Archive for julho \26\UTC 2010

MixLit 22: Bea, eu e meu esporte favorito

Diziam sempre que eu não era confiável. Ele não é confiável. Ele tem problemas de personalidade e higiene. Ele anda de um jeito, sei lá, esquisito.(1) Sinto que me torno obscuro. Seguramente, seriam necessários alguns termos definitivos para que pudesse explicar-me, termos que, por serem científicos, não chegam a ser impróprios. Mas não os empregarei. Não imagines que eu os receie: não se deve ter medo das palavras desde o momento em que se tenha consentido com os atos.(2) Só gosto de ler. Meu único esporte. Não faço ginástica. Leão não faz ginástica, dizia San Tiago. Então leio. Assim mesmo, leio pouco, menos do que devia, do que queria. Sem método.(3) A partir do dia em que descobri a biblioteca de aluguel de Sylvia Beach, li todo o Turgueniev, tudo o que havia de Gogol em inglês, as traduções de Tolstói feitas por Constance Garnett e as traduções de Tchekhov publicadas na Inglaterra.  Em Toronto, muito antes de virmos para Paris, haviam-me dito que Katherine Mansfield era uma boa contista, talvez mesmo uma grande contista; o diabo é tentar lê-la depois de Tchekhov. É como comparar as histórias bem arrumadinhas de uma solteirona com os contos de um clínico que fosse também bom escritor e tivesse estilo simples e direto. Antes beber água do que tomar a cerveja choca de Masnfield. (4)

Bea e eu agora tomamos conta da livraria. Eu fiquei com as contas e os números. Bea faz as compras e atende aos clientes, que a preferem a mim. Não os culpo.(5)

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1. Don DELILLO. Cosmópolis. 2003. Tradução de Paulo Henriques Britto. Companhia das Letras. São Paulo. 2003, PP.59,60.

2. Marguerite YOURCENAR. Alexis ou O tratado do vão combate. 1929. Tradução de Martha Calderaro. Nova Fronteira. Rio de Janeiro. 1981, 2ª edição, p.31.

3. Otto LARA RESENDE. O príncipe e o sabiá. 1994. Companhia das Letras. São Paulo.  1994, p.298.

4. Ernest HEMINGWAY. Paris é uma festa. 1964. Tradução de Ênio Silveira. Bertrand Brasil. Rio de Janeiro. 2006, 8ª edição, p.151.

5. Carlos Ruiz ZAFÓN. A sombra do vento. 2001. Tradução de Marcia Ribas. Suma de Letras/Objetiva. Rio de Janeiro. 2007, p.396.

Imagem: George Fisherman, mosaico “Faces of flower avenue”, detalhe “reading man”, 1991: http://web.me.com/georgefishman/commissioned_projects/public_art/faces_of_flower_avenue/fishmanfacesdetail.html

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MixLit 21: Não desta vez

Os meninos do bairro iam nadar. Jogam-se na água suja da orla, misturada com petróleo e graxa dos barcos, e merda e urina da cidade. As águas servidas vão para o mar, mas de qualquer jeito lá vão os meninos e alguns adultos.(1)Uma chuva morna cai daquele pôr-do-sol eterno.

– A sensação é maravilhosa. Eu nunca senti uma chuva tão boa. Sinto vontade de bebê-la, de deitar-me nela.(2)

Marta afastou-se seduzida. Nunca vi um homem nu, ela confessou.(3) Achava que o clima ficaria tenso demais e que haveria uma certa ambigüidade no ar. Não saberia como se comportar.(4)

– Quero ir embora já… Quero ir embora…(5)

– É uma moleca tola. Só leva meu dinheiro, come feito frade e dorme o dia inteiro.(6)

O major tomou tudo aquilo como um escárnio que o gênio da vadiagem e do garotismo lhe fazia.

A comadre, apenas ouviu a declaração, tratou de retirar-se, e não pôde também deixar de achar graça no caso.(7)

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1. Pedro Juan GUTIÉRREZ. Trilogia suja de Havana. 1998. Tradução de José Rubens Siqueira. Companhia das Letras. São Paulo. 2001, parte: Sabor a mi; Casino Esperanza, p.283.

2. Libba BRAY. Belezas perigosas. 2003. Tradução de Léa Viveiros de Castro. Rocco. Rio de Janeiro.2008, Rocco  Jovens Leitores, p.230.

3. Nélida PIÑON. A casa da paixão. 1972. Nova Fronteira. Rio de Janeiro. 1982, 4ª edição, p.112.

4. Colm TÓIBÍN. A luz do farol. 1999. Tradução de Alexandre Hubner. Companhia das Letras. São Paulo. 2004, p.158.

5. Miguel Ángel ASTURIAS. O papa verde. 1952. Tradução de Glória Rodriguez. Brasiliense. São Paulo. 1973, p.239.

6. Ana MIRANDA. Boca do inferno. 1989. Companhia das Letras. São Paulo. 2007, Companhia de Bolso, p.242.

7. Manuel Antônio de ALMEIDA. Memórias de um sargento de milícias. 1852-1853. FTD. São Paulo. 1996, 3ª edição, p.136.

MixLit 20: À espera do futuro

Cedo, de madrugada, sem rumor, para não despertar o meu Jacinto, que, com as mãos cruzadas sobre o peito, dormia beatificamente na sua enxerga de granito – parti para Guiães.(1)

A princípio, haviam tentado manter tudo aquilo em segredo. Afinal de contas, não tinham certeza absoluta de que se tratasse de uma mensagem extraterrestre. Um anúncio prematuro ou equivocado seria um desastre em matéria de relações públicas. Pior do que isso – iria interferir na análise dos dados. Se a imprensa se envolvesse, a ciência certamente seria prejudicada.(2)

– Sou mais confiável do que pareço. Não falo nada sobre a agência, nunca. Sério mesmo. Mas não agüento um minuto se for torturado para fornecer informações.  Não suporto a dor.(3) Quem sabe eu ainda convenço eles, Barbuda?  Vem.

Saíram correndo. Maria também quis correr, mas não conseguiu se mexer: a garganta seca, o olho ardendo, o coração num toquetoque medonho.

Uma banda tocou forte. Corneta, tambor, prato estalando. E no meio da barulhada, a porta bateu. O quarto se acendeu todo. (4)

– Boa noite, cavalheiro, eu vos esperava há muito.(5)

Tirou do bolso uma buzina de automóvel, afixou-a na lapela, apertou-a com a exuberância de uma mulher espargindo perfume com um atomizador e disse:

– Ouçam a linguagem do futuro. As palavras desapareceram por completo e isto aqui é como os seres humanos irão conversar com os outros!(6)

Oh! Humanidade! Oh! Estupidez!(7)

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1. Eça DE QUEIROZ. A cidade e as serras. 1901. Villa Rica. Belo Horizonte. 1994, pg.119.

2. Carl SAGAN. Contato. 1985. Tradução de Donaldson M. Garschagen. Companhia das Letras. São Paulo. 2008, pg.82.

3. P.D. JAMES. O crânio sob a pele. 1982. Tradução de Celso Nogueira. Companhia das Letras. São Paulo. 2010, pg.35.

4. Lygia BOJUNGA. Corda bamba. 1979. Agir. Rio de Janeiro. 1996, 18ª edição, pg.113.

5. Álvares DE AZEVEDO. Noite na taverna. 1940-1952. Francisco Alves Editora. Rio de Janeiro. 1988, 3ª edição, pg.128.

6. Anaïs NIN. Uma espiã na casa do amor. 1959. Tradução de Reinaldo Guarany. L&PM. Rio Grande do Sul. 2006, pg.128.

7. Friedrich NIETZSCHE. Além do bem e do mal. 1866. Tradução de Márcio Pugliesi.Hemus Editora. São Paulo. 1981, pg.55.

MixLit 19: Limitações

E agora ali estávamos, naquele espaço limpo e desinfectado de um quarto de hospital, olhando-nos como se nos estranhássemos.(1) As duas freiras não tinham se acomodado em suas respectivas poltronas; suas atitudes expressavam uma reserva definitiva e os rostos mostravam o verniz da prudência. Eram mulheres de aparência comum, robustas, de feições amenas, com uma certa modéstia quase profissional à qual o aspecto impessoal do linho engomado e da sarja que as envolvia, como se estivessem pregadas em moldura, favorecia.(2)

– Vossa majestade não pensa que o cheiro deste cadáver já está incomodando de tão forte?(3)

Algumas palavras me ocorreram: decúbito, navalhada, sobrevida. Ou: entre milhares de desacordos e calamidades, tive a certeza de que havia me enterrado vivo e, desta vez, levado alguém que não merecia comigo.(4)

– É preciso, portanto, que a ciência que procuramos, além desta primeira vantagem, ofereça outra mais.

– Qual?

– A de não ser inútil a homens de guerra.(5)

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1. Miguel SOUSA TAVARES. No teu deserto. 2009. Companhia das Letras. São Paulo. 2009, pg.105.

2. Henry JAMES. Retrato de uma senhora. 1880. Tradução de Gilda Stuart. Companhia das Letras. São Paulo. 2007, edição de bolso, pg.272.

3. Alexandre DUMAS. A rainha Margot. 1845. Tradução e adaptação de Fernando Nuno. 2001. Companhia das Letras. São Paulo. 2001, pg.170.

4. Marcelo MIRISOLA. Bangalô. 2003. Editora 34. São Paulo. 2003, pg. 50.

5. PLATÃO. A República. Século IV A.C.. Tradução de J. Guinsburg. Difusão Europeia do Livro. São Paulo.  1973, Volume 2, 2a edição, Clássicos Garnier, pg. 115.

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