Archive for março \28\UTC 2010

Mixlit 5: Critérios

Uma ou duas vezes por mês, em Paris, mandavam-me fazer-lhe uma visita, à hora em que ele acabava de almoçar, envergando o dólmã, e servido por um criado de jaqueta com listras roxas e brancas. Queixava-se, resmungando, de que eu não aparecia há muito, que o abandonavam, oferecia-me um maçapão ou uma tangerina; atravessávamos uma sala na qual não parava nunca, onde nunca se acendia fogo, cujas paredes eram ornadas de relevos dourados, o teto pintado de azul que pretendia imitar o céu e os móveis forrados de cetim como em casa de meus avós, mas amarelo; passávamos depois para o que ele denominava o seu gabinete de “trabalho”, onde se achavam penduradas algumas dessas gravuras que representam, sobre um fundo escuro, uma deusa carnuda e rósea conduzindo um carro, ou montada sobre um globo, ou com uma estrela na fronte, que eram tão apreciadas no Segundo Império, porque lhes achavam um ar pompeano, que depois foram detestadas e agora começavam a agradar de novo pela única razão, embora se aleguem outras, de terem um caráter Segundo Império(1).

O cego afirmava: Se não enxergo, melhor para mim que me poupo de ver o que se convencionou chamar de formas, esta exibição que não passa do excremento das coisas. Os verdadeiros seres são aqueles limpos de figuras, aqueles seres que ficam em refúgio, longe das linhas, curvas ou retas, dos volumes, das cores. Os verdadeiros seres se frutificam na ausência(2).

Era alto e desengonçado, às vezes se desculpava por ser atrapalhado e não saber pôr as coisas dele em ordem nem arrumar a casa. Não sei se gostava da vida de solteiro, acho que não queria uma mulher ao lado dele, dia e noite, sem trégua. Mal suporto a mim mesmo, ele dizia, justificando a solidão(3).

Sentira crescer em minha mão a umidade de sua testa, enquanto pensava no argumento de cinema de que me falara Julio Stein, lembrava Julio sorrindo e batendo no meu braço, garantindo que eu logo me afastaria da pobreza como de uma amante envelhecida, convencendo-me de que eu queria fazer isso(4). Agradeço a esses monstros serem tão ridículos, pois eles nos ensinaram que era possível um ser humano acreditar em alguma coisa e agir apaixonadamente na conservação dessa crença – fosse qual fosse(5).

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1. Marcel PROUST. No caminho de Swann – Em busca do tempo perdido. 1913. Tradução de Mário Quintana. Editora Abril. São Paulo, 1979, pg48.

2. João Gilberto NOLL. Harmada. 2003. W11 Editores, selo Francis. São Paulo. 2003, pg65.

3. Milton HATOUM. A cidade ilhada. 2009. Companhia das Letras. São Paulo. 2009, conto: Dois tempos, pg.62.

4. Juan Carlos ONETTI. A vida breve. 1950. Tradução de Josely Vianna Batista. Editora Planeta. São Paulo. 2004, pg.22.

5. Kurt VONNEGUT. Almoço dos campeões. 1973. Traduzido por Hindemburgo Dobal. Editora Artenova. Rio de Janeiro. 1973, pg.32.

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Mixlit 4: Os deslizes

Após a discussão de toda noite, ele demora-se no banheiro. Ali no espelho xinga-se de rato piolhento, mergulha o rosto na água fria. Mais calmo, volta para o quarto: sua alma coágulo de sangue negro. De nada serviu a espera.(1)

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Ao levantar da cama, a primeira ideia que me acudiu foi aquela que escrevi ontem, à meia-noite: “Esta moça (Fidélia) foge a alguma coisa, se não foge a si mesma.(2) O melhor que faço é me casar com ela. Depois posso moldar-lhe a alma como bem desejar. É um pedaço de cera em minhas mãos: darei a ela a forma que eu quiser. Durante minha ausência, quase a arrebataram de mim, devido à sua inocência exagerada. Mas, com tudo isso, ainda acho melhor que a mulher que escolhi erre por esse lado. Essa espécie de erro tem remédio bem fácil. Toda pessoa simples obedece a lições. E quando alguém a desvia do caminho do bem, duas palavras certas fazem com que retorne imediatamente. Mas uma mulher esperta é outro animal. Nossa sorte toda pende e depende apenas da sua vontade: nada a afastará daquilo a que se propôs, e tudo o que dissermos é orquestra pra surdos. Usa a inteligência para ridicularizar nossas lições, para transformar seus vícios em virtudes. E pra chegar a seus fins inomináveis encontra desvios capazes de iludir o mais habilidoso.(3) Se para outras mulheres a sedução é uma segunda natureza, uma rotina insignificante, para ela, de agora em diante, é o campo de uma investigação importante que deve ajudá-la a descobrir aquilo de que é capaz. Mas por ser tão importante, tão grave, sua sedução perdeu toda a leveza, é forçada, intencional, excessiva. O equilíbrio entre a promessa e ausência de garantia (em que reside precisamente o autêntico virtuosismo da sedução!) foi rompido. Está pronta demais…” (4)

…Até que chegava o momento em que, entre palavras de ódio, surgiam palavras doces. E essas palavras doces acabavam se transformando em beijos doces (desesperados), em toques doces (desesperados), em carinhos doces (desesperados). Então, fazíamos amor (doce, desesperado) como nunca antes. Devorávamo-nos como se tivéssemos acabado de nos conhecer, como se entre nós não houvesse rancores. Os corpos melados sobre a cama, o cheiro do sexo no quarto inteiro. Depois de muito tempo, decidíamos tomar um banho gelado, e era como se fôssemos duas crianças, como se nunca tivéssemos brigado, como se nunca tivéssemos terminado, como se sempre tivéssemos sido um do outro, como se fôssemos sempre um do outro(5) ao fim, assim que ela erga e vibre inquieta o seu turíbulo. E alto, longo, à turva; sobrelevada nave; a estrela-sino tange, enquanto, calmas; as espirais do incenso ascendem, nuvem sobre nuvem; rumo-ao-vazio, do venerável; resíduo de almas.(6)

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1. Dalton TREVISAN. Contos eróticos. 1984. Editora Record. Rio de Janeiro. 1999, 5ª edição, pg.41.

2. Machado DE ASSIS. Memorial de Aires. 1908. Klick Editora. Sem local, sem data, pg.11.

3. MOLIÉRE. Escola de mulheres. 1662 (1ª encenação). Tradução de Millôr Fernandes. Círculo do Livro. São Paulo. Sem data, pgs.58, 59.

4. Milan KUNDERA. A insustentável leveza do ser. 1984. Tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca. Companhia das Letras. São Paulo. 2007, 9ª reimpressão, pgs. 164, 165.

5.Tatiana SALEM LEVY. A chave de casa. 2007. Editora Record. Rio de Janeiro. pgs.91, 92.

6. James JOYCE. Pomas, um tostão cada. 1913-1916. 1927 (1ª publicação). Tradução de Alípio Correia de Franca Neto. Editora Iluminuras. São Paulo. 2001, poema: Noturno, pg.63.

Mixlit 3: Carta a uma amiga

Querida dona Leonor:

Espero que estas linhas a encontrem bem de saúde na companhia dos seus. Depois de muito titubear, volto a escrever-lhe, mas antes de mais nada devo lhe fazer um esclarecimento: tenho, graças a Deus, uma família que muitos gostariam de ter, meu marido é uma pessoa irrepreensível, muito considerado em seu ramo de atividade, não me deixa faltar nada, e meus dois filhos estão crescendo que é um primor, embora como mãe eu não devesse estar dizendo tudo isso, mas já que estou querendo mesmo ser sincera tenho de dizer as coisas como elas realmente são(1) e realmente desta vez proponho já da minha parte uma pergunta ociosa: o que é melhor, uma felicidade barata ou um sofrimento elevado? Vamos, o que é melhor?(2) Como é que aquele ali me descobriu? Não somos mais nós mesmos, nessas condições, e é penoso não ser mais você mesmo, ainda mais penoso do que sê-lo, apesar do que dizem. Pois quando o somos, sabemos o que temos que fazer para sê-lo menos, ao passo que quando não o somos mais, somos qualquer um, não há mais como nos apagar. O que se chama amor é o exílio, com um cartão-postal da terra natal de vez em quando.(3) Na época do meu noivado, eu não sabia nada dos homens. Não sabia nada da vida de um casal. Eu só conhecia meus pais. E que belo exemplo! Meu pai, o grande interesse dele eram suas codornas, suas codornas de briga!(4) Melhor era subtrair, retirar, como um escultor diante de um bloco de pedra. Melhor era ser menos, apequenar-se, ser o mínimo possível e reivindicar o silêncio.(5) Já foi o tempo em que via a convivência como viável, só exigindo deste bem comum, piedosamente, o meu quinhão, já foi o tempo em que consentia num contrato, deixando muita coisa de fora sem ceder contudo no que me era vital, já foi o tempo em que reconhecia a existência escandalosa de imaginados valores, coluna vertebral de toda ´ordem`, mas não tive sequer o sopro necessário, e, negado o respiro, me foi imposto o sufoco; é esta consciência que me libera, é ela hoje que me empurra, são outras agora minhas preocupações, é hoje outro o meu universo de problemas.(6) O que farei? O que devo fazer? O que a consciência diz que devo fazer com esse homem, ou melhor, com esse fantasma? É imperativo que me livre dele, ele precisa ir. Mas, como?(7)

Feliz natal,

Eva(8)

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1. Manuel PUIG. Boquitas pintadas. 1982. Tradução de Luiz Otávio F. Barreto Leite. Círculo do livro. São Paulo, sem data, pg.32.

2. Fiódor DOSTOIÉVSKI. Memórias do subsolo. 1864. Tradução de Boris Schnaiderman. Editora 34. São Paulo. 5ª edição, 2007, pg.145.

3. Samuel BECKETT. Primeiro amor. 1945. Tradução de Célia Euvaldo. Cosac Naify. São Paulo. 2ª reimpressão, 2007, pg.10.

4. Atiq RAHIMI. Syngué sabour – Pedra-de-paciência. 2008. Tradução de Flávia de Nascimento. Editora Estação Liberdade. São Paulo. 2009, pg.69.

5. Adriana LISBOA. Sinfonia em branco. 2001. Editora Rocco. Rio de Janeiro. pg.111.

6. Raduan NASSAR. Um copo de cólera. 1978. Companhia das Letras. São Paulo. 2007, 5ª edição, 15ª reimpressão, pg.55.

7. Herman MELVILLE. Bartleby, o escriturário – Uma história de Wall Street. 1853. Tradução de Cássia Zenon. L&PM Editores. Rio Grande do Sul. 2003, pg.79.

8. Lionel SHRIVER. Precisamos falar sobre o Kevin. 2003. Tradução de Beth Viera e Vera Ribeiro. Editora Intrínseca. Rio de Janeiro. 2007, pg.145

Imagem: “Miserable curves”, de Kazuya Akimoto, 2003: http://www.kazuya-akimoto.com/blog14/

Mixlit 2: Uma noite

Em pânico, procurou pôr fim àquele momento feliz: assim esperava poder diminuir a infelicidade que estava certo de que iria se abater sobre ele depois. A maneira mais segura de se acalmar, pensou, era simplesmente aceitar o inevitável:(1) Veja os braços, por exemplo. O menino até anda meio recurvado. E as mãos são grosseiras, porém isso já tem causa muito diferente, a culpa é toda dos esportes, futebol, principalmente natação e remo.(2) Parecia uma estátua de pedra trancada na carlinga. O céu escurecia, a noite não demoraria a cobri-lo por inteiro, as nuvens já não estavam rosadas mas sim escuras, com filamentos vermelhos.(3) E no meio de tantas ruas a serem trotadas, de tantos cães maiores, de tantos esgotos secos – lá estava uma menina, como se fosse carne de sua ruiva carne.(4) Ela também tinha lágrimas na voz, estava com o aspecto um pouco baqueado e respirava com dificuldade; apesar disso ainda encontrou força para dizer:(5)

– Eu vi no campo doenças que pensei nunca chegaria a ver, doenças que só se encontram nos tratados médicos. Por exemplo, a Noma, uma gangrena da boca que só aparece nas pessoas totalmente desnutridas. Formavam-se buracos nas faces e através deles podíamos enxergar os dentes. Ou então o Pênfigo, um tipo de Fogo Selvagem, uma doença extremamente rara, em que a pele se desfaz em pústulas e em poucos dias o doente morre.(6) Depois veio aquela tontura, aquela confusão, o ir-se diluindo como em água espessa, e o corrupiar das luzes; a luz inteira do dia que se desmanchava fazendo-se cacos; e aquele sabor de sangue na língua. O Eu pecador ouvia-se mais forte, repetido, e depois terminava: “pelos séculos dos séculos, amém”; “pelos séculos dos séculos, amém”; “pelos séculos…”(7)

Era triste. Caiu um toró. Chovia. Ficava mais triste.(8) De repente, não lhe restava nenhuma atitude, exceto a de que o dia, pelo menos, estava completo. A noite existiria – com princípio, meio e fim.(9)

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1. Orhan PAMUK. Neve. 2002. Tradução de Luciano Machado. Companhia das Letras. São Paulo. 8ª edição, 2007, p.109.

2. Mário DE ANDRADE. Amar, verbo intransitivo. 1927. Idílio, Villa Rica Editoras Reunidas. Belo Horizonte – Rio de Janeiro. 16ª edição, 1944, p.94.

3. Roberto BOLAÑO. Estrela distante. 1996. Tradução de Bernardo Ajzenberg. Companhia das Letras. São Paulo. 2009, p.35

4. Clarice LISPECTOR. Felicidade clandestina. 1971. Editora Rocco. Rio de Janeiro. 1998, conto: Tentação, p.47

5. Franz KAFKA. O castelo. 1922. Tradução de Modesto Carone. Companhia das Letras. São Paulo. Edição de bolso, 2008, p.59.

6. Peter WEISS. O interrogatório. 1965. Tradução de Teresa Linhares e Carlos de Queiroz Telles. Editorial Grijalbo. São Paulo. 1970, p.46.

7. Juan RULFO. Pedro Páramo. 1955. Tradução de Eric Nepomuceno. Editora Record. Rio de Janeiro. Edições BestBolso, p.87.

8. Rodrigo DE SOUZA LEÃO. Todos os cachorros são azuis. 2008. Editora 7letras. Rio de Janeiro. p.27.

9. F. Scott FITZGERALD. O último magnata. 1941. Tradução de Roberto Pontual. Editora Record. Rio de Janeiro. Sem data, p.121.

Mixlit 1: Irrompe!

Havia, primeiro, a memória da infância, com as árvores tão sérias e caladas como pessoas enfeitiçadas.(1) Desculpe, me excedi um pouco, nem parece que tantos anos se passaram, quando me vejo tão exaltado até me esqueço de que aprendi, com a minha, digamos, experiência, não esta que acabo de relatar, tão reles, tão mínima se comparada à outra, que ainda não contei mas vou contar, tenha paciência, vou contar, até me esqueço que aprendi o segredo do mistério, gostaria de saber?(2) Eles têm muitos pensamentos, eu tenho só um pensamento, meu único pensamento vai acabar sendo mais forte que os muitos deles.(3)

Há certos tipos de pessoas que têm algo que as distingue dos outros seres humanos. Pessoas assim possuem um instinto geralmente encontrado apenas nas crianças pequenas: o instinto de estabelecer imediatamente um contato vital entre elas e todas as coisas do mundo.(4) Estão acostumadas, é o modo de ser que escolheram, estabilizando-se assim, e mexer nisto fará com que se voltem contra nós, a despeito das nossas melhores intenções.(5)

Da terça-feira e da quarta, guardo flashes desconexos. A imagem mais nítida está relacionada ao liquidificador. Acho que fiz uma batida com suco de maracujá, leite condensado, vodca ou tequila e uma mão cheia de comprimidos de diversas cores e calibres.(6)

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Nesse momento sua memória começou a esgarçar, até mesmo a ficar desorientada, como seus passos; em algum lugar, voltou a se deparar com uma praça: perambulou por aléias poeirentas, entre gangorras quebradas, castelos de areia inacabados, passou por bancos largos e pesados, esquecidos de tempos imemoriais.(7) Com a mão no peito e o ouvido atento escutava aquela entediante música sabendo que era ela, afinal, que o permitia durar. A repetição salvava o organismo por dentro, mas por fora era indispensável uma expectativa em relação a surpresas, invasões, derrocadas, saltos súbitos e outros percalços.(8)

Quando assim me acontece de abismar-me, é porque já não há lugar para mim em parte alguma, nem mesmo na morte.(9)

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[1] Robert MUSIL. O jovem Torless. 1906. Tradução de Lya Luft. Coleção Grandes Romances. Editora Nova Fronteira. Rio de Janeiro, 1978, p.85.

[2] Flávio CARNEIRO. A confissão. 2006. Editora Rocco. Rio de Janeiro, 2006, p.34.

[3] J.M. COETZEE. Vida e época de Michael K. 1983. Tradução de José Rubens Siqueira. Companhia das Letras. São Paulo, 2ª edição, p.65.

[4] Carson MCCULLERS. A balada do café triste. 1951. Tradução de Caio Fernando Abreu. Círculo do Livro. São Paulo, 1987, p.31.

[5] Nuno RAMOS. Ó. 2008. Editora Iluminuras. São Paulo, 2009, p.207.

[6] Max MALLMAN. Síndrome de Quimera. 2000. Editora Rocco. Rio de Janeiro, 2000, p.58.

[7] Imre KÉRTESZ. O fiasco. 1988. Tradução de Ildikó Suto. Editora Planeta. São Paulo, 2004, p.137.

[8] Gonçalo M. TAVARES. O senhor Calvino. 2004. Casa da Palavra. Rio de Janeiro, 2007, p.58.

[9] Roland BARTHES. Fragmentos de um discurso amoroso. 1977. Tradução de Márcia Valéria Martinez de Aguiar. Martins Fontes Editora. São Paulo, 2ª edição, 2007, p.4.



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