Archive for outubro \22\UTC 2011

MixLit 57: Eu li, está me ouvindo?

Por onde enfio a cabeça para respirar, frenético de sufoco, depois dessa natação profunda de seiscentos e dezessete páginas?1 Não consigo mais aguentar2 essa precavida arte do pastoreio3, dominando-me com sua densa realidade4, mais densa e mais eloquente que a vida cotidiana5. Onde está o exército? Por que não prendem essa gente?6

“O homem, pelo fato de escrever livros, transforma-se em universo (não se fala no universo de Balzac, no universo do Tchekhov, no universo de Kafka?) e o próprio de um universo é justamente ser único. A existência de um outro universo o ameaça na sua própria essência”7, você dirá, e concordarei em parte8. Se você leva duas páginas para dizer que uma pessoa percorreu um quilômetro9, a amargura te invade o coração10. Tirar seriedade do acto da escrita, aprendi-o na infância, tirar seriedade aos actos da vida11. Bem, não vou me estender12, você nunca vai se encher de mim13, sei quando as pessoas não estão me acompanhando, elas reclinam a cabeça para a esquerda e surge essa ruga na testa, essa14.

1 Julio CORTÁZAR. A volta ao dia em 80 mundos – tomo II. Tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht. Civilização Brasileira/Editora Record. Rio de Janeiro. 2008, pg.44.

2 Raymond CARVER. Iniciantes. Tradução de Rubens Figueiredo. Conto: O lance. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, pg.42.

3 Peter SLOTERDIJK. Regras para o parque humano. Tradução de José Óscar de Almeida Marques. São Paulo: Estação Liberdade, 2000, p.52.

4 Lya LUFT.  Reunião de família. Rio de Janeiro: Record, 2008, p.57.

5 Tzvetan TODOROV. A literatura em perigo. Tradução de Caio Meira. Rio de Janeiro: Difel, 2009, p.23.

6 Moacyr SCLIAR. Minha mãe não dorme enquanto eu não chegar. Rio Grande do Sul: L&PM, 1996, p.84.

7 Milan KUNDERA. O livro do riso e do esquecimento. Tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1987, p.121.

8 Flávio CARNEIRO. O leitor fingido. Rio de Janeiro: Rocco, 2010, p.15.

9 Umberto ECO. Seis passeios no bosque da ficção. Tradução de Hildegard Feist. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, pgs.65,66.

10 Moacyr SCLIAR. Idem.

11 Gonçalo TAVARES. 1 – poemas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005, p.163.

12 Simone CAMPOS. Owned – um novo jogador. Rio de Janeiro: 7Letras, 2011. Retirado de trecho disponibilizado no site Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ.

13 Dan RHODES. Timoleon Vieta volta para casa. Tradução de Ryta Vinagre. Rio de Janeiro: Rocco, 2005, p.105.

14 Simone CAMPOS. Idem.

MixLit 56: Em casa

Quando Anton acordou, o cheiro do almoço já se espalhava pela casa inteira. Farejou: tinha torta no forno!1 Levantou-se, calçou as sandálias de couro e se arrastou até a cozinha2.  Sobre a mesa jaziam os restos do café da manhã, do qual não parecia ter sido consumida muita coisa3.  O pai estava sentado 4 , o copo de vinho à mão5.

– Dê só uma olhada – ele pediu, com6 a expressão fatigada e triste de um ator que já está farto de representar7.

Depois de8 Anton9 atacar um tomate cereja que ficava continuamente deslizando do seu garfo10, o velho11 murmurou:

– Cão, cão, falta à sua palavra12. Tens de mendigar o teu pão13. Conheço um lugar melhor para fazer isso14.

Por um momento, Anton ficou indeciso15. Repuxou o canto da boca e sorriu16.

– Eu… vou dormir. – disse17.

 – Que palhaçada é esta?18 – falou19 o pai20 –  Já não há erros; você cometeu todos eles21 – e não pôde ver como Anton tinha ficado vermelho22.


1 Angela SOMMER-BODENBURG. O pequeno vampiro. Tradução de João Azenha Jr. São Paulo: Martins Fontes, 1993, p.44.

2 Bernardo AJZENBERG. Olhos secos. Rio de Janeiro: Rocco, 2009, p.122.

3 Franz KAFKA. O veredicto/Na colônia penal. Tradução de Modesto Carone. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.15.

4 Franz KAFKA. Idem.

5 Cristovão TEZZA. Um erro emocional. Rio de Janeiro: Record, 2010, p.89.

6 Orhan PAMUK. A maleta do meu pai. Tradução de Sérgio Flaksman. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p.9.

7 Lygia FAGUNDES TELLES. Apenas um saxofone. Em: Liberdade até agora. Organização de Márcio Debellian e Eduardo Coelho. Rio de Janeiro: Móbile, 2011, p.149.

8 Azar NAFISI. Lendo Lolita em Teerã. Tradução de Fernando Esteves. Rio de Janeiro: Record/BestBolso, 2009, p.196.

9 Angela SOMMER-BODENBURG. Idem.

10 Azar NAFISI. Idem.

11 Hermann BROCK. Pasenow ou O Romantismo. Em: Os sonâmbulos. Tradução de Wilson Hilário Borges. São Paulo: Germinal, 2003, p.105.

12 Hermann BROCK. Idem.

13 Daniel DEFOE. Robinson Crusoé. Adaptação e revisão de Terra de Sena. Rio de Janeiro: Minerva, 1954, p.14

14 Adriana LUNARDI. A vendedora de fósforos. Rio de Janeiro: Rocco, 2011, p.75.

15 Angela SOMMER-BODENBURG. Idem, p.37.

16 Angela SOMMER-BODENBURG. Idem, p.131.

17 Angela SOMMER-BODENBURG. Idem, p.132.

18 Marcelino FREIRE. Vovô valério vai voar. Em: Liberdade até agora. Organização de Márcio Debellian e Eduardo Coelho. Rio de Janeiro: Móbile, 2011, p.239.

19 Marcelino FREIRE. Idem, p.232.

20 Franz KAFKA. Idem.

21 Dorothy PARKER. Meia-idade, triste idade. Em: Serrote número 7. Rio de Janeiro: Instituto Moreira Salles, 2011, p.205.

22 Angela SOMMER-BODENBURG. Idem, p.1.

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