Archive for the ‘Valère NOVARINA’ Category

MixLit 54: Uma ida à vida

Aqui o público entra e diz: VEJAMOS A CENA.

O morto responde: Eis1 o verdadeiro método para chegar ao conhecimento de todas as coisas2: Deus desistiu? Não resta nada para nós a não ser derramar nosso próprio sangue?3 De que estava Deus querendo nos lembrar? Não sou pessoa que precise ser lembrada de que dentro de tudo há sangue. Não só não esqueço o sangue de dentro como eu o admito e o quero, sou demais o sangue para esquecer o sangue, e para mim a palavra espiritual não tem sentido4, uma mistificação colossal5, e nem a palavra terrena6. Mas a verdade é que7 depois de dias fechados, uma manhã de bom tempo8, vacas aparando a grama, galinhas arregaladas9, brilho e sutileza da atmosfera: uma seda fresca e luminosa; este momento vazio (nenhum significado) produz uma evidência: vale a pena viver10. Mas não é lá um conselho que eu siga11. A estadia foi boa12, mas ela foi também forçosamente monótona13.

A essa altura, então, na peça bem desenvolvida (e, talvez, na vida honestamente analisada)14 estaremos livres para suspirar ou lamentar. E aí poderemos ir para casa15.

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1 Valère NOVARINA. Diante da palavra. Tradução de Ângela Leite Lopes. Rio de Janeiro: 7 Letras. 2009, p.29.

2 René DESCARTES. “Discurso do método”, em Descartes – Vida e obra, coleção Os pensadores. Tradução de Enrico Corvisieri. São Paulo: Nova Cultural, 1999, p.48.

3 Toni MORRISON. Amada. Tradução de José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p.257.

4 Clarice LISPECTOR. Felicidade clandestina. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1998, conto: Perdoando Deus, p.42.

5 Nelson RODRIGUES. O beijo no asfalto.Em: O teatro completo de, 4 – Tragédias cariocas II. 1961-1978. Nova Fronteira. Rio de Janeiro. 1990, p.143.

6 Clarice LISPECTOR. Idem, p.42.

7 Angélica FREITAS. Rilke-shake. Rio de Janeiro/São Paulo: 7Letras/Cosac Naify, 2006, p.28.

8 Roland BARTHES. A preparação do romance, vol.1. Tradução de Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Martins Fontes, 2005, p.99.

9 Angélica FREITAS. Idem, p.20.

10 Rolanda BARTHES. Idem, p.99.

11 Bruno AZEVÊDO. Breganejo Blues – novela trezoitão. Maranhão: Pitomba, 2009, p.48.

12 Bernardo AJZENBERG. Olhos secos. Rio de Janeiro: Rocco, 2011, p.9.

13 Bernardo AJZENBERG. Idem.

14 David MAMET. Três usos da faca. Tradução de Paulo Reis. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001, p.77.

15 David MAMET. Idem.

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MixLit 41: A postura do poeta Miguel

“Não viajo para países em guerra”, me disse o Miguel quando eu perguntei se ele tinha vontade de ir1.

Ele2 mantém cuidadosamente seu diário, guarda sua correspondência, redige as minutas de todas as reuniões em que discutem a situação e se indagam como continuar. Ele lhes explica3: as palavras sempre foram inimigas das coisas e há desde sempre uma luta entre a fala e os ídolos4.

Aprendi há muito5: não agir dá-nos tudo. Imaginar é tudo, desde que não tenda para agir6.  É sempre mais tentador se empenhar em algo familiar7. O poeta é o gênio da lembrança. Não pode fazer senão recordar, não pode fazer mais do que admirar o que foi realizado pelo herói8.

Quanto a mim, apetecer-me-ia9 o gosto do sangue10.

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1. Os sete NOVOS. Amoramérica. Rio de Janeiro: 7 Letras. 2008, p.63.

2,3. Milan KUNDERA. O livro do riso e do esquecimento. Tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1987, p.10.

4. Valère NOVARINA. Diante da palavra. Tradução de Ângela Leite Lopes. Rio de Janeiro: 7 Letras. 2009, p.15.

5. José Eduardo AGUALUSA. Milagrário pessoal. Rio de Janeiro: Língua Geral. 2010, p. 21.

6. Fernando PESSOA. Livro do desassossego. São Paulo: Companhia das Letras. 2009, p.179.

7. Waly SALOMÃO. Babilaques. Trabalho: “Construtivista tabaréu”, 1977. Rio de Janeiro: Contracapa. 2007, pg.41

8. Soren KIERKEGAARD. Temor e Tremor. Tradução de Torrieri Guimarães. Rio de Janeiro: Ediouro. Sem data, p.35

9. Walter CAMPOS DE CARVALHO. A lua vem da Ásia. Escrito em 1956, edição eletrônica em pdf disponível na internet, p.71.

10. André MALRAUX. A condição humana. Tradução de Jorge de Sena. São Paulo: Abril. 1972, p.41.

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