Archive for junho \28\UTC 2010

MixLit 18: Remédio do tempo

Era um sueco chamado Emmanuelson e, quando o conheci, trabalhava como maître d´hotel num dos hotéis de Nairóbi. Ele era um rapaz gorducho, de rosto avermelhado e inchado, e costumava ficar de pé ao lado da mesa quando eu almoçava no hotel.(1) Surpreendia-se pensando no tempo e na terra de onde viera. Se ele tivesse sabido que havia só um décimo, só um centésimo do que aprendera aqui, como a vida teria sido mais válida!(2) O tempo era assim pra ele: fazia horas a mais.(3) Em troca de certos favores, ele responderia as minhas perguntas. Mas eu tinha que estar disposto a entender o lado dele. Tinha que ouvir com a mente aberta.(4)

– Acho que vocês poderiam fazer alguma coisa melhor com o tempo – disse – do que gastá-lo com adivinhações que não têm resposta.

– Se você conhecesse o Tempo tão bem quanto eu, falaria dele com mais respeito.(5) Vejo-o: fechado como eu, fechado entre palavras, entre as paredes do seu escritório, perpetuamente iluminado pelas lâmpadas fluorescentes: lendo.

E quanto a ele?

– E quanto a mim?

Disse que o mundo para ele se transformara num recinto excessivamente fechado.

– Não saio daqui. Reduzi meus domínios a este aposento. De vez em quando olho por aquela janela. O que vejo? Árvores. Vejo árvores.(6)

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1. Karen BLIXEN. A fazenda africana.  1937. Tradução de Claudio Marcondes. Cosac Naify. São Paulo. 2005, pg.219.

2. Richard BACH. A história de Fernão Capelo Gaivota. 1970. Tradução de Antônio Ramos Rosa e Madalena Rosález. Nórdica. Rio de Janeiro. Sem data, pg.100.

3. ZIRALDO. O menino maluquinho. 1980. Melhoramentos. São Paulo. 1980, 5ª edição, pg.83.

4. John DUNNING. O último caso da colecionadora de livros. 2006. Tradução de Álvaro Hattnher. Companhia das Letras. São Paulo. 2009, pg.388.

5. Lewis CARROL. Aventuras de Alice no país das maravilhas/Através do espelho e o que Alice encontrou lá. 1865/1872. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. Zahar. Rio de Janeiro. 2010, pg.84.

6. Ricardo PIGLIA. Respiração artificial. 1980. Tradução de Heloisa Jahn. Companhia das Letras. São Paulo. 2010, pg.40.

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MixLit 17: Intervalo de ensaio

No final daquele ato, o ensaio foi interrompido. Seria retomado, disse o regente em inglês, francês e alemão, uma hora e meia mais tarde. O regente saiu; os músicos deixaram seus instrumentos e também saíram. Colocando-se de pé, Rick foi para os bastidores, até os camarins; seguiu o final da fila do elenco, demorando-se e pensando, é melhor assim, acabar de vez com isso.(1)

– Há muita música, uma voz excelente, neste pequeno instrumento, e você é incapaz de fazê-lo falar. Pelo sangue de Cristo! Pode me chamar do instrumento que quiser, pode me dedilhar quanto quiser, que não vai arrancar o menor som…(2)

– Ah… meu Deus…

– Eu estou de olho em você desde o início! Nem uma vez você pôs as vendas nos olhos deste rapaz aqui! Você chega aqui e polvilha o lugar com pó-de-arroz e borrifa perfume e cobre a lâmpada com uma lanterna de papel, e olhem! Vejam que o lugar se transformou no Egito e você é a Rainha do Nilo! E eu estou dizendo… Ha! Ha! Está me ouvindo?(3)

Uma figura chama a atenção de Bruna. Ela puxa o cartão e aproxima do seu foco de visão. É possuída por uma vertigem. Tudo gira. Um terrível mal-estar. Bruna começa a suar frio e quase desmaia.(4)

“O marido matou sua mulher!”(5)

– Desculpem… houve engano…um engano…

E os rapazes compreenderam ainda menos quando a viram fugir, a princípio lentamente, depois numa carreira cega. Nem desconfiaram que ela fugira a trancar-se no quarto e, mordendo o travesseiro, chorou as lágrimas mais amargas e mais quentes que tinha nos olhos.(6)

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1. Philip K. DICK. O caçador de andróides. 1968. Tradução de Ryta Vinagre. Editora Rocco. Rio de Janeiro. 2007, pg.112.

2. William SHAKESPEARE. Hamlet. 1599-1601. Tradução de Millôr Fernandes. Editora L&PM. Rio Grande do Sul. 2007, pg.82.

3. Tennessee WILLIAMS. Um bonde chamado desejo. 1947. Tradução de Beatriz Viégas-Faria. Editora L&PM. Rio Grande do Sul. 2008, pg.139.

4. Lourenço MUTARELLI. A arte de produzir efeito sem causa. 2008. Companhia das Letras. São Paulo. 2008, 1ª reimpressão, pg.192.

5. Anton TCHEKHOV. Estranha confissão. 1945. Tradução do castelhano por Bernardo Ajzenberg. Editora Planeta. São Paulo. 2005, pg.172.

6. Rachel DE QUEIROZ. Os cem melhores contos brasileiros do século. Seleção: Italo Moriconi. Editora Objetiva. Rio de Janeiro. 2000, conto: Tangerine-Girl, pgs.164,165. In: A casa do morro branco, 1948.

MixLit 16: Repercussão no infinito

Estrelas se abrem entre lírios(1)

O mar misturado

Ao sol.(2)

Como beijo de moça, água

Na pele, flor(3)

E as mãos do homem não têm mais sentido.(4)

Palmas indecisas na sala deserta

não acham o tom

o instante certo de insistir.(5)

O olho, como um balão bizarro, se dirige para o

Infinito.(6)

E nada existe mais aflito,

mais singularmente profundo

que a repercussão no infinito.(7)

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Texto feito pela amiga Eugênia Ribas Vieira, que remixou os poetas:

(1) Sylvia PLATH. Poemas. 1962. Tradução de Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça. São Paulo: Editora Iluminuras, 2007. Poema: Travessia; Crossing the water. Pág. 31.

(2) Arthur RIMBAUD. Uma temporada no inferno & Iluminações. 1873. Tradução de Lêdo Ivo. Rio de Janeiro: Editora Francisco Alves, 2004. Poema: A eternidade; L’éternité. Pág. 77

(3) Ferreira GULLAR. Toda poesia. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 2006. Poema: Açúcar (1980). Pág. 165.

(4) Federico GARCÍA LORCA. Obra poética completa. Tradução de William Agel de Melo. Brasília: Editora UnB, 4ª edição, 1996. Poema: Gazel da fuga; Gacela de la huida (1936). Pág. 547.

(5) Armando FREITAS FILHO. Máquina de escrever, poesia reunida e revista. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003. Do livro: Números anônimos. Pág. 506.

(6) Ana Cristina CÉSAR. A teus pés. São Paulo: Editora Brasiliense, 6ª edição. 1ª edição em 1982. Epílogo. Pág. 118.

(7) Cecília MEIRELES. Poesias completas de Cecília Meireles. Rio de janeiro: Editora Civilização Brasileira, 2ª edição, 1976. Poema: Dança bárbara. Pág. 96.

MixLit 15: Heranças e lições

Pareceu-lhe que os empregados retiraram seu avião do hangar vagarosamente e de má vontade.

– Depressa!, disse Bernard irritado. Um deles olhou-o. Seria uma espécie de zombaria bestial que ele identificou naqueles olhos baços e vazios? Depressa!, gritou mais alto e sua voz mostrou-se desagradavelmente rouca.(1)

– Será que me tornarei também um chefe?, perguntou Lucien.

– Mas certamente, meu rapagão, foi para isso que você nasceu.(2) Com sua boa vontade de aprender, de trabalhar e seguir avante, (3) aposto que sim.(4)

– E em quem eu mandarei?

– Bem, quando eu tiver morrido, você será o dono da usina e mandará nos operários.

– Mas eles estarão mortos também.

– Então você mandará nos filhos deles e será preciso que saiba fazer-se obedecer e amar.

– E como me farei amar, papai?

Papai refletiu um pouco e disse:

– Em primeiro lugar, será necessário que você conheça a todos pelos seus nomes.(5)Trata-se apenas de um jogo, ou, antes ainda, trata-se da encenação de um jogo, no qual o filho reproduz o que se espera dele.(6) Boa tática, meu jovem, é influenciar no começo e no fim todos os meios de comunicação do país. Esse é o objetivo.(7)

Assim falou ele e todos quedaram emudecidos.(8)

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1. Aldous HUXLEY. Admirável mundo novo. 1931. Tradução de Felisberto Albuquerque. Bradil – Cia. Brasileira de divulgação do livro. Rio de Janeiro. 1969, 11ª edição, pg.94.

2, 5. Jean-Paul SARTRE. O muro. 1938. Tradução de H. Alcântara Silveira. Editora Civilização Brasileira. Rio de Janeiro. 1963, conto: Infância de um chefe, pg.126.

3. Cristovão TEZZA. O filho eterno. 2007. Editora Record. Rio de Janeiro. 2007, 3ª edição, pg.154.

4. Carlo COLLODI. As aventuras de Pinóquio. Tradução de Ivo Barroso. São Paulo: Cosac Naify, pg.337.

6. Irvine WELSH. Trainspotting. Tradução de Daniel Pellizzari e Daniel Galera. Rio de Janeiro: Rocco, pg.315.

7. Lygia FAGUNDES TELLES. Seminário dos ratos. 1977. José Olympio Editora. Rio de Janeiro. 1980, 3ª edição, conto: Seminário dos ratos, pg.120.

8. HOMERO. Odisséia. III-II a.C. Tradução de Jaime Bruna. Editora Cultrix. São Paulo. Sem data, Canto VIII, pg.92.

Image: Tim Thomsom, Father and son, http://www.burnside.sa.gov.au/webdata/resources/images/Tim_Thomson__Father_and_Son.jpg

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