Archive for the ‘Adriana LISBOA’ Category

MixLit 49: Uma moça às voltas com um problema

Ela voltou-se ligeiramente, olhou-me, e o seu rosto teve sobre mim um efeito extraordinário. Parecia envolver-me e rejeitar-me ao mesmo tempo. Como se fosse um personagem de sonho, próxima e intangível. Os seus olhos comunicavam1 não-me-toques, não-me-deixes, não-te-esqueças-de-mim2.

Finalmente, rompeu o silêncio, sem tirar os olhos dos meus olhos atônitos3:

– Por acaso temos direito à palavra? E por mais que a tivéssemos, de que valeria?4

Fez um monte de travesseiros ao canto da cama, perto da luz e, fincando o cotovelo neles5, terminou de anotar no caderno o que precisava anotar, guardou seus folhetos, desligou o abajur da mesa de cabeceira e adormeceu com a cabeça apoiada no meu ombro. Fechei os olhos6.


1 Inês PEDROSA. Os íntimos. Rio de Janeiro: Alfaguara/Obetiva, 2010, p.95.

2 Diana de HOLLANDA. Dois que não o amor. Rio de Janeiro: 7 Letras. 2007, p.55.

3 Tatiana SALEM LEVY. Shabat. In: Primos. Organização de Adriana Armony e Tatiana Salem Levy. Rio de Janeiro: Record. 2010, p.293.

4 Paulina CHIZIANE. Niketche: uma história de poligamia. São Paulo: Companhia das Letras. 2004, p.154.

5 Rachel de QUEIROZ. O quinze. Rio de Janeiro: José Olympio, 2010, 90ª edição, p.12.

6 Adriana LISBOA. Azul-corvo. Rio de Janeiro: Rocco. 2010, p.187.

Imagem: Foto de Maria Beatriz Machado.

TEXTO E IMAGEM PUBLICADOS ORIGINALMENTE NA REVISTA PESSOA  EDIÇÃO 2, DE MARÇO de 2011.

MixLit 43: Ameaça na ilha

No fim de maio1 tinha tomado a firme decisão de observar tudo de maneira absolutamente precisa, para não ser surpreendido num descaminho, seja por trás ou de cima para baixo2, em torno dos penhascos de mármore. Ao norte, observávamos os pântanos e terras escuras, de onde partia a ameaça de3 um gênero de criaturas de nascimento prematuro que – se pudermos falar de forma tão paradoxal – saíram de seus ambientes com um excesso crescente de inacabamento animal4.

Florinda continua sem saber a verdade, porque hoje de manhã comentou que roubaram sua cafeteira elétrica; e continua achando que o ladrão entrou na casa dela para roubar5. Ainda não vieram me procurar. Talvez não venham esta noite6. Conheço bem a ilha: se vêm me procurar durante a noite, não temo nem um exército7, que o medo é mau conselheiro8.

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1 Adriana LISBOA. Azul-corvo. Rio de Janeiro: Rocco, 2010, p.120.

2 Franz KAFKA. O veredicto/Na colónia penal. Tradução de Modesto Carone. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.21.

3 Ernst JÜNGER. Nos penhascos de mármore. Tradução de Tércio Redondo. São Paulo: Cosac Naify, 2008, p.56.

4 Peter SLOTERDIJK. Regras para o parque humano. Tradução de José Óscar de Almeida Marques. São Paulo: Estação Liberdade, 2000, p.33.

5 Roberto GÓMEZ BOLAÑOS. Diário do Chaves. Tradução de Fabiana Camargo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2010, p.122.

6 Adolfo BIOY CASARES. A invenção de Morel. Tradução de Samuel Titan Jr. São Paulo: Cosac Naify, 2008, p.35.

7 Adolfo BIOY CASARES. Idem.

8 Lúcio Aneu SÊNECA. Cartas a Lucílio. Tradução de J.A. Segurado e Campos. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2009, 4ª edição, pg.43.

Imagem: “Pulp adventure”, de Jon HODGSON: http://jonhodgson.deviantart.com/

Mixlit 3: Carta a uma amiga

Querida dona Leonor:

Espero que estas linhas a encontrem bem de saúde na companhia dos seus. Depois de muito titubear, volto a escrever-lhe, mas antes de mais nada devo lhe fazer um esclarecimento: tenho, graças a Deus, uma família que muitos gostariam de ter, meu marido é uma pessoa irrepreensível, muito considerado em seu ramo de atividade, não me deixa faltar nada, e meus dois filhos estão crescendo que é um primor, embora como mãe eu não devesse estar dizendo tudo isso, mas já que estou querendo mesmo ser sincera tenho de dizer as coisas como elas realmente são(1) e realmente desta vez proponho já da minha parte uma pergunta ociosa: o que é melhor, uma felicidade barata ou um sofrimento elevado? Vamos, o que é melhor?(2) Como é que aquele ali me descobriu? Não somos mais nós mesmos, nessas condições, e é penoso não ser mais você mesmo, ainda mais penoso do que sê-lo, apesar do que dizem. Pois quando o somos, sabemos o que temos que fazer para sê-lo menos, ao passo que quando não o somos mais, somos qualquer um, não há mais como nos apagar. O que se chama amor é o exílio, com um cartão-postal da terra natal de vez em quando.(3) Na época do meu noivado, eu não sabia nada dos homens. Não sabia nada da vida de um casal. Eu só conhecia meus pais. E que belo exemplo! Meu pai, o grande interesse dele eram suas codornas, suas codornas de briga!(4) Melhor era subtrair, retirar, como um escultor diante de um bloco de pedra. Melhor era ser menos, apequenar-se, ser o mínimo possível e reivindicar o silêncio.(5) Já foi o tempo em que via a convivência como viável, só exigindo deste bem comum, piedosamente, o meu quinhão, já foi o tempo em que consentia num contrato, deixando muita coisa de fora sem ceder contudo no que me era vital, já foi o tempo em que reconhecia a existência escandalosa de imaginados valores, coluna vertebral de toda ´ordem`, mas não tive sequer o sopro necessário, e, negado o respiro, me foi imposto o sufoco; é esta consciência que me libera, é ela hoje que me empurra, são outras agora minhas preocupações, é hoje outro o meu universo de problemas.(6) O que farei? O que devo fazer? O que a consciência diz que devo fazer com esse homem, ou melhor, com esse fantasma? É imperativo que me livre dele, ele precisa ir. Mas, como?(7)

Feliz natal,

Eva(8)

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1. Manuel PUIG. Boquitas pintadas. 1982. Tradução de Luiz Otávio F. Barreto Leite. Círculo do livro. São Paulo, sem data, pg.32.

2. Fiódor DOSTOIÉVSKI. Memórias do subsolo. 1864. Tradução de Boris Schnaiderman. Editora 34. São Paulo. 5ª edição, 2007, pg.145.

3. Samuel BECKETT. Primeiro amor. 1945. Tradução de Célia Euvaldo. Cosac Naify. São Paulo. 2ª reimpressão, 2007, pg.10.

4. Atiq RAHIMI. Syngué sabour – Pedra-de-paciência. 2008. Tradução de Flávia de Nascimento. Editora Estação Liberdade. São Paulo. 2009, pg.69.

5. Adriana LISBOA. Sinfonia em branco. 2001. Editora Rocco. Rio de Janeiro. pg.111.

6. Raduan NASSAR. Um copo de cólera. 1978. Companhia das Letras. São Paulo. 2007, 5ª edição, 15ª reimpressão, pg.55.

7. Herman MELVILLE. Bartleby, o escriturário – Uma história de Wall Street. 1853. Tradução de Cássia Zenon. L&PM Editores. Rio Grande do Sul. 2003, pg.79.

8. Lionel SHRIVER. Precisamos falar sobre o Kevin. 2003. Tradução de Beth Viera e Vera Ribeiro. Editora Intrínseca. Rio de Janeiro. 2007, pg.145

Imagem: “Miserable curves”, de Kazuya Akimoto, 2003: http://www.kazuya-akimoto.com/blog14/

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