Archive for the ‘Orhan PAMUK’ Category

MixLit 60: Os vivos

Na manhã seguinte, muito escura, batendo o vento e a chuva na casa,1 colocaram pílulas sobre a minha língua2. Penetrei num plano de existência onde3 viver a rotina é a melhor coisa do mundo. O final deste dia será igual ao final do dia de ontem e assim por diante4.

Passou um ano. Outro ano. Outro ano. Outro5.

Eu já não estava muito em meus eixos, recordo que6 passou a ser um esforço não fechar os olhos7 envelhecidos e afetados pela catarata8 contra o brilho do sol9.  Não me escutam, não me veem, não me entendem10. Tudo que faço é apenas vagar nesse espaço vazio. Já estou quase morto;11 quem vai sentir falta?12 Um conselho de amigo:13 Vou esperar por você aqui. Tenha cuidado14.


1 Macedonio FERNÁNDEZ. Museu do romance da Eterna. Tradução de Gênese Andrade. São Paulo: Cosac Naify, p.131.

2 Hafid AGGOUNE. Os amanhãs. Tradução de Maria Angela Villela. Rio de Janeiro: Rocco, 2005, p.77.

3 Vladimir NABOKOV. Lolita. Tradução de Jorio Dauster. Rio de Janeiro: O Globo; São Paulo: Folha de São Paulo, 2003, p.60.

4 Claudia NINA. Esquecer-te de mim. São Paulo: Babel, 2011, p.40.

5 Jonathan SAFRAN FOER. Extremamente alto e incrivelmente perto. Tradução de Daniel Galera. Rio de Janeiro: Rocco, 2005, p.196.

6 Juan RULFO. Pedro Páramo. Tradução de Eric Nepomuceno. Rio de Janeiro: Editora Record, Edições BestBolso, 2009, p.70.

7 J.M. COETZEE. Vida e época de Michael K. Tradução de José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p.83.

8 Imre KÉRTESZ. O fiasco. Tradução de Ildikó Suto. Editora Planeta. São Paulo, 2004, p.364.

9 J.M. COETZEE. Idem.

10 Nikolai GOGOL. Diário de um louco (precedido de O Nariz). Tradução de Roberto Gomes. Rio Grande do Sul: L&PM Pocket, 2007, pg.95.

11 Rafael SPERLING. Festa na usina nuclear. Rio de Janeiro: Oito e meio, 2011, p.34.

12 Sérgio VAZ. Literatura, pão e poesia. São Paulo: Global, 2011, p.105.

13 Millôr FERNANDES. Trinta anos de mim mesmo. São Paulo: Círculo do Livro, 1974, p.166.

14 Orhan PAMUK. Neve. Tradução de Luciano Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p.419.

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MixLit 56: Em casa

Quando Anton acordou, o cheiro do almoço já se espalhava pela casa inteira. Farejou: tinha torta no forno!1 Levantou-se, calçou as sandálias de couro e se arrastou até a cozinha2.  Sobre a mesa jaziam os restos do café da manhã, do qual não parecia ter sido consumida muita coisa3.  O pai estava sentado 4 , o copo de vinho à mão5.

– Dê só uma olhada – ele pediu, com6 a expressão fatigada e triste de um ator que já está farto de representar7.

Depois de8 Anton9 atacar um tomate cereja que ficava continuamente deslizando do seu garfo10, o velho11 murmurou:

– Cão, cão, falta à sua palavra12. Tens de mendigar o teu pão13. Conheço um lugar melhor para fazer isso14.

Por um momento, Anton ficou indeciso15. Repuxou o canto da boca e sorriu16.

– Eu… vou dormir. – disse17.

 – Que palhaçada é esta?18 – falou19 o pai20 –  Já não há erros; você cometeu todos eles21 – e não pôde ver como Anton tinha ficado vermelho22.


1 Angela SOMMER-BODENBURG. O pequeno vampiro. Tradução de João Azenha Jr. São Paulo: Martins Fontes, 1993, p.44.

2 Bernardo AJZENBERG. Olhos secos. Rio de Janeiro: Rocco, 2009, p.122.

3 Franz KAFKA. O veredicto/Na colônia penal. Tradução de Modesto Carone. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.15.

4 Franz KAFKA. Idem.

5 Cristovão TEZZA. Um erro emocional. Rio de Janeiro: Record, 2010, p.89.

6 Orhan PAMUK. A maleta do meu pai. Tradução de Sérgio Flaksman. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p.9.

7 Lygia FAGUNDES TELLES. Apenas um saxofone. Em: Liberdade até agora. Organização de Márcio Debellian e Eduardo Coelho. Rio de Janeiro: Móbile, 2011, p.149.

8 Azar NAFISI. Lendo Lolita em Teerã. Tradução de Fernando Esteves. Rio de Janeiro: Record/BestBolso, 2009, p.196.

9 Angela SOMMER-BODENBURG. Idem.

10 Azar NAFISI. Idem.

11 Hermann BROCK. Pasenow ou O Romantismo. Em: Os sonâmbulos. Tradução de Wilson Hilário Borges. São Paulo: Germinal, 2003, p.105.

12 Hermann BROCK. Idem.

13 Daniel DEFOE. Robinson Crusoé. Adaptação e revisão de Terra de Sena. Rio de Janeiro: Minerva, 1954, p.14

14 Adriana LUNARDI. A vendedora de fósforos. Rio de Janeiro: Rocco, 2011, p.75.

15 Angela SOMMER-BODENBURG. Idem, p.37.

16 Angela SOMMER-BODENBURG. Idem, p.131.

17 Angela SOMMER-BODENBURG. Idem, p.132.

18 Marcelino FREIRE. Vovô valério vai voar. Em: Liberdade até agora. Organização de Márcio Debellian e Eduardo Coelho. Rio de Janeiro: Móbile, 2011, p.239.

19 Marcelino FREIRE. Idem, p.232.

20 Franz KAFKA. Idem.

21 Dorothy PARKER. Meia-idade, triste idade. Em: Serrote número 7. Rio de Janeiro: Instituto Moreira Salles, 2011, p.205.

22 Angela SOMMER-BODENBURG. Idem, p.1.

MixLit 48: Parar antes de ter que parar

À noite, durante o jantar, após eu1 fazer a barba2, meu pai3 veio se sentar no sofá, ao meu lado. Queria me dizer alguma coisa. Eu o adivinhava desde o começo do jantar, e já sabia do que se tratava.

– Como bebi! – disse ele – Isso é pior do que qualquer veneno. Mas esta é a última vez. Palavra! A última vez! Tenho força de vontade…4

Coçava a cabeça com a caneta como se isto pudesse devolver-lhe a consciência interrompida pelo5 seu conhaque francês6.

– Chega um momento em que não se pode mais continuar7 – continuava falando8 – Livre! Enfim livre!9

Levantou-se e10 avançou dois passos, os braços estirados como para abraçar alguém, sem ver nada. Infelizmente escorregou no soalho muito lustroso e parou. Veio-lhe então a ideia de que escorregar era inconveniente. Não devia escorregar11.

– Me desculpa. Estou meio alegre. Esta noite nunca mais12.

Não ouço outra coisa desde que existo13. Que tragédia, meu pai14.


1 Vladimir NABOKOV. Lolita. Tradução de Jorio Dauster. Rio de Janeiro: O Globo; São Paulo: Folha de São Paulo, 2003, p.49.

2 Georg BÜCHNER. Woyzeck. 1835. Tradução de Tércio Redondo. Hedra. São Paulo. 2003, p.63.

3 Orhan PAMUK. Neve. 2002. Tradução de Luciano Machado. Companhia das Letras. São Paulo. 8ª edição, 2007, p.137.

4 Anton TCHEKHOV. Estranha confissão. 1945. Tradução do castelhano por Bernardo Ajzenberg. Editora Planeta. São Paulo. 2005, pg.63.

5Mariel REIS. A caderneta. Em: Revista Ficções 18. 7Letras. Rio de Janeiro. 2009, p.62.

6Autran DOURADO. Os mínimos carapinas do nada. Em: Os cem melhores contos brasileiros do século. Org. de Italo Moriconi. Objetiva. Rio de Janeiro. 2000, p.514.

7 e 10 Milan KUNDERA. O livro do riso e do esquecimento. Tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1987, p.47, 55.

8 Jorge Luis BORGES. Ficções. Tradução de Davi Arrigucci Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p.105.

9, 12 e 14Dalton TREVISAN. 33 contos escolhidos.  Rio de Janeiro: Record, 2005, p.92, 93 e 96.

11 Graciliano RAMOS. Insônia.  Rio de Janeiro: Record. 2001, pg.100.

13Thomas BERNHARD. Montaigne – Uma narrativa. Em: Revista Serrote. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2011, p.232.


Mixlit 2: Uma noite

Em pânico, procurou pôr fim àquele momento feliz: assim esperava poder diminuir a infelicidade que estava certo de que iria se abater sobre ele depois. A maneira mais segura de se acalmar, pensou, era simplesmente aceitar o inevitável:(1) Veja os braços, por exemplo. O menino até anda meio recurvado. E as mãos são grosseiras, porém isso já tem causa muito diferente, a culpa é toda dos esportes, futebol, principalmente natação e remo.(2) Parecia uma estátua de pedra trancada na carlinga. O céu escurecia, a noite não demoraria a cobri-lo por inteiro, as nuvens já não estavam rosadas mas sim escuras, com filamentos vermelhos.(3) E no meio de tantas ruas a serem trotadas, de tantos cães maiores, de tantos esgotos secos – lá estava uma menina, como se fosse carne de sua ruiva carne.(4) Ela também tinha lágrimas na voz, estava com o aspecto um pouco baqueado e respirava com dificuldade; apesar disso ainda encontrou força para dizer:(5)

– Eu vi no campo doenças que pensei nunca chegaria a ver, doenças que só se encontram nos tratados médicos. Por exemplo, a Noma, uma gangrena da boca que só aparece nas pessoas totalmente desnutridas. Formavam-se buracos nas faces e através deles podíamos enxergar os dentes. Ou então o Pênfigo, um tipo de Fogo Selvagem, uma doença extremamente rara, em que a pele se desfaz em pústulas e em poucos dias o doente morre.(6) Depois veio aquela tontura, aquela confusão, o ir-se diluindo como em água espessa, e o corrupiar das luzes; a luz inteira do dia que se desmanchava fazendo-se cacos; e aquele sabor de sangue na língua. O Eu pecador ouvia-se mais forte, repetido, e depois terminava: “pelos séculos dos séculos, amém”; “pelos séculos dos séculos, amém”; “pelos séculos…”(7)

Era triste. Caiu um toró. Chovia. Ficava mais triste.(8) De repente, não lhe restava nenhuma atitude, exceto a de que o dia, pelo menos, estava completo. A noite existiria – com princípio, meio e fim.(9)

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1. Orhan PAMUK. Neve. 2002. Tradução de Luciano Machado. Companhia das Letras. São Paulo. 8ª edição, 2007, p.109.

2. Mário DE ANDRADE. Amar, verbo intransitivo. 1927. Idílio, Villa Rica Editoras Reunidas. Belo Horizonte – Rio de Janeiro. 16ª edição, 1944, p.94.

3. Roberto BOLAÑO. Estrela distante. 1996. Tradução de Bernardo Ajzenberg. Companhia das Letras. São Paulo. 2009, p.35

4. Clarice LISPECTOR. Felicidade clandestina. 1971. Editora Rocco. Rio de Janeiro. 1998, conto: Tentação, p.47

5. Franz KAFKA. O castelo. 1922. Tradução de Modesto Carone. Companhia das Letras. São Paulo. Edição de bolso, 2008, p.59.

6. Peter WEISS. O interrogatório. 1965. Tradução de Teresa Linhares e Carlos de Queiroz Telles. Editorial Grijalbo. São Paulo. 1970, p.46.

7. Juan RULFO. Pedro Páramo. 1955. Tradução de Eric Nepomuceno. Editora Record. Rio de Janeiro. Edições BestBolso, p.87.

8. Rodrigo DE SOUZA LEÃO. Todos os cachorros são azuis. 2008. Editora 7letras. Rio de Janeiro. p.27.

9. F. Scott FITZGERALD. O último magnata. 1941. Tradução de Roberto Pontual. Editora Record. Rio de Janeiro. Sem data, p.121.

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