Archive for outubro \25\UTC 2010

MixLit 35: Gente velha

Sempre que vejo gente velha, especialmente meu pai, sinto que não estou nem mais nem menos perto da morte do que qualquer um deles, e isso me deixa profundamente inquieto: eles me fazem pensar que talvez eu tenha1 essa expressão fria e a mil léguas de distância da sensação presente2.

Com seu jeito tranquilo, minha mãe3 havia chegado à terceira idade e continuava desinteressada de esportes, ginástica, clubes de dança, enfim, do que cheirasse a “lazer para velhos que, divertindo, melhora a saúde e prolonga a vida”4.

– Sou a favor de qualquer coisa que me ajude a viver melhor. Mas bem no fundo, todos, em qualquer momento, sabemos mais ou menos o que está acontecendo.

– E o que acha que está acontecendo agora? – perguntei.

Sentia a sua mão na minha cabeça, mexendo no meu cabelo5.

– Deus vos abençoe, meu filho6.

Era preciso traçar-lhe novos horizontes7.

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1 João Paulo CUENCA. O único final feliz para uma história de amor é um acidente. 2010. Companhia das Letras. São Paulo. 2010, p.82.

2 STENDHAL. O vermelho e o negro. 1830. Tradução de Raquel Prado. CosacNaify. São Paulo. 2008, 2ª edição, 1ª reimpressão, p.301.

3 Ian MCEWAN. O jardim de cimento. 1978. Tradução de Jorio Dauster. Companhia das Letras. São Paulo. 2009, edição de bolso, p.18.

4 Adélia PRADO. Filandras. 2001. Record. Rio de Janeiro. 2001, p.125.

5 Gabi MARTÍNEZ. Sudd. 2007. Tradução de Mario Fondelli. Rocco. Rio de Janeiro. 2010, p.318.

6 Francis BACON. Nova Atlântida. 1627. Em: Bacon – Vida e obra. Tradução de José Aluysio Reis de Andrade. Nova Cultural. São Paulo. 1999, coleção: Os pensadores, pg.245.

7 João MELO. Crônica verdadeira da língua portuguesa. Sem data. Em: Revista Pessoa. Mombak/Imprensa Oficial. São Paulo. 2010, p.19.

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MixLit 34: Tempos depois

Já fazia muito tempo1 e estava muito bonita. Mas gostava mais dela com os cabelos soltos. Do lugar onde estava, eu adivinhava-lhe o peso ligeiro dos seios e reconhecia-lhe o lábio inferior, sempre um pouco inchado. Parecia muito nervosa2.

Me dê um lugar, disse ela. Meu primeiro movimento foi ir embora, mas o cansaço, e o fato de não ter para onde ir, me impediram3. Sacou os óculos do rosto com displicência, apoiou a cabeça nas mãos e assim ficou. Bufando.

– Boa noite – eu disse4.

Ela não respondeu e fiquei calado, brincando com a corda da persiana.

– Ainda está zangada? – perguntei, afinal.

– Estou.

– Não fique assim5. Eu… não queria… Eu queria que nada disso tivesse acontecido.

– Tudo bem.

– Diz o que você quer. Quer me xingar?

– Não.

– Quer me dar um soco? Eu deixo6.

– Não, não precisa também. Brigada7.

O céu ficou carregado de nuvens escurecidas. Olhei lá para fora à espera de uma trovoada que trouxesse uma chuva de meia-hora. Mas nada8. Eu estava para dizer que entendia perfeitamente quando ela se recostou contra a almofada, pegou na minha mão e, com um sorriso travesso destinado a reforçar a sua candura, disse9:

– Você é papai10.

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1 Charles BUKOWSKI. A mulher mais linda da cidade e outras histórias. Tradução de Albino Poli Jr. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2003, p.112.

2 Albert CAMUS. Estado de sítio/O estrangeiro. Tradução de Antonio Quadros. São Paulo: Abril Cultural, 1979, p.263.

3 Samuel BECKETT. Primeiro amor. Tradução de Célia Euvaldo. São Paulo: Cosac Naify, 2007, p.10.

4 Max MALLMAN. Síndrome de Quimera. Rio de Janeiro: Rocco, 2000, p.35.

5 Philip ROTH. Goodbye, Columbus – e outros contos. Tradução de Luiz Horácio da Matta. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 1971, p.86.

6 Lourenço MUTARELLI. A arte de produzir efeito sem causa. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p.68.

7 Carol BENSIMON. Pó de parede. Porto Alegre: não editora, 2008, p.37.

8 ONDJAKI. Os da minha rua. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2009, p.134.

9 Henry MILLER. Dias de paz em Clichy. Tradução de Roberto Muggiati. Rio de Janeiro: José Olympio, 2004, p.12.

10 Rodrigo de SOUZA LEÃO. Todos os cachorros são azuis. Rio de Janeiro: 7Letras, 2008, p.32.

MixLit 33: Uma proibição ambiciosa

Acabo de reler, pela última vez, o comunicado oficial que recebi há dois dias, pela manhã, selado com o timbre obscuro do governador. Num primeiro momento pensei em queimá-lo, mas resolvi deixá-lo com os outros papéis (que guardo no arquivo para que o passado não se perca).

– Só assim posso registrar a oscilação de ânimo das pessoas – das autoridades e dos detentos1.

Ben apertava a linha contra o coração, como se fosse um tesouro.

– Não me mandará para o hospício, não é? – perguntou.

Vi então que estava pálido de medo. Suas mãos tremiam, e os olhos fixavam-se nos meus, em muda súplica.

– Claro que não – respondi com suavidade2. – Mas talvez as coisas não sejam tão simples assim3. Façam como eu, que voltei a fazer as contas, a vestir minha roupa, e que passeio pela cidade o perfil de um habitante correto4.

– Não quero ir para o hospício – e uma lágrima rolou pelo seu rosto sujo.

– Está certo, meu caro – disse eu – Ninguém o mandará para o hospício. Mas você não entra mais na cabana5.

– Como se explica que em tantos anos ninguém além de mim pediu para entrar?6

– Só7 você vê8 a cabana9.

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1. Ovídio POLI JUNIOR. Sobre homens e bestas. Dix Editorial. São Paulo. 2007, p.35.

2,5 Daphne du MAURIER. Rebecca – A mulher inesquecível. 1938. Tradução de Lígia Junqueira Smith e Monteiro Lobato. Companhia Editora Nacional. São Paulo. 1940, p.161

3 Raduan NASSAR. Cadernos de literatura brasileira. Instituto Moreira Salles. São Paulo. 1996, p.39.

4 Júlio CORTÁZAR. A volta ao dia em 80 mundos – tomo II. Tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht. Civilização Brasileira. Rio de Janeiro. 2008, p.112.

6 Franz KAFKA. Um médico rural. 1919. Tradução de Modesto Carone. Companhia das Letras. São Paulo. 2003, p.29.

7 Isaac ASIMOV. Eu, robô. 1950. Tradução de Luiz Horácio da Matta. Círculo do Livro. São Paulo. 1976, P.212.

8 Juan RULFO. Pedro páramo. 1955. Tradução de Eric Nepomuceno. Editora Record. Rio de Janeiro. Edições BestBolso, p.100.

9 William P. YOUNG. A cabana. Tradução de Alves Calado. Sextante. Rio de Janeiro. 2008, p.9.

MixLit 32: O que lhe passa?

– Desconfio que, nesses últimos meses, ele nunca procurou emprego. Dá pra fazer isso, vestido de sunga e camiseta?1

– Esses bichos aí – declarou Gridoux -, a gente nunca sabe o quê que eles têm na cabeça2.

Macedonio3, aborrecido consigo mesmo, esforçou-se por esconder o rosto dos olhares deles, fingindo contemplar, virado para um lado, o movimento das águas sem profundidade debaixo da ponte4.

– O que é que você anda fazendo esses dias?5 Com o quê que você sonha? – perguntou Gridoux6.

– Estou tão melancólico, sou muito fantasioso. Acabo sempre por chorar, só de ver meu casaco pendurado na parede. É lá que ele fica.

– Hum, inchado, obeso, pescoço volumoso, constituição apoplética7. Já está ficando mais amolecido. Também dever ser de ter pensado muito8. Aconteceu-lhe alguma coisa?

– Sim9. – tentou gritar.

Começou a chorar de mansinho10.

– Fiquei impressionado com a futilidade das esperanças e ambições que acossam, incansavelmente, a maioria dos homens durante toda a sua vida11. – diria Macedonio12.

Teria conseguido13.

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1 Ana Cristina MELO. Caixa de desejos. 2010. Usina de Letras. Brasília/Rio de Janeiro. 2010, p.40.

2,6 Raymond QUENEAU. Zazie no metrô. 1959. Tradução de Paulo Werneck. CosacNaify. São Paulo. 2009, p.130/p.133.

3,12 Ricardo PIGLIA. Formas breves. 2000. Tradução de José Marcos Mariani de Macedo. Companhia das Letras. São Paulo. 2004, p.30/p.25.

4 James JOYCE. Retrato do artista quando jovem. 1916. Tradução de José Geraldo Vieira. Ediouro e Publifolha. Rio de Janeiro e São Paulo. 1998, p.174.

5 Ian MCEWAN. O jardim de cimento. 1878. Tradução de Jorio Dauster. Companhia de bolso. São Paulo. 2009, p.92.

7 Georg BÜCHNER. Woyzeck. 1835. Tradução de Tércio Redondo. Hedra. São Paulo. 2003, p.61.

8 João GUIMARÃES ROSA. Sagarana. 1937. Nova Fronteira. Rio de Janeiro. 2001, p.168

9 André MALRAUX. A condição humana. 1933. Tradução de Jorge de Sena. Abril. São Paulo, 1972, p.41.

10 Mauro SIQUEIRA. Conto: Lullaby. Em: Revista Ficções 18. 7Letras. Rio de Janeiro. 2009, p.40.

11 Albert EINSTEIN. O pensamento vivo de. Tradução de José Geraldo Simões Jr. Ediouro. Rio de Janeiro. 1986, p.81.

13 Marguerite DURAS. O homem sentado no corredor/A doença da morte. 1980/1983. Tradução de Vadim Nikitin. Cosac Naify. São Paulo. P.18

Imagem: hardyc: http://www.flickr.com/people/hardyc/

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