desculpa. Estou meio alegre. Esta noite nunca mais12.

Não ouço outra coisa desde que existo13. Que tragédia, meu pai14.


1 Vladimir NABOKOV. Lolita. Tradução de Jorio Dauster. Rio de Janeiro: O Globo; São Paulo: Folha de São Paulo, 2003, p.49.

2 Georg BÜCHNER. Woyzeck. 1835. Tradução de Tércio Redondo. Hedra. São Paulo. 2003, p.63.

3 Orhan PAMUK. Neve. 2002. Tradução de Luciano Machado. Companhia das Letras. São Paulo. 8ª edição, 2007, p.137.

4 Anton TCHEKHOV. Estranha confissão. 1945. Tradução do castelhano por Bernardo Ajzenberg. Editora Planeta. São Paulo. 2005, pg.63.

5Mariel REIS. A caderneta. Em: Revista Ficções 18. 7Letras. Rio de Janeiro. 2009, p.62.

6Autran DOURADO. Os mínimos carapinas do nada. Em: Os cem melhores contos brasileiros do século. Org. de Italo Moriconi. Objetiva. Rio de Janeiro. 2000, p.514.

7 e 10 Milan KUNDERA. O livro do riso e do esquecimento. Tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1987, p.47, 55.

8 Jorge Luis BORGES. Ficções. Tradução de Davi Arrigucci Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p.105.

9, 12 e 14Dalton TREVISAN. 33 contos escolhidos.  Rio de Janeiro: Record, 2005, p.92, 93 e 96.

11 Graciliano RAMOS. Insônia.  Rio de Janeiro: Record. 2001, pg.100.

13Thomas BERNHARD. Montaigne – Uma narrativa. Em: Revista Serrote. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2011, p.232.


MixLit 10: Retorno

Me deu vontade de mijar. Provavelmente, por causa do nervosismo. Uma última mijada, então. Fui na calçada mesmo, atrás de um carro. Quanto terminei, tremi e o ar me faltou na garganta,(1) não obstante, me pareceu absurdo dizer isso a meu pai. Fazia tempo que lhe dava uma falsa imagem de mim. Me pareceu então que não tinha sentido dizer-lhe que, ainda assim, muitas coisas continuavam me oprimindo e que eu não era uma pessoa a salvo de dificuldades. Que, com o tempo, minhas dificuldades aumentavam também. Ele deve até acreditar, pensei, que não tenho dificuldades.(2)

– Nesta noite em que estamos juntos não tem sentido falar de mais nada além da verdade, do essencial, porque o nosso encontro não se repetirá e talvez já não serão muitos os dias e as noites que se seguirão, e menos ainda as noites especiais como esta. Talvez você se lembrará de que uma vez, faz muito tempo…(3)

Afrouxei o colarinho e enxuguei a testa com o punho. Soltei um pigarro, ainda incapaz de encarar seus olhos. Senti que um medo irracional e perturbador começou a me percorrer e a dor atrás dos meus olhos ficou mais forte. Meu pai continuou a me fitar, até que comecei a me revirar e nós dois nos demos conta de que eu não tinha nada a lhe oferecer.(4)

– Diga-me, por favor, o que fizeste.

– Como? Não fiz nada, respondi.

– Vamos lá, pense bem. Já passaste dos quarenta, não é mesmo? É tempo de ter juízo! O que estás pensando? Acha que não estou sabendo de todas as tuas molecagens? Agora destes para cercar a filha do diretor? Olha bem para ti, pensa um minuto naquilo que tu és! Um zero, não mais do que isso. E não tens um tostão. Te olha no espelho só por um instante, será que não te enxergas?(5)

O negócio é que eu tinha de dizer alguma coisa.

Era uma situação embaraçosa pra burro.

– Apanha tua bagagem e volta correndo pra cá. Vou deixar a porta só encostada.

– Muito obrigado.(6)

____________________

1. Daniel GALERA. Dentes guardados. 2004. Livros do Mal. Rio Grande do Sul. 2004, conto: Subconsciente, pg.41.

2. Thomas BERNHARD. Perturbação. 1969. Tradução de Hans Peter Welper e José Laurenio de Melo. Editora Rocco. Rio de Janeiro. 1999, pg.76.

3. Sandor MÁRAI. As brasas. 1942. Tradução de Rosa Freire D´Aguiar. Companhia das Letras. São Paulo. 2008, 8ª reimpressão, pg.97.

4. Raymond CARVER. Iniciantes. 1981 (What we talk about when we talk about love). Tradução de Rubens Figueiredo. Conto: O lance. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, pg.83.

5. Nikolai GOGOL. Diário de um louco (precedido de O Nariz). Entre 1932 e 1952. Tradução de Roberto Gomes. L&PM Pocket. Rio Grande do Sul. 2007, pg.65.

6. J.D. SALINGER. O apanhador no campo de centeio. 1945. Tradução de Álvaro Alencar, Antônio Rocha e Jório Dauster. Editora do Autor. Rio de Janeiro. Sem data, pg.187.

%d blogueiros gostam disto: