Archive for the ‘Graciliano Ramos’ Category

MixLit 66: O que foi, o que virá

Houve um momento quando estava me aproximando dos trinta anos em que eu admiti que meu amor por aventuras já tinha acabado há muito tempo. Eu jamais iria fazer as coisas que havia sonhado1 quando topamos entrar na vida do outro.2 Eu percebia, e ela percebia que eu percebia, mas nenhum de nós dizia nada.3 Eu me lembro4: Empurro-a contra parede, tento penetrá-la, mas não consigo, então sentamos na privada e tento, mas também não conseguimos. Tentamos de todo jeito, mas não dá. Ela continua segurando meu pau como se fosse um salva-vidas, não adianta.5 A vela está quase a extinguir-se.6 Simplesmente não posso. Não poderei nunca mais.7

Tudo tem um fim; o mais amplo recipiente acaba ficando cheio.8 A vida é engraçada, não é?9 No fundo, uma questão de invenção, de inventar antes dos outros, de adiantar-se na criação de novas formas e de fazê-las sempre novas.10 Nem sei o que eu ainda estou esperando.11

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1 Julian BARNES. O sentido de um fim. Tradução de Léa Viveiros de Castro. Rio de Janeiro: Rocco, 2012, p.101.

2 Fernando MOLICA. O livro branco (Vários autores. Organização de Henrique Rodrigues). Rio de Janeiro: Record, 2012, p.91.

3 Henry JAMES. A volta do parafuso – seguido de Daisy Miller. Tradução de Guilherme da Silva Braga. Rio Grande do Sul: L&PM, 2008, p.14.

4 Julian BARNES. O sentido de um fim, p.9.

5 Henry MILLER. Trópico de Câncer. Tradução de Beatriz Horta. Rio de Janeiro: José Olympio, 2006, p.22.

6 Graciliano RAMOS. São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 1985, p.188.

7 Carson MCCULLERS. Conto: Wunderkind. Livro: A balada do café triste. Tradução de Caio Fernando Abreu. São Paulo: Círculo do Livro, 1987, p.102.

8 Robert Louis STEVENSON. O médico e o monstro. Tradução de Heloisa Jahn. São Paulo: Ática. São Paulo, 1996, p.90.

9 Scott ADAMS. Dilbert – Preciso de férias! Rio Grande do Sul: L&PM, 2010, p.84.

10 César AIRA. As noites de flores. Tradução de Paulo Andrade Lemos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006, p.57.

11 César CARDOSO. Conto: That’s all folks. Livro: É assim que o mundo acaba (Vários autores. Organização de Flávia Iriarte e Daniel Russel Ribas). Rio de Janeiro: Oito e Meio, 2012, p.30.

Imagem retirada daqui.

MixLit 48: Parar antes de ter que parar

À noite, durante o jantar, após eu1 fazer a barba2, meu pai3 veio se sentar no sofá, ao meu lado. Queria me dizer alguma coisa. Eu o adivinhava desde o começo do jantar, e já sabia do que se tratava.

– Como bebi! – disse ele – Isso é pior do que qualquer veneno. Mas esta é a última vez. Palavra! A última vez! Tenho força de vontade…4

Coçava a cabeça com a caneta como se isto pudesse devolver-lhe a consciência interrompida pelo5 seu conhaque francês6.

– Chega um momento em que não se pode mais continuar7 – continuava falando8 – Livre! Enfim livre!9

Levantou-se e10 avançou dois passos, os braços estirados como para abraçar alguém, sem ver nada. Infelizmente escorregou no soalho muito lustroso e parou. Veio-lhe então a ideia de que escorregar era inconveniente. Não devia escorregar11.

– Me desculpa. Estou meio alegre. Esta noite nunca mais12.

Não ouço outra coisa desde que existo13. Que tragédia, meu pai14.


1 Vladimir NABOKOV. Lolita. Tradução de Jorio Dauster. Rio de Janeiro: O Globo; São Paulo: Folha de São Paulo, 2003, p.49.

2 Georg BÜCHNER. Woyzeck. 1835. Tradução de Tércio Redondo. Hedra. São Paulo. 2003, p.63.

3 Orhan PAMUK. Neve. 2002. Tradução de Luciano Machado. Companhia das Letras. São Paulo. 8ª edição, 2007, p.137.

4 Anton TCHEKHOV. Estranha confissão. 1945. Tradução do castelhano por Bernardo Ajzenberg. Editora Planeta. São Paulo. 2005, pg.63.

5Mariel REIS. A caderneta. Em: Revista Ficções 18. 7Letras. Rio de Janeiro. 2009, p.62.

6Autran DOURADO. Os mínimos carapinas do nada. Em: Os cem melhores contos brasileiros do século. Org. de Italo Moriconi. Objetiva. Rio de Janeiro. 2000, p.514.

7 e 10 Milan KUNDERA. O livro do riso e do esquecimento. Tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1987, p.47, 55.

8 Jorge Luis BORGES. Ficções. Tradução de Davi Arrigucci Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p.105.

9, 12 e 14Dalton TREVISAN. 33 contos escolhidos.  Rio de Janeiro: Record, 2005, p.92, 93 e 96.

11 Graciliano RAMOS. Insônia.  Rio de Janeiro: Record. 2001, pg.100.

13Thomas BERNHARD. Montaigne – Uma narrativa. Em: Revista Serrote. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2011, p.232.


MixLit 40: O dia seguinte

A noite tinha sido difícil, a pior até agora, embora eu já estivesse acostumado ao interregno turbulento em que meu sono havia se transformado. Eram pequenas nebulosas no estado de vigília e não duravam mais de quinze minutos, tempo suficiente, contudo, para inquietar- me com as imagens pavorosas que apareciam nos sonhos1. Se a escuridão fosse completa, eu conseguiria encostar-me de novo, cerrar os olhos, pensar num encontro que tive durante o dia, recordar uma frase, um rosto, a mão que apertou os dedos, mentiras sussurradas inutilmente2. Tudo de repente se tornara um tanto solene, esquisito.

Eu ia dobrando as roupas e as depositava meio ritualisticamente numa valise de segunda mão que eu comprara fazia pouco tempo. Quando via uma camisa ou uma calça que acabara de colocar na valise eu respirava fundo, me vinham imagens mudas como a de uma velha vassoura varrendo folhas de uma calçada, figurações assim, rápidas e como que despojadas de uma motivação inicial, e eu me sentia a cumprir uma tarefa extrema, como se depois dali eu não tivesse que fazer malas nunca mais3.

Foi quando cinco raios sucederamse no céu, a trovoada reboou num barulho de fim do mundo4. Com uma chuva destas, que pouco lhe falta para um dilúvio, seria de esperar que as pessoas estivessem recolhidas, à espera que o tempo estiasse5. Foi a própria Ana que tomou a iniciativa de vir até a minha mesa. – Posso me sentar por um instante? – ela perguntou6 – Não retires de mim a tua mão, eu me prometo que talvez até o fim deste relato impossível talvez eu entenda, oh talvez pelo caminho do inferno eu chegue a encontrar o que nós precisamos, mas não retires a tua mão7. Pausei num sorriso de magia e encantamento, coisa familiar mesmo.

Acho que ela não ia acreditar se eu lhe dissesse a verdade8. – A questão é que minha insônia começou há 30 anos, quando nasci. E só vai terminar daqui a 30 anos, quando eu morrer9. Não podia mudar aquilo que era definitivo, mas apenas deixei os braços e as pernas perderem a força sobre a cama, apenas deixei o corpo repousar, aceitar a noite, quando, na escuridão do quarto, me convenci de que tinha tomado uma decisão10.

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1. Adriana LUNARDI. Vésperas. Rocco. Rio de Janeiro. 2002, pg.41.

2. Graciliano RAMOS. Insônia. 1947. Record. Rio de Janeiro. 2001, pg.10.

3. João Gilberto NOLL. Harmada. 2003. W11, selo Francis. São Paulo. 2003, pg.93.

4. Jorge AMADO. A morte e a morte de Quincas Berro D’água. 1959. Record. Rio de Janeiro.1998, 75a edição, pg.94.

5. José SARAMAGO. Ensaio sobre a cegueira. 1995. Companhia das Letras. São Paulo. 2004, 28a reimpressão, pg.225.

6. Sérgio SANT ́ANNA. A senhorita Simpson. 1989. Companhia das Letras. São Paulo. 2003, 3a reimpressão, pgs.160,161.

7. Clarice LISPECTOR. A paixão segundo G.H. 1964. Rocco. Rio de Janeiro. 1998, pg.73.

8. ONDJAKI. Os da minha rua. 2009. Língua Geral. Rio de Janeiro. 2009, 1a reimpressão, pg.129.

9. Gonçalo M. TAVARES. O homem ou é tonto ou é mulher. 2002. Casa da Palavra. Rio de Janeiro. 2005, pg.15.

10. José Luís PEIXOTO. Cemitério de pianos. 2006. Bertrand. Lisboa. 2007, 3a edição, pg.215.

Imagem: Foto, por Maria Beatriz Machado

ESTE TEXTO FOI PUBLICADO ORIGINALMENTE NA REVISTA PESSOA, EDIÇÃO ZERO, E COM ELE É DADO ENCERRADO O TRABALHO NO MixLit DURANTE O ANO DE 2010.

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