Archive for the ‘Marçal AQUINO’ Category

MixLit 59: A criança está para chegar

Tomando nosso café com torradas1, Maria olhava-me e ria2 sugerindo nomes (para meninos)3. Eu me levantei, pedi desculpas bestamente e4 saí à rua5. Durante a caminhada6, senti que um medo irracional e perturbador começou a me percorrer7.

Um filho?8 Meu filho9. O filho é a imagem mais próxima da ideia de destino, daquilo de que você não escapa. Ou daquilo de que você não pode escapar? Por quê? Por que eu não posso tomar outro rumo?10 Não conquistei nada11. Um derrotado na vida12. Quem não pode cumprir os deveres de pai não tem direito de tornar-se pai13.

– E se eu for um homem mau? – falei, e claro, me senti imediatamente desastrado14 – Não, não pode ser assim – disse15 – O que é que me tortura?16

Andei devagar para ganhar tempo17. Maria18 me aguardava andando pelo gramado, veio me abrir o portão19 e caminhou descalça até onde eu estava20. Tinha as faces vermelhas e molhadas de lágrimas21. Passou a mão na minha cabeça22 sem olhar para mim23 e sussurrou: “Na verdade, estou com um pouco de medo.”24

Cheguei a abrir a boca, e o que eu ia dizer envelheceu de imediato25. Então nos beijamos26.

Quando senti que a porta às minhas costas se fechava, não soube se começava a rir ou se chorava. Respirei aliviado27. Eu não queria mais lutar28. O que tem que ser será bom29.


1 Mario VARGAS LLOSA. Travessuras da menina má. Tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht. Rio de Janeiro: Objetiva, 2006, p.185.

2 e 18 Albert CAMUS. Estado de sítio/O estrangeiro. Tradução de Antonio Quadros. São Paulo: Abril Cultural, 1979, p.211.

3 Lionel SHRIVER. Precisamos falar sobre Kevin. Tradução de Beth Viera e Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2007, p.70.

4 Bernardo AJZENBERG. Olhos secos. Rio de Janeiro: Rocco, 2009, p.29.

5 e 12 Enrique VILA-MATAS. Doutor Pasavento. Tradução de José Geraldo Couto. São Paulo: Cosac Naify, 2009, p.189.

6 Herman HESSE. Sidarta. Tradução de Herbert Caro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1973, p.42.

7 Raymond CARVER. Iniciantes. Tradução de Rubens Figueiredo. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.83.

8 e 23 Milton HATOUM. Cinzas do Norte. São Paulo: Companhia das letras (de bolso), 2010, p.45 e p.13.

9 e 13 Jean-Jacques ROUSSEAU. Emílio ou Da educação. Tradução de Roberto Leal Ferreira. Rio de Janeiro: Martins Fontes, 2004, p.297 e p.27.

10 Cristovão TEZZA. O filho eterno. Rio de Janeiro: Record, 2010, p.41.

11 e 26 Roberto BOLAÑO. Estrela distante. Tradução de Bernardo Ajzenberg. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.142 e p.139.

14 João Gilberto NOLL. Harmada. São Paulo: Francis, 2003, p.96.

15 Leon TOLSTÓI. A morte de Ivan Ilitch. Tradução de Vera Karam. Rio Grande do Sul: L&PM, 2007, p.56.

16 Fernando PESSOA. Ficções do interlúdio. Lisboa: Assírio & Alvim, 2007, p.21.

17 Witold GOMBROWICZ. Cosmos. Tradução de Tomasz Barcinski e Carlos Alexandre Sá. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p.79.

 19 Raduan NASSAR. Um copo de cólera. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p.9.

20 Philip ROTH. Adeus Columbus. Tradução de Paulo Henriques Britto. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p.81.

21 Fernando SABINO. Duas novelas de amor. São Paulo: Ática, 2002, p.35.

22 Jorge AMADO. Capitães de areia. Rio de Janeiro: Record, 1996, p.54. 

23 Ian MCEWAN. Na praia. Tradução de Bernardo Carvalho. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p.68.

25 Adriana LUNARDI. A vendedora de fósforos. Rio de Janeiro: Rocco, 2011, p.80.

26 Marçal AQUINO. Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.228.

28 Clarice LISPECTOR. A paixão segundo G.H. Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p.88.

29 Walt WHITMAN. Folhas de relva. Tradução de Rodrigo Garcia Lopes. São Paulo: Iluminuras, 2008, p.153.

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MixLit 55: Uma visita à sra. Mercado

Sentada no parapeito, cabisbaixa, imersa em pensamentos1, embriaguez2, juntamente alegre e triste3, a sra. Mercado só percebeu a nossa aproximação quando Poirot estacou diante dela e a saudou4.

— Q-q-quanto é?5

Ela ficou curiosa pela figura: terno, gravata, o cabelo penteado com capricho, mudando do cinza pro grisalho. Um coroa, mais um. Estava se especializando no antendimento à terceira idade6.

— Quanto você tem aí?7

Viuva, baixinha, feia, gordinha8, um hálito de mamute9. Só não tenho medo dela quando estamos na cama10, eu disse11, De bom não tem nada, nem o exotismo12.

— Que importa?13, me disse14 Poirot15 — Xá comigo!16

— Faça bom proveito!17

Acendi um cigarro, ele trouxe uma garrafa de cerveja, dois copos, não podia ver ninguém bebendo sozinho, “Me dá aflição!”, brindamos, sumiu atrás da mulher18.

Meu respeito por ele aumentou19.


1 Agatha CHRISTIE Morte na Mesopotâmia. Tradução de Henrique Guerra. Rio Grande do Sul: L&PM, p.168.

2 Marçal AQUINO. Eu receberia as piores noticias dos seus lindos lábios. Sã o Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.85.

3 Machado DE ASSIS O alienista. Rio Grande do Sul: L&PM, 1998, p.87.

4 Agatha CHRISTIE. Idem.

5 Atiq RAHIMI. Syngué sabour – Pedra-de-paciência. Estação Liberdade. P.110.

6 Marçal AQUINO. Idem.

7 Atiq RAHIMI. Idem, p.111.

8 Muriel BARBERY. A elegância do ouriço. Tradução de Rosa Freire D`Aguiar. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p.115.

9 Muriel BARBERY. Idem.

10 Péter ESTERHÁZY. Uma mulher. Tradução de Paulo Schiller. São Paulo: Cosac Naify, 2011, p.96.

11 Marçal AQUINO. Idem, p.217.

12 Péter ESTERHÁZY. Idem, p.83.

13 Machado DE ASSIS. Idem, p.25.

14 Luiz RUFFATO. Estive em Lisboa e lembrei de você. São Paulo: Companhia  das Letras, 2009, p.19.

15 Agatha CHRISTIE. Idem.

16 Luiz RUFFATO. Idem.

17 Muriel BARBERY. Idem, p.34.

 18 Luiz RUFFATO. Idem.

 19 Agatha CHRISTIE. Idem, p.171.

Imagem: pintura de Emile Nolde, “Strange couple brown ground”.

MixLit 52: A uma distância segura

Fechou o chuveiro, pegou a toalha1. Enorme, apareceu resmungando. Disse:

– O que está se passando?2

– Não consigo ficar bem com o sono. Mesmo tudo parecendo claro…3 A miragem, a alucinação, o sonho…4 Eu não faço idéia, pai. Podem ser muitas coisas5.

Os dois ficaram pensativos6.

– Por favor, não vá embora!7

O pai, sem pronunciar uma única palavra, pôs-se a andar de um lado para o outro8 num silêncio inquietante9, dirigindo-se até a janela da sala em busca de ar puro. Abriu-a violentamente, com gesto enérgico, quase que num ato de protesto silencioso contra o filho, que com um par de frases afundara toda sua vida dedicada com sucesso a10 cancelar11 o aumento da intimidade entre os dois12.

Olhou para as montanhas mais além de Lordsburg. Observando13, ficou sozinho com vontade de estar em algum lugar onde alguém gostasse dele14.

E voltou15.


1 Marçal AQUINO. Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios. Sã o Paulo: Companhia das Letras, 2009, pg.134.

2 Neil GAIMAN. Cabelo doido. Tradução de Leonardo Villa-Forte. Rio de Janeiro: Rocco, 2010, p.34.

3 Nira KAUFMAN. “Sonho”, em: Ar comprimido. São Paulo: Escola da Vila, 2001, p.73.

4 Michel TOURNIER. Sexta-feira ou Os limbos do pacífico. Tradução de Fernanda Botelho. São Paulo: Difel, 1985, p.48.

5 Antônio XERXENESKY. Areia nos dentes. Rio de Janeiro: Rocco, 2010, p.62.

6 Idem, p.57.

7 Maurice SENDAK. Onde vivem os monstros. Tradução de Heloisa Jahn. São Paulo: Cosac Naify, 2009, p.32.

8 Hermann BROCK. Pasenow ou O Romantismo, em: Os sonâmbulos. Tradução de Wilson Hilário Borges. São Paulo: Germinal, 2003, p.15.

9 Idem, p.13.

10 Enrique VILA-MATAS. A viagem vertical. Tradução de Laura Janina Hosiasson. São Paulo: Cosac Naify, 2010, p.42.

11 Ian McEWAN. Solar. Tradução de Jorio Dauster. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p.20.

12 Mallanaga VATSYAYANA. Kama Sutra. Tradução de Waltensir Dutra da versão cá·ssica de Richard Burton. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, p.146.

13 Ian McEWAN. Idem, p.308.

14 Maurice SENDAK. Idem, p.30.

15 Hermann BROCK. Idem, p.31.

Mixlit 7: Corte no mundo

Tudo na cidade continuava como antes – o exército no quartel, as fotografias do presidente por todo lado, o vapor realizando suas viagens regulares vindo da capital. Mas os homens haviam perdido ou rejeitado a idéia de uma autoridade vigilante(1). O pelotão que saía à noite para proteger o quartel, alapado nas matas rasas que cresciam, amarelentas, na areia, torcidas de anemia, aproximava-se no escuro, passava sob a lâmpada coberta de um abajur de insectos, dispersava-se sem ruído nas cabanas das casernas, onde a profundidade do sono se media pela intensidade do cheiro dos corpos, amontoados ao acaso como nas fossas de Auschwitz, e eu perguntava ao capitão O que fizeram do meu povo(2).

Desci a viela bêbado a ponto de precisar me apoiar na parede das casas, a maioria pintada de branco, uma afronta ao pó avermelhado daquele lugar(3). Nossas janelas estavam escuras. A entrada estava vazia. Entrei caminhando junto à parede da esquerda, mas não havia ninguém: só a escada subindo em curva na sombra ecos de passos de gerações tristes como poeira leve sobre as sombras, meus passos a despertá-las como pó, que depois descia, leve, outra vez. Vi a carta antes mesmo de acender a luz, em pé, apoiada num livro sobre a mesa, para que eu a visse:(4)

“Se a voz de uma mulher que conta histórias tem o poder de trazer crianças ao mundo, é também verdade que uma criança tem o poder de dar vida a histórias. Dizem que um homem ficaria louco se não pudesse sonhar à noite. Do mesmo modo, se não é permitido a uma criança entrar no…”(5)

Ouviu?, é tiro, vamos lá!(6)

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1. V.S. NAIPUL. Uma curva no rio. 1979. Tradução de Carlos Graieb. Companhia das Letras. São Paulo. 2004, pg.239.

2. Antonio LOBO ANTUNES. Os cus de Judas.  1979. Alfaguara – Objetiva. Rio de Janeiro. 2007, 2ª edição, pg.54.

3. Marçal AQUINO. Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios. 2005. Companhia das Letras. São Paulo. 2009, 4ª reimpressão, pg.78.

4. William FAULKNER. O som e a fúria. 1929. Tradução de Paulo Henriques Britto. Cosac & Naify. São Paulo.2003, pg.166.

5. Paul AUSTER. A invenção da solidão. 1982. Tradução de Rubens Figueiredo. Companhia das Letras. São Paulo. 1999, pg.172.

6. Luiz RUFFATO. Eles eram muitos cavalos. 2001. Boitempo editorial. São Paulo. 2002, 2ª edição, pg 143.

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