Archive for the ‘Luiz Alfredo GARCIA-ROZA’ Category

MixLit 65: Os sumiços

Interrompemos a nossa emissão para avançar com uma notícia de última hora: Há 24 h que são reportados desaparecimentos, em diferentes locais, de pessoas que se encontravam a ler.1

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O que o jornalista dizia era interessante, mas Tomas não conseguia se concentrar em suas palavras. Pensava no filho.2 Sempre lendo romances.3 Chegava em casa muito tarde, esgotado e devastado pel4o amor aos livros.5

– Todo mundo está apavorado.6 Duas irmãs foram mortas em casa, porque não trancaram a porta direito.7 – Sua esposa lhe disse8, prestes a desabar em lágrimas.9 

– É mesmo?

– Foi o que me disseram  – disse sem muita convicção.10 Ela só queria11 encontrar um barco que aceitasse retirá-los da cidade.1    

– Quanto tem? – perguntou ele,13 pasmo, os punhos cerrados.14

MixLit 65 walking-away

– Pouco.15

– Porcaria16 Como…? – balbuciou e depois parou.17 – Onde vou arranjar dinheiro?18  – começou a se mexer e depois a correr e a fugir19, com seu baú e suas trouxas, sem se despedir.20

O filho de Tomas21 chegou enfim22 lendo23 um livro na mão.24 A mãe do menino então25 se jogou no seu pescoço e chorou como uma criança, chamando-o de meu pequeno isso e meu pequeno aquilo.26 Abraçados pela cintura, ficaram de pé no alto da escada. Embaixo, viram três homens mascarados com fuzis nas mãos. Era inútil hesitar, pois não havia maneira de fugir.27



1 Patrícia PORTELA. Para cima e não para norte. Lisboa: Caminho, p.175.

2 Milan KUNDERA. A insustentável levaza do ser. Tradução de Teresa Bulhões Carvalho Fonseca. São Paulo: Companhia das Letras, p.242.

3 Italo CALVINO. Se um viajante numa noite de inverno. Tradução de Nilson Moulin. São Paulo: Companhia das Letras, p.50.

Bruno SCHULZ. Ficção completa. Tradução de Henryk Siewierski. São Paulo: Cosac Naify, p.69.

João TORDO. O bom inverno. Rio de Janeiro: Língua Geral, p.52.

Woody ALLEN. Sem plumas. Tradução de Ruy Castro. Rio Grande do Sul: L&PM, p.51.

Woody ALLEN, idem.

Yasunari KAWABATA. O país das neves. Tradução de Neide Hissae Nagae.São Paulo: Estação Liberdade, p.80.

Raphael MONTES. Suicidas. São Paulo: Benvirá, 2012, p.227.

10 Julian BARNES. O sentido de um fim. Rio de Janeiro: Rocco, p.31.

1Henry MILLER. Trópico de Câncer. Tradução de Beatriz Horta. Rio de Janeiro: José Olympio, p.278.

12 Rui TAVARES. O pequeno livro do grande terramoto. Lisboa: Tinta-da-China, p.110.

1Henry MILLER, idem, p.285.

14 Raphael MONTES, idem.

1Henry MILLER, idem, p.278.

1Daniel MACIVOR. A primeira vista/In on it. Tradução de Daniela Avila Small. Rio de Janeiro: Cobogó, p.156.

1Kurt VONNEGUT JR. Matadouro número 5. Tradução de George Gurjan. Rio de Janeiro: Artenova, p.49.

1Luiz Alfredo GARCIA-ROZA. Fantasma. São Paulo: Companhia das Letras, p.82.

1Milan KUNDERA, idem, p.342.

20 Bruno SCHULZ, idem, p.245.

2Milan KUNDERA, idem, p.243.

2Milan KUNDERA, idem, p.242.

2Julian BARNES, idem, p.123.

2João TORDO, idem.

25 Kurt VONNEGUT JR, idem, p.135.

2Henry MILLER, idem, p.278

27 Milan KUNDERA, idem, p.342.

Ilustração por Lauren Nassef.

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Nos últimos meses, o MixLit foi notícia em diversos veículos. Gostaria de indicar especialmente dois. Em dezembro saiu um artigo de Luiza Miguez, jornalista da revista Piauí, no novo site do Itaú Cultural. Luiza ganhou uma bolsa para escrever esse artigo durante todo o ano de 2012. Ela fez entrevistas comigo e com muitas outras pessoas, estudou o tema a fundo e frequentou uma das Oficinas de remix literário que dei nesse ano que está terminando. O artigo, intitulado “Os DJs da Literatura” traz comentários de Heloísa Buarque de Hollanda e José Castello, e tem como personagens principais Mário de Andrade – um dos cabeças do movimento de antropofagia, autor de “Macunaíma” -, os norte-americanos Kenneth Goldsmith (autor de Uncreative Writing) e Mark Amerika (autor de remixthebook), e eu. Você pode ler o divertido e bem-humorado artigo aqui. A segunda matéria que gostaria de recomendar está no site BaixaCultura, um site que frequento bastante e que traz notícias e ensaios sobre cultura digital, cultura hacker, arte de vanguarda, copyright e copyleft, creative commons e outros assuntos contemporâneos. Leonardo Foletto, jornalista autor de “Efêmero revisitado – conversas sobre teatro e cultura digital”, é o principal responsável pelo site e fez uma entrevista muito estimulante comigo, na qual fomos desde o processo criativo até a maneira como a cultura do compartilhamento nas redes sociais tem influenciado a criação artística . Você pode encontrar “A literatura sampleada do MixLit” aqui.

Um abraço,
Leonardo Villa-Forte.

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MixLit 12: Coisa desagradável

Às dez e meia estávamos como dois colegiais na recepção do hotel, esperando. Chegaram Oscar Niemayer e José Aparecido, e desafiando, uma vez mais, o calor, partimos rumo a Canoas, um paraíso na Gávea.  A casa foi construída em 1953, mas desde há anos que Oscar não a habita, porque o sítio se tornou pouco seguro.(1)

Nós dois, brancos e rodeados por dez ou doze negros, e nada com que nos preocuparmos, nada a temer da parte deles: não éramos nós os seus opressores nem eram eles os nossos inimigos – o inimigo-opressor que nos aterrorizava a todos era a forma pela qual a sociedade estava organizada e era governada.(2)

– Consegue viver com isso?

– Você acha que um leão deve preocupar-se com as gazelas que mata? Acha que seria um leão melhor caso se preocupasse? A mim parece-me, pelo contrário, que seria um mau leão. A natureza dele é comer as gazelas. O destino das gazelas é deixarem-se comer pelos leões.(3)

Todos se sentiram desanimados quando viram o sol passar sobre suas cabeças e começar a declinar em direção ao longínquo horizonte. (4) Mal dava para perceber o recorte dos morros contra o céu, com a imponente silhueta da pedra da Gávea ao fundo.(5) No jardim, lá embaixo, a brisa levantava de vez em quando a bandeira adornada de um caduceu. O céu voltara a nublar-se em toda parte. Desapareceu o sol, e quase imediatamente surgiu um frio pouco hospitaleiro.(6)

– Embaixada cruel! Viagem malograda, preparativos inúteis, favor devolver-me as fotos.(7)

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1. José SARAMAGO. Cadernos de Lanzarote II. 1998. Companhia das Letras. São Paulo. 1999, pgs.62,63.

2. Philip ROTH. Casei com um comunista. 1998. Tradução de Rubens Figueiredo. Companhia das Letras. São Paulo. 2005, 1ª reimpressão, pg.126.

3. José Eduardo AGUALUSA. Um estranho em Goa. 2000. Editora Gryphus. Rio de Janeiro. 2001, pg.65.

4. J.K. ROWLING. Os contos de Beedle, O Bardo. 2008. Tradução de Lia Wyler. Editor Rocco. Rio de Janeiro. 2008, pg.29.

5. Luiz Alfredo GARCIA-ROZA. Céu de origamis. 2009. Companhia das Letras. São Paulo. 2009, pg.142.

6. Thomas MANN. A montanha mágica. 1924. Tradução de Herbert Caro. Editora Nova Fronteira. Rio de Janeiro. 2000, 9ª reimpressão, pg.110.

7. Julio CORTÁZAR. A volta ao dia em 80 mundos – tomo II. 1967. Tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht. Civilização Brasileira/Editora Record. Rio de Janeiro. 2008, pg.160.

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