Archive for the ‘Flávio CARNEIRO’ Category

MixLit 57: Eu li, está me ouvindo?

Por onde enfio a cabeça para respirar, frenético de sufoco, depois dessa natação profunda de seiscentos e dezessete páginas?1 Não consigo mais aguentar2 essa precavida arte do pastoreio3, dominando-me com sua densa realidade4, mais densa e mais eloquente que a vida cotidiana5. Onde está o exército? Por que não prendem essa gente?6

“O homem, pelo fato de escrever livros, transforma-se em universo (não se fala no universo de Balzac, no universo do Tchekhov, no universo de Kafka?) e o próprio de um universo é justamente ser único. A existência de um outro universo o ameaça na sua própria essência”7, você dirá, e concordarei em parte8. Se você leva duas páginas para dizer que uma pessoa percorreu um quilômetro9, a amargura te invade o coração10. Tirar seriedade do acto da escrita, aprendi-o na infância, tirar seriedade aos actos da vida11. Bem, não vou me estender12, você nunca vai se encher de mim13, sei quando as pessoas não estão me acompanhando, elas reclinam a cabeça para a esquerda e surge essa ruga na testa, essa14.

1 Julio CORTÁZAR. A volta ao dia em 80 mundos – tomo II. Tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht. Civilização Brasileira/Editora Record. Rio de Janeiro. 2008, pg.44.

2 Raymond CARVER. Iniciantes. Tradução de Rubens Figueiredo. Conto: O lance. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, pg.42.

3 Peter SLOTERDIJK. Regras para o parque humano. Tradução de José Óscar de Almeida Marques. São Paulo: Estação Liberdade, 2000, p.52.

4 Lya LUFT.  Reunião de família. Rio de Janeiro: Record, 2008, p.57.

5 Tzvetan TODOROV. A literatura em perigo. Tradução de Caio Meira. Rio de Janeiro: Difel, 2009, p.23.

6 Moacyr SCLIAR. Minha mãe não dorme enquanto eu não chegar. Rio Grande do Sul: L&PM, 1996, p.84.

7 Milan KUNDERA. O livro do riso e do esquecimento. Tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1987, p.121.

8 Flávio CARNEIRO. O leitor fingido. Rio de Janeiro: Rocco, 2010, p.15.

9 Umberto ECO. Seis passeios no bosque da ficção. Tradução de Hildegard Feist. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, pgs.65,66.

10 Moacyr SCLIAR. Idem.

11 Gonçalo TAVARES. 1 – poemas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005, p.163.

12 Simone CAMPOS. Owned – um novo jogador. Rio de Janeiro: 7Letras, 2011. Retirado de trecho disponibilizado no site Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ.

13 Dan RHODES. Timoleon Vieta volta para casa. Tradução de Ryta Vinagre. Rio de Janeiro: Rocco, 2005, p.105.

14 Simone CAMPOS. Idem.

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Mixlit 1: Irrompe!

Havia, primeiro, a memória da infância, com as árvores tão sérias e caladas como pessoas enfeitiçadas.(1) Desculpe, me excedi um pouco, nem parece que tantos anos se passaram, quando me vejo tão exaltado até me esqueço de que aprendi, com a minha, digamos, experiência, não esta que acabo de relatar, tão reles, tão mínima se comparada à outra, que ainda não contei mas vou contar, tenha paciência, vou contar, até me esqueço que aprendi o segredo do mistério, gostaria de saber?(2) Eles têm muitos pensamentos, eu tenho só um pensamento, meu único pensamento vai acabar sendo mais forte que os muitos deles.(3)

Há certos tipos de pessoas que têm algo que as distingue dos outros seres humanos. Pessoas assim possuem um instinto geralmente encontrado apenas nas crianças pequenas: o instinto de estabelecer imediatamente um contato vital entre elas e todas as coisas do mundo.(4) Estão acostumadas, é o modo de ser que escolheram, estabilizando-se assim, e mexer nisto fará com que se voltem contra nós, a despeito das nossas melhores intenções.(5)

Da terça-feira e da quarta, guardo flashes desconexos. A imagem mais nítida está relacionada ao liquidificador. Acho que fiz uma batida com suco de maracujá, leite condensado, vodca ou tequila e uma mão cheia de comprimidos de diversas cores e calibres.(6)

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Nesse momento sua memória começou a esgarçar, até mesmo a ficar desorientada, como seus passos; em algum lugar, voltou a se deparar com uma praça: perambulou por aléias poeirentas, entre gangorras quebradas, castelos de areia inacabados, passou por bancos largos e pesados, esquecidos de tempos imemoriais.(7) Com a mão no peito e o ouvido atento escutava aquela entediante música sabendo que era ela, afinal, que o permitia durar. A repetição salvava o organismo por dentro, mas por fora era indispensável uma expectativa em relação a surpresas, invasões, derrocadas, saltos súbitos e outros percalços.(8)

Quando assim me acontece de abismar-me, é porque já não há lugar para mim em parte alguma, nem mesmo na morte.(9)

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[1] Robert MUSIL. O jovem Torless. 1906. Tradução de Lya Luft. Coleção Grandes Romances. Editora Nova Fronteira. Rio de Janeiro, 1978, p.85.

[2] Flávio CARNEIRO. A confissão. 2006. Editora Rocco. Rio de Janeiro, 2006, p.34.

[3] J.M. COETZEE. Vida e época de Michael K. 1983. Tradução de José Rubens Siqueira. Companhia das Letras. São Paulo, 2ª edição, p.65.

[4] Carson MCCULLERS. A balada do café triste. 1951. Tradução de Caio Fernando Abreu. Círculo do Livro. São Paulo, 1987, p.31.

[5] Nuno RAMOS. Ó. 2008. Editora Iluminuras. São Paulo, 2009, p.207.

[6] Max MALLMAN. Síndrome de Quimera. 2000. Editora Rocco. Rio de Janeiro, 2000, p.58.

[7] Imre KÉRTESZ. O fiasco. 1988. Tradução de Ildikó Suto. Editora Planeta. São Paulo, 2004, p.137.

[8] Gonçalo M. TAVARES. O senhor Calvino. 2004. Casa da Palavra. Rio de Janeiro, 2007, p.58.

[9] Roland BARTHES. Fragmentos de um discurso amoroso. 1977. Tradução de Márcia Valéria Martinez de Aguiar. Martins Fontes Editora. São Paulo, 2ª edição, 2007, p.4.



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