Archive for março \30\UTC 2011

MixLit 44: Contribuição para a vida

Comi-a com os olhos e disse a ela que não se mexa, porque queria detê-la nem que fosse um instante para sempre. A única coisa que eu temia era que passasse alguém, uma senhora de idade média (ou de classe média) e notasse minha turgência, minha urgência1.

– Entre – chamou2 – Entre, formosura3. O senhor está sem cor. Se sente mal?

– Já vai passar.

– Quer um cigarro?

– Não, não. Não, obrigado4. O que é isso?

– Dinheiro para o seu jantar.

– Desculpe, deve haver algum engano.

– Sei que é pouco, mas é tudo que tenho, senhor5. – E, com isso, cerrou os olhos6. –  O que o senhor esperava?7

Ela derrotou totalmente meus Nervos8. Segunda ordem. Sempre damos nisso se isolamos a dimensão amorosa do ato9. Voltei para casa, sentindo-me inteiramente adulto e capaz de assentar minha vida no lugar a que pertenço10: eu amo a rua11, a agasalhadora da miséria12.

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1 Guillermo CABRERA INFANTE. A ninfa inconstante. Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p.77.

2 Heinrich BÖLL. O anjo silencioso. Tradução de Karola Zimber. São Paulo: Estação Liberdade, 2004, p.129.

3 Menotti del PICCHIA. “A mulher que pecou”. Em: Mário de Andrade – Seus contos preferidos. Org. de Luiz Ruffato. Rio de Janeiro: Tinta Negra, 2011, p.205.

4 Edney SILVESTRE. Se eu fechar meus olhos agora. Rio de Janeiro: Record, 2009, p.250.

5 Manoela SAWITZKI. “Jardin des Tuileries”. Em: Escritores escritos. Org. de Victoria Saramago. Rio de Janeiro: Flaneur, 2010, p.17

6 Patrick SÜSKIND. O perfume – história de um assassino. Tradução de Flávio R- Kothe. Rio de Janeiro: Record, 1985, pg.112.

7 Joseph CONRAD. A linha de sombra. Tradução de Guilherme da Silva Braga. Rio de Janeiro: Revan, 2005, p.152.

8 Henry David THOREAU. Walden, ou a vida nos bosques. Tradução de Denise Bottman. Rio Grande do Sul: L&PM, 2010, pg.248.

9 Ismar TIRELLI NETO. “Yann(s)”. Em: Escritores escritos. Org. de Victoria Saramago. Rio de Janeiro: Flaneur, 2010, pg.31

10 Truman CAPOTE. Escritores em ação – As famosas entrevistas à Paris Review. Tradução de Brenno Silveira. Coordenação de Malcolm Cowley. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1968, p.113.

11 João DO RIO. A alma encantadora das ruas. Arquivo do Domínio Público em pdf. Página 1.

12 João DO RIO. Idem. Página 2.

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MixLit 43: Ameaça na ilha

No fim de maio1 tinha tomado a firme decisão de observar tudo de maneira absolutamente precisa, para não ser surpreendido num descaminho, seja por trás ou de cima para baixo2, em torno dos penhascos de mármore. Ao norte, observávamos os pântanos e terras escuras, de onde partia a ameaça de3 um gênero de criaturas de nascimento prematuro que – se pudermos falar de forma tão paradoxal – saíram de seus ambientes com um excesso crescente de inacabamento animal4.

Florinda continua sem saber a verdade, porque hoje de manhã comentou que roubaram sua cafeteira elétrica; e continua achando que o ladrão entrou na casa dela para roubar5. Ainda não vieram me procurar. Talvez não venham esta noite6. Conheço bem a ilha: se vêm me procurar durante a noite, não temo nem um exército7, que o medo é mau conselheiro8.

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1 Adriana LISBOA. Azul-corvo. Rio de Janeiro: Rocco, 2010, p.120.

2 Franz KAFKA. O veredicto/Na colónia penal. Tradução de Modesto Carone. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.21.

3 Ernst JÜNGER. Nos penhascos de mármore. Tradução de Tércio Redondo. São Paulo: Cosac Naify, 2008, p.56.

4 Peter SLOTERDIJK. Regras para o parque humano. Tradução de José Óscar de Almeida Marques. São Paulo: Estação Liberdade, 2000, p.33.

5 Roberto GÓMEZ BOLAÑOS. Diário do Chaves. Tradução de Fabiana Camargo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2010, p.122.

6 Adolfo BIOY CASARES. A invenção de Morel. Tradução de Samuel Titan Jr. São Paulo: Cosac Naify, 2008, p.35.

7 Adolfo BIOY CASARES. Idem.

8 Lúcio Aneu SÊNECA. Cartas a Lucílio. Tradução de J.A. Segurado e Campos. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2009, 4ª edição, pg.43.

Imagem: “Pulp adventure”, de Jon HODGSON: http://jonhodgson.deviantart.com/

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