Mixlit 4: Os deslizes

Após a discussão de toda noite, ele demora-se no banheiro. Ali no espelho xinga-se de rato piolhento, mergulha o rosto na água fria. Mais calmo, volta para o quarto: sua alma coágulo de sangue negro. De nada serviu a espera.(1)

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Ao levantar da cama, a primeira ideia que me acudiu foi aquela que escrevi ontem, à meia-noite: “Esta moça (Fidélia) foge a alguma coisa, se não foge a si mesma.(2) O melhor que faço é me casar com ela. Depois posso moldar-lhe a alma como bem desejar. É um pedaço de cera em minhas mãos: darei a ela a forma que eu quiser. Durante minha ausência, quase a arrebataram de mim, devido à sua inocência exagerada. Mas, com tudo isso, ainda acho melhor que a mulher que escolhi erre por esse lado. Essa espécie de erro tem remédio bem fácil. Toda pessoa simples obedece a lições. E quando alguém a desvia do caminho do bem, duas palavras certas fazem com que retorne imediatamente. Mas uma mulher esperta é outro animal. Nossa sorte toda pende e depende apenas da sua vontade: nada a afastará daquilo a que se propôs, e tudo o que dissermos é orquestra pra surdos. Usa a inteligência para ridicularizar nossas lições, para transformar seus vícios em virtudes. E pra chegar a seus fins inomináveis encontra desvios capazes de iludir o mais habilidoso.(3) Se para outras mulheres a sedução é uma segunda natureza, uma rotina insignificante, para ela, de agora em diante, é o campo de uma investigação importante que deve ajudá-la a descobrir aquilo de que é capaz. Mas por ser tão importante, tão grave, sua sedução perdeu toda a leveza, é forçada, intencional, excessiva. O equilíbrio entre a promessa e ausência de garantia (em que reside precisamente o autêntico virtuosismo da sedução!) foi rompido. Está pronta demais…” (4)

…Até que chegava o momento em que, entre palavras de ódio, surgiam palavras doces. E essas palavras doces acabavam se transformando em beijos doces (desesperados), em toques doces (desesperados), em carinhos doces (desesperados). Então, fazíamos amor (doce, desesperado) como nunca antes. Devorávamo-nos como se tivéssemos acabado de nos conhecer, como se entre nós não houvesse rancores. Os corpos melados sobre a cama, o cheiro do sexo no quarto inteiro. Depois de muito tempo, decidíamos tomar um banho gelado, e era como se fôssemos duas crianças, como se nunca tivéssemos brigado, como se nunca tivéssemos terminado, como se sempre tivéssemos sido um do outro, como se fôssemos sempre um do outro(5) ao fim, assim que ela erga e vibre inquieta o seu turíbulo. E alto, longo, à turva; sobrelevada nave; a estrela-sino tange, enquanto, calmas; as espirais do incenso ascendem, nuvem sobre nuvem; rumo-ao-vazio, do venerável; resíduo de almas.(6)

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1. Dalton TREVISAN. Contos eróticos. 1984. Editora Record. Rio de Janeiro. 1999, 5ª edição, pg.41.

2. Machado DE ASSIS. Memorial de Aires. 1908. Klick Editora. Sem local, sem data, pg.11.

3. MOLIÉRE. Escola de mulheres. 1662 (1ª encenação). Tradução de Millôr Fernandes. Círculo do Livro. São Paulo. Sem data, pgs.58, 59.

4. Milan KUNDERA. A insustentável leveza do ser. 1984. Tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca. Companhia das Letras. São Paulo. 2007, 9ª reimpressão, pgs. 164, 165.

5.Tatiana SALEM LEVY. A chave de casa. 2007. Editora Record. Rio de Janeiro. pgs.91, 92.

6. James JOYCE. Pomas, um tostão cada. 1913-1916. 1927 (1ª publicação). Tradução de Alípio Correia de Franca Neto. Editora Iluminuras. São Paulo. 2001, poema: Noturno, pg.63.

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