Archive for julho \25\UTC 2012

MixLit 63: Os noivos

Naquela mesma noite, Emilia mentiu pela primeira vez para Julio, e a mentira foi1: não sou virgem.2

Ele não sabia o que dizer. Filho único, internato só de meninos – não sabia como falar com uma mulher quando as coisas davam errado.3 A verdade não se comunica4, cada um que entra imagina ser o primeiro a entrar.5

Levantou o rosto, apertou os olhos, estremeceu. A sua face doía. E quando pensava em levantar-se, logo desistia.6

Um estado de contemplação associado a uma respiração forte começou a acalmá-lo e, enquanto os ombros baixavam em verdadeiro relaxamento, lhe veio a ideia7: Largar o cobertor, a cama, o medo, o terço, o quarto, largar toda simbologia e religião; largar o espírito, largar a alma, abrir a porta principal e sair.8

 Emilia9 permaneceu deitada com o corpo tensionado10 em silêncio, o silêncio mais longo que já houvera entre eles.11


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1 Alejandro ZAMBRA. Bonsai. Tradução de Josely Vianna Baptista. São Paulo: Cosac Naify, 2012, p.21.

2 Nicolas BEHR. Poesia marginal – Poeta marginal? Eu, hein? No site do autor: http://www.nicolasbehr.com.br/pagpoesiamarg.htm

3 Ian MCEWAN. Serena. Tradução de Caetano Galindo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p.79.

4 Elaine PAUVOLID. O silêncio como contorno da mão. Rio de Janeiro: Multifoco, 2011, p.61.

James JOYCE. Ulysses. Tradução de Caetano Galindo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p.1029.

6 Nilton RESENDE. Diabolô. Maceió: Editora da Universidade de Alagoas, 2011, p.55

7 Leandro JARDIM. Rubores. Rio de Janeiro: Oito e meio, 2012, p.65.

8 Antônio CÍCERO. A cidade e os livros. Rio de Janeiro: Record, 2002, p.8 na amostra distribuída durante a Flip em Paraty, 2012.

9  Alejandro ZAMBRA, idem.

10 Jennifer EGANA visita cruel do tempo. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2011, p.16 na amostra distribuída durante a Flip em Paraty, 2012.

11 Jennifer EGAN, idem.

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