Archive for the ‘Anton TCHEKHOV’ Category

MixLit 61: Um jogo

Ele estava no quarto, empurrando roupas para dentro de uma mala, quando ela chegou à porta.

– Estou contente por você estar indo embora, estou contente por você estar indo embora! – disse ela – Está ouvindo?1

– Você estava muito irritada agora há pouco.

– Fui apanhada de surpresa.

– Peço desculpas por isso.2 Meu pensamento esbarra nos seios, nas coxas e ancas das mulheres.3 É muito difícil ser inteligente neste corpo.4 Não é você que tem de suportar isso.5

“Por que ele está me dizendo isso?”, pensou Liôlia.6  Sentiu um duro apertão na traqueia, e7 teve um estremecimento íntimo.8 A tentação de9 beijos cheios de paixão, e tais como nunca recebera, fizeram-na de repente esquecer que talvez ele amasse outra mulher. Dali a pouco já não o considerava culpado.10 Estava jogando algum jogo, no qual precisava mover-se rapidamente11. Curvou-se em cima dele para sussurrar umas últimas palavras em seu ouvido:12

– Se quiser, por muito favor, ficar aqui até à noite, há de ficar calado; ao contrário – rua!13

Ele não respondeu. Foi ela quem se afastou, somente para voltar mais meiga e mais ousada. Tornou-se tão afoita, tão desesperada, que o deixou imaginando se algum dia conhecera a verdadeira natureza de sua mulher.14

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1 Raymond CARVER. Iniciantes. Tradução de Rubens Figueiredo. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.234.

2 Woody ALLEN. Adultérios. Tradução de Cássia Zanon. Rio Grande do Sul: L&PM, 2011, p.63.

3 Murilo MENDES. Poemas e Bumba-meu-Poeta. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989, p.61.

4 Gonçalo M. TAVARES. O homem ou é tonto ou é mulher. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2005, p.31.

5 William FAULKNER. O som e a fúria.  Tradução de Paulo Henriques Britto. São Paulo: Cosac & Naify, 2003, pg.264.

6 Anton TCHECKHOV. Um negócio fracassado e outros contos de humor. Tradução de Maria Aparecida Botelho Pereira Soares. Rio Grande do Sul: L&PM, 2010, p.29.

7 Domingos AMARAL. Quando Lisboa tremeu. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2011, p.18.

8 José de ALENCAR. Lucíola. São Paulo: Ática, 1998, p.119.

9 Jorge Luis BORGES. Discussão. Tradução de Josely Vianna Baptista. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p.42.

10 STENDHAL. O vermelho e o negro. Tradução de Raquel Prado. São Paulo: Cosac Naify. 2008, p.85.

11 Patrick SÜSKIND. O perfume – história de um assassino. Tradução de Flávio R- Kothe. Rio de Janeiro: Record, 1985, p.178.

12 J.M. COETZEE. Vida e época de Michael K. Tradução de José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p.206.

13 Aluísio AZEVEDO. O cortiço. São Paulo: Ática, 1992, p.95.

14 Nathan ENGLANDER. Para alívio dos impulsos insuportáveis. Tradução de Lia Wyler. Rio de Janeiro: Rocco, 2007, p.205.

Imagem: Bruce French, “Darkness is the absence of light”.


MixLit 53: O sim, o não, as conclusões

Sozinho, a meio da noite, a febril luz do pequeno candeeiro a arder1, enquanto o fósforo se apagava, vi como me olhava com ternura. Depois, já na completa escuridão, senti que sua mão acariciava minha cabeça. Disse-me2 que queria transformar aqueles pobres-coitados em ferozes defensores da pátria3. O que seria dela se também se apagasse como se apagou a chama daquela luz débil?4

– De quanto vocês precisam para fazer a sua revolução? – perguntou5.

Permaneci calado, com os olhos fixos na terra aos meus pés. Eu e a terra – e ela ao lado6.

– E os seus amigos? – disse ela – Não pensa neles?7

Mais uma vez eu precisava dizer alguma coisa, mas antes que pudesse8, saiu fechando a porta sem fazer ruído9.

O vento cantava os funerais de algum desconhecido. As árvores se curvavam, gemedoras e soluçantes, Alguma coisa… possivelmente uma veneziana… rangia desesperadamente e batia contra a base da janela10. Fazer uma revolução?11 Por que tudo tem de ter resposta?12 Por mais que se lute contra a realidade13… Não sei bem o que dizer14… Como evitar a aura de conclusão de uma última sentença?15


1 valter hugo MÃE. A máquina de fazer espanhóis. São Paulo: Cosac Naify, 2011, p.167.

2 Ernesto SABATO. O túnel. Tradução de Sérgio Molina. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p.64.

3 Luiz RUFFATO. O livro das impossibilidades. Rio de Janeiro: Record, 2008, p.81.

4 Juan RULFO. Pedro Páramo. Tradução de Eric Nepomuceno. Editora Record. Rio de Janeiro. Edições BestBolso, p.114.

5 Juan RULFO. Idem, p.110

6 Witold GOMBROWICZ. Cosmos. Tradução de Tomasz Barcinski e Carlos Alexandre Sá. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p.129.

7 Gustave FLAUBERT. Madame Bovary. Tradução de Fernanda Ferreira Graça. Linda-a-Velha, Portugal: Biblioteca Visão, 2000, p.130.

8 Witold GOMBROWICZ. Idem, p.129.

9 Juan RULFO. Idem, p.114.

10 Anton TCHEKHOV. “Então, era ela!”; em: Os mais brilhantes contos de. Tradução de Yolanda Vettori. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, sem data, p.99

11 Wolfgang HOHLBEIN, e Heike HOHLBEIN. Marchenmond II – Os filhos das terras sombrias. Tradução de Elisabeth Loibl.  Rio de Janeiro: Prestígio editoria/Ediouro, sem data, edição digital no Scribd, sem numeração de página.

12 Ernesto SABATO. Idem, p.64.

13 Ricardo DOMENECK. A cadela sem Logos. Rio de Janeiro/São Paulo: 7Letras/Cosac Naify, 2007, p.123.

14 Laura ERBER. Os dias e os corpos. São Paulo: Editora de Cultura, 2008, p.58.

15 Ricardo DOMENECK. Idem.

MixLit 48: Parar antes de ter que parar

À noite, durante o jantar, após eu1 fazer a barba2, meu pai3 veio se sentar no sofá, ao meu lado. Queria me dizer alguma coisa. Eu o adivinhava desde o começo do jantar, e já sabia do que se tratava.

– Como bebi! – disse ele – Isso é pior do que qualquer veneno. Mas esta é a última vez. Palavra! A última vez! Tenho força de vontade…4

Coçava a cabeça com a caneta como se isto pudesse devolver-lhe a consciência interrompida pelo5 seu conhaque francês6.

– Chega um momento em que não se pode mais continuar7 – continuava falando8 – Livre! Enfim livre!9

Levantou-se e10 avançou dois passos, os braços estirados como para abraçar alguém, sem ver nada. Infelizmente escorregou no soalho muito lustroso e parou. Veio-lhe então a ideia de que escorregar era inconveniente. Não devia escorregar11.

– Me desculpa. Estou meio alegre. Esta noite nunca mais12.

Não ouço outra coisa desde que existo13. Que tragédia, meu pai14.


1 Vladimir NABOKOV. Lolita. Tradução de Jorio Dauster. Rio de Janeiro: O Globo; São Paulo: Folha de São Paulo, 2003, p.49.

2 Georg BÜCHNER. Woyzeck. 1835. Tradução de Tércio Redondo. Hedra. São Paulo. 2003, p.63.

3 Orhan PAMUK. Neve. 2002. Tradução de Luciano Machado. Companhia das Letras. São Paulo. 8ª edição, 2007, p.137.

4 Anton TCHEKHOV. Estranha confissão. 1945. Tradução do castelhano por Bernardo Ajzenberg. Editora Planeta. São Paulo. 2005, pg.63.

5Mariel REIS. A caderneta. Em: Revista Ficções 18. 7Letras. Rio de Janeiro. 2009, p.62.

6Autran DOURADO. Os mínimos carapinas do nada. Em: Os cem melhores contos brasileiros do século. Org. de Italo Moriconi. Objetiva. Rio de Janeiro. 2000, p.514.

7 e 10 Milan KUNDERA. O livro do riso e do esquecimento. Tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1987, p.47, 55.

8 Jorge Luis BORGES. Ficções. Tradução de Davi Arrigucci Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p.105.

9, 12 e 14Dalton TREVISAN. 33 contos escolhidos.  Rio de Janeiro: Record, 2005, p.92, 93 e 96.

11 Graciliano RAMOS. Insônia.  Rio de Janeiro: Record. 2001, pg.100.

13Thomas BERNHARD. Montaigne – Uma narrativa. Em: Revista Serrote. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2011, p.232.


MixLit 17: Intervalo de ensaio

No final daquele ato, o ensaio foi interrompido. Seria retomado, disse o regente em inglês, francês e alemão, uma hora e meia mais tarde. O regente saiu; os músicos deixaram seus instrumentos e também saíram. Colocando-se de pé, Rick foi para os bastidores, até os camarins; seguiu o final da fila do elenco, demorando-se e pensando, é melhor assim, acabar de vez com isso.(1)

– Há muita música, uma voz excelente, neste pequeno instrumento, e você é incapaz de fazê-lo falar. Pelo sangue de Cristo! Pode me chamar do instrumento que quiser, pode me dedilhar quanto quiser, que não vai arrancar o menor som…(2)

– Ah… meu Deus…

– Eu estou de olho em você desde o início! Nem uma vez você pôs as vendas nos olhos deste rapaz aqui! Você chega aqui e polvilha o lugar com pó-de-arroz e borrifa perfume e cobre a lâmpada com uma lanterna de papel, e olhem! Vejam que o lugar se transformou no Egito e você é a Rainha do Nilo! E eu estou dizendo… Ha! Ha! Está me ouvindo?(3)

Uma figura chama a atenção de Bruna. Ela puxa o cartão e aproxima do seu foco de visão. É possuída por uma vertigem. Tudo gira. Um terrível mal-estar. Bruna começa a suar frio e quase desmaia.(4)

“O marido matou sua mulher!”(5)

– Desculpem… houve engano…um engano…

E os rapazes compreenderam ainda menos quando a viram fugir, a princípio lentamente, depois numa carreira cega. Nem desconfiaram que ela fugira a trancar-se no quarto e, mordendo o travesseiro, chorou as lágrimas mais amargas e mais quentes que tinha nos olhos.(6)

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1. Philip K. DICK. O caçador de andróides. 1968. Tradução de Ryta Vinagre. Editora Rocco. Rio de Janeiro. 2007, pg.112.

2. William SHAKESPEARE. Hamlet. 1599-1601. Tradução de Millôr Fernandes. Editora L&PM. Rio Grande do Sul. 2007, pg.82.

3. Tennessee WILLIAMS. Um bonde chamado desejo. 1947. Tradução de Beatriz Viégas-Faria. Editora L&PM. Rio Grande do Sul. 2008, pg.139.

4. Lourenço MUTARELLI. A arte de produzir efeito sem causa. 2008. Companhia das Letras. São Paulo. 2008, 1ª reimpressão, pg.192.

5. Anton TCHEKHOV. Estranha confissão. 1945. Tradução do castelhano por Bernardo Ajzenberg. Editora Planeta. São Paulo. 2005, pg.172.

6. Rachel DE QUEIROZ. Os cem melhores contos brasileiros do século. Seleção: Italo Moriconi. Editora Objetiva. Rio de Janeiro. 2000, conto: Tangerine-Girl, pgs.164,165. In: A casa do morro branco, 1948.

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