Archive for novembro \29\UTC 2010

MixLit 40: O dia seguinte

A noite tinha sido difícil, a pior até agora, embora eu já estivesse acostumado ao interregno turbulento em que meu sono havia se transformado. Eram pequenas nebulosas no estado de vigília e não duravam mais de quinze minutos, tempo suficiente, contudo, para inquietar- me com as imagens pavorosas que apareciam nos sonhos1. Se a escuridão fosse completa, eu conseguiria encostar-me de novo, cerrar os olhos, pensar num encontro que tive durante o dia, recordar uma frase, um rosto, a mão que apertou os dedos, mentiras sussurradas inutilmente2. Tudo de repente se tornara um tanto solene, esquisito.

Eu ia dobrando as roupas e as depositava meio ritualisticamente numa valise de segunda mão que eu comprara fazia pouco tempo. Quando via uma camisa ou uma calça que acabara de colocar na valise eu respirava fundo, me vinham imagens mudas como a de uma velha vassoura varrendo folhas de uma calçada, figurações assim, rápidas e como que despojadas de uma motivação inicial, e eu me sentia a cumprir uma tarefa extrema, como se depois dali eu não tivesse que fazer malas nunca mais3.

Foi quando cinco raios sucederamse no céu, a trovoada reboou num barulho de fim do mundo4. Com uma chuva destas, que pouco lhe falta para um dilúvio, seria de esperar que as pessoas estivessem recolhidas, à espera que o tempo estiasse5. Foi a própria Ana que tomou a iniciativa de vir até a minha mesa. – Posso me sentar por um instante? – ela perguntou6 – Não retires de mim a tua mão, eu me prometo que talvez até o fim deste relato impossível talvez eu entenda, oh talvez pelo caminho do inferno eu chegue a encontrar o que nós precisamos, mas não retires a tua mão7. Pausei num sorriso de magia e encantamento, coisa familiar mesmo.

Acho que ela não ia acreditar se eu lhe dissesse a verdade8. – A questão é que minha insônia começou há 30 anos, quando nasci. E só vai terminar daqui a 30 anos, quando eu morrer9. Não podia mudar aquilo que era definitivo, mas apenas deixei os braços e as pernas perderem a força sobre a cama, apenas deixei o corpo repousar, aceitar a noite, quando, na escuridão do quarto, me convenci de que tinha tomado uma decisão10.

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1. Adriana LUNARDI. Vésperas. Rocco. Rio de Janeiro. 2002, pg.41.

2. Graciliano RAMOS. Insônia. 1947. Record. Rio de Janeiro. 2001, pg.10.

3. João Gilberto NOLL. Harmada. 2003. W11, selo Francis. São Paulo. 2003, pg.93.

4. Jorge AMADO. A morte e a morte de Quincas Berro D’água. 1959. Record. Rio de Janeiro.1998, 75a edição, pg.94.

5. José SARAMAGO. Ensaio sobre a cegueira. 1995. Companhia das Letras. São Paulo. 2004, 28a reimpressão, pg.225.

6. Sérgio SANT ́ANNA. A senhorita Simpson. 1989. Companhia das Letras. São Paulo. 2003, 3a reimpressão, pgs.160,161.

7. Clarice LISPECTOR. A paixão segundo G.H. 1964. Rocco. Rio de Janeiro. 1998, pg.73.

8. ONDJAKI. Os da minha rua. 2009. Língua Geral. Rio de Janeiro. 2009, 1a reimpressão, pg.129.

9. Gonçalo M. TAVARES. O homem ou é tonto ou é mulher. 2002. Casa da Palavra. Rio de Janeiro. 2005, pg.15.

10. José Luís PEIXOTO. Cemitério de pianos. 2006. Bertrand. Lisboa. 2007, 3a edição, pg.215.

Imagem: Foto, por Maria Beatriz Machado

ESTE TEXTO FOI PUBLICADO ORIGINALMENTE NA REVISTA PESSOA, EDIÇÃO ZERO, E COM ELE É DADO ENCERRADO O TRABALHO NO MixLit DURANTE O ANO DE 2010.

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MixLit 39: A lei ainda não havia pegado

Os boatos assumiam a forma de notícias falsas que circulavam captadas no rádio1. Uma multidão de curiosos acompanhava da rua a confusão no pátio maior. A maioria permanecia calada, mas alguns gritavam, cheios de entusiasmo2: “União entre irmãos3!”

Quando chegamos à casa encontramos Hunter muito agitado (embora fosse daqueles que acham de mau gosto mostrar as paixões); tentava disfarçar, mas era evidente que alguma coisa estava acontecendo4.

Não será coisa da raça e da cultura deles? – eu disse5.

– Os malditos negros deviam ter sua própria cadeira elétrica – comentou6 – Por que não podem esperar até amanhã?7

Já havia passado mais de um ano da data em que o tráfico de escravos estava proibido8.

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1. J.M.G. LE CLÉZIO. Refrão da fome. Tradução de Leonardo Fróes. Cosac Naify. São Paulo. 2009, p.196.

2. Ismail KADARÉ. Uma questão de loucura. Tradução de Bernardo Joffily. Companhia das Letras. São Paulo. 2008, p.42.

3. Paulo NADER. Curso de direito civil – Direito de família – Vol.5. Forense. Rio de Janeiro. 2010, p.85.

4. Ernesto SABATO. O túnel. Tradução de Sérgio Molina. Companhia das Letras. São Paulo. 2000, p.113.

5. Sérgio SANT´ANNA. A senhorita Simpson. Companhia das Letras. São Paulo. 2003, 3ª reimpressão pg.214.

6. Stephen KING. Á espera de um milagre. Tradução de H.G. Cortes. Objetiva. Rio de Janeiro. 2010, p.199.

7. Henry MILLER. Dias de paz em Clichy. Tradução de Roberto Muggiati. Rio de Janeiro: José Olympio, 2004, p.62.

8. Ana Maria GONÇALVES. Um defeito de cor. Record. Rio de Janeiro. 2008, p.435.

Imagem: “Fat white oppression”, ilustração de Geert Oosterhof: http://geertoosterhof.blogspot.com/

MixLit 38: Querer muito ver

– Quem está aí? – perguntou o cego, dando passos para trás em busca de defesa1 – Quem é você?2

– Pai, eu quero conversar e não quero fazer firififi nenhum, mas.

– Mas o quê?3 Você está sem vestido?4

– O que você está sugerindo?

– Não estou sugerindo5.

– O que você vai fazer, Papai?

– Dar uma olhada6. Eu quero muito te ver7.

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1 André VIANCO. O senhor da chuva. Novo século. São Paulo. 2002, p.62.

2 Ignacio PADILLA. Amphitryon. Tradução de Sérgio Molina e Rubia Prates Goldoni. Companhia das Letras. São Paulo. 2010, p.78.

3 Beatriz BRACHER. Azul e dura. Editora 34. São Paulo. 2010, p.96.

4 Carlos Heitor CONY. Bale branco. Objetiva. Rio de Janeiro. 2005, p.38.

5 Doris LESSING. As avós. Tradução de Beth Vieira. Companhia das Letras. São Paulo. 2007, p.28.

6 Cormac MCCARTHY. A estrada. Tradução de Adriana Lisboa. Alfaguara/Objetiva. Rio de Janeiro. 2007, p.183.

7 Haruki MURAKAMI. Minha querida Sputnik. Tradução de Ana Luiza Dantas Borges. Alfaguara/Objetiva. Rio de Janeiro. 2008, p.228.

Imagem: “Healing the blind man”, de Edy Legrand: http://ruach.wordpress.com/2009/12/02/reflections-on-the-healing-of-the-blind-man-in-john-9/

MixLit 37: Em busca da franqueza

Ao acordar, ao invés de sentir-me aliviado, eu enxergava o meu crime, sem as cores do delírio. Levantei. Andei pelos cantos1. Entre seres humanos só há duas alternativas, a fraternidade ou o crime2. “Procure equilíbrio em tudo”3? – humilhações em que eu via minha simples vontade contrariada, ferida por uma espécie de zombaria4. Digo isto porque certas vezes5, meu peito ardendo de falta de ar6, eu me via pronunciando palavras que pareciam ainda mais sinceras do que meus pensamentos7. E eu era a maldade em pessoa, eu era muitas maldades numa pessoa só8. É possível isso?9 Quem nos conhece neste lugar? Quem dará crédito às coisas que dissermos?10

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1 Ronaldo CORREIA DE BRITO. Galileia. Alfaguara/Objetiva. Rio de Janeiro. 2008, p.148.

2 Saul BELLOW. Henderson, o rei da chuva. Tradução de José Geraldo Couto. Companhia das Letras. São Paulo. 2010, p.101.

3 Açúcar UNIÃO Premium. Embalagem de 60 gramas. Cosan Alimentos S.A. São Paulo. Data de validade: 2012.

4 Rubens FIGUEIREDO. O livro dos lobos. Companhia das Letras. São Paulo. 2009, p.125.

5,7,9 Mario BENEDETTI. A trégua. Tradução de Joana Angélica D’Avila Melo. Alfaguara/Objetiva. Rio de Janeiro. 2007, p.127.

6,8 José REZENDE JR. Eu perguntei pro velho se ele queria morrer (e outras estórias de amor). 7Letras. Rio de Janeiro. 2009, p.12/27

10 PETRÔNIO. Satyricon. Século I. Tradução de Sandra Braga Bianchet. Crisálida. Rio de Janeiro. 2004, edição bilingue, p.25.

Imagem: From Roee Rosen, Live and Die as Eva Braun, The Israel Museum, 1997, Quoted in Death’s Showcase, Ariella Azoulay, ©2001 MIT Press

MixLit 36: Piada no exílio

Aquilo tinha de ser uma piada, ele carregou os dois canos. Era um homem com senso de humor. Um gozador. Não se podia confiar em tal homem, um curinga no baralho1.

Estirado na areia, cochilo. É uma tarde de sol. Outra vez, as aves, que dançam sobre minha cabeça2 lentamente. A claridade da luz brinca num matiz de cinza, verde e marrom3.

Por que estamos aqui? Sei lá! Culpa dele4, meu tio comunista, exilado no mato. “É a revolução” – dizia mamãe5.

Passaram-se dias?

Anos?6

Cheguei até a sonhar essa cena, e nossa família me pareceu como a pequena corte do rei Jaime II, em exílio na costa de Haia7.

Ainda não me dei um tiro, como fez meu tio8. Uma das razões para isso é que sou preguiçoso demais – ou orgulhoso demais – para fazê-lo, a despeito de qualquer noção de “segurança”9. No entanto10, tenho curiosidade11. A ideia do suicídio é um poderoso consolo: ela ajuda a passar mais de uma noite ruim12.

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1 Joyce Carol OATES. Descansa em paz. Tradução de Eliza Nazarian. Leya. São Paulo. 2010, p.193.

2 José CASTELLO. Ribamar. Bertrand Brasil. Rio de Janeiro. 2010, p.90.

3 Walt WHITMAN. Folhas de Relva. 1855. Tradução de Rodrigo Garcia Lopes. Edição bilingue. Iluminuras. São Paulo. 2008, p.55.

4 Felipe PENA. O marido perfeito mora ao lado. Record. Rio de Janeiro. 2010, p.13.

5 Joca Reiners TERRON. Curva de rio sujo. Planeta. São Paulo. 2003, p.15.

6 Anne RICE. Violino. 1997. Tradução de Mário Molina. Rocco. Rio de Janeiro. 1999, p.203.

7 W.G. SEBALD. Os anéis de Saturno. 1995. Tradução de José Marcos Macedo. Companhia das Letras. São Paulo. 2010, p.57.

8 H.P. LOVECRAFT. A sombra de Innsmouth. 1931. Tradução de Guilherme da Silva Braga. Hedra. São Paulo. 2010, p.119.

9 Woody ALLEN. Em: Grandes diretores de cinema – entrevistas de Laurent Tirard. Tradução de Marcelo Jacques de Moraes. Nova Fronteira. Rio de Janeiro. 2006, p.86.

10 Deepak CHOPRA. Corpo sem idade, mente sem fronteiras – a alternativa quântica para o envelhecimento. 1993. Tradução de Haroldo Netto. Rocco. Rio de Janeiro. 1994, p.18.

11 Fernando PESSOA. Trecho de uma fala sua, reproduzido no site “Pensador”: http://www.pensador.info/curiosidade/2/

12 Friedrich NIETZSCHE. Além do Bem e do Mal. 1886. Tradução de Antônio Carlos Braga. Escala. São Paulo. 2007, p.91.

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