Archive for the ‘Fernando PESSOA’ Category

MixLit 59: A criança está para chegar

Tomando nosso café com torradas1, Maria olhava-me e ria2 sugerindo nomes (para meninos)3. Eu me levantei, pedi desculpas bestamente e4 saí à rua5. Durante a caminhada6, senti que um medo irracional e perturbador começou a me percorrer7.

Um filho?8 Meu filho9. O filho é a imagem mais próxima da ideia de destino, daquilo de que você não escapa. Ou daquilo de que você não pode escapar? Por quê? Por que eu não posso tomar outro rumo?10 Não conquistei nada11. Um derrotado na vida12. Quem não pode cumprir os deveres de pai não tem direito de tornar-se pai13.

– E se eu for um homem mau? – falei, e claro, me senti imediatamente desastrado14 – Não, não pode ser assim – disse15 – O que é que me tortura?16

Andei devagar para ganhar tempo17. Maria18 me aguardava andando pelo gramado, veio me abrir o portão19 e caminhou descalça até onde eu estava20. Tinha as faces vermelhas e molhadas de lágrimas21. Passou a mão na minha cabeça22 sem olhar para mim23 e sussurrou: “Na verdade, estou com um pouco de medo.”24

Cheguei a abrir a boca, e o que eu ia dizer envelheceu de imediato25. Então nos beijamos26.

Quando senti que a porta às minhas costas se fechava, não soube se começava a rir ou se chorava. Respirei aliviado27. Eu não queria mais lutar28. O que tem que ser será bom29.


1 Mario VARGAS LLOSA. Travessuras da menina má. Tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht. Rio de Janeiro: Objetiva, 2006, p.185.

2 e 18 Albert CAMUS. Estado de sítio/O estrangeiro. Tradução de Antonio Quadros. São Paulo: Abril Cultural, 1979, p.211.

3 Lionel SHRIVER. Precisamos falar sobre Kevin. Tradução de Beth Viera e Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2007, p.70.

4 Bernardo AJZENBERG. Olhos secos. Rio de Janeiro: Rocco, 2009, p.29.

5 e 12 Enrique VILA-MATAS. Doutor Pasavento. Tradução de José Geraldo Couto. São Paulo: Cosac Naify, 2009, p.189.

6 Herman HESSE. Sidarta. Tradução de Herbert Caro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1973, p.42.

7 Raymond CARVER. Iniciantes. Tradução de Rubens Figueiredo. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.83.

8 e 23 Milton HATOUM. Cinzas do Norte. São Paulo: Companhia das letras (de bolso), 2010, p.45 e p.13.

9 e 13 Jean-Jacques ROUSSEAU. Emílio ou Da educação. Tradução de Roberto Leal Ferreira. Rio de Janeiro: Martins Fontes, 2004, p.297 e p.27.

10 Cristovão TEZZA. O filho eterno. Rio de Janeiro: Record, 2010, p.41.

11 e 26 Roberto BOLAÑO. Estrela distante. Tradução de Bernardo Ajzenberg. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.142 e p.139.

14 João Gilberto NOLL. Harmada. São Paulo: Francis, 2003, p.96.

15 Leon TOLSTÓI. A morte de Ivan Ilitch. Tradução de Vera Karam. Rio Grande do Sul: L&PM, 2007, p.56.

16 Fernando PESSOA. Ficções do interlúdio. Lisboa: Assírio & Alvim, 2007, p.21.

17 Witold GOMBROWICZ. Cosmos. Tradução de Tomasz Barcinski e Carlos Alexandre Sá. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p.79.

 19 Raduan NASSAR. Um copo de cólera. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p.9.

20 Philip ROTH. Adeus Columbus. Tradução de Paulo Henriques Britto. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p.81.

21 Fernando SABINO. Duas novelas de amor. São Paulo: Ática, 2002, p.35.

22 Jorge AMADO. Capitães de areia. Rio de Janeiro: Record, 1996, p.54. 

23 Ian MCEWAN. Na praia. Tradução de Bernardo Carvalho. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p.68.

25 Adriana LUNARDI. A vendedora de fósforos. Rio de Janeiro: Rocco, 2011, p.80.

26 Marçal AQUINO. Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.228.

28 Clarice LISPECTOR. A paixão segundo G.H. Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p.88.

29 Walt WHITMAN. Folhas de relva. Tradução de Rodrigo Garcia Lopes. São Paulo: Iluminuras, 2008, p.153.

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MixLit 41: A postura do poeta Miguel

“Não viajo para países em guerra”, me disse o Miguel quando eu perguntei se ele tinha vontade de ir1.

Ele2 mantém cuidadosamente seu diário, guarda sua correspondência, redige as minutas de todas as reuniões em que discutem a situação e se indagam como continuar. Ele lhes explica3: as palavras sempre foram inimigas das coisas e há desde sempre uma luta entre a fala e os ídolos4.

Aprendi há muito5: não agir dá-nos tudo. Imaginar é tudo, desde que não tenda para agir6.  É sempre mais tentador se empenhar em algo familiar7. O poeta é o gênio da lembrança. Não pode fazer senão recordar, não pode fazer mais do que admirar o que foi realizado pelo herói8.

Quanto a mim, apetecer-me-ia9 o gosto do sangue10.

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1. Os sete NOVOS. Amoramérica. Rio de Janeiro: 7 Letras. 2008, p.63.

2,3. Milan KUNDERA. O livro do riso e do esquecimento. Tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1987, p.10.

4. Valère NOVARINA. Diante da palavra. Tradução de Ângela Leite Lopes. Rio de Janeiro: 7 Letras. 2009, p.15.

5. José Eduardo AGUALUSA. Milagrário pessoal. Rio de Janeiro: Língua Geral. 2010, p. 21.

6. Fernando PESSOA. Livro do desassossego. São Paulo: Companhia das Letras. 2009, p.179.

7. Waly SALOMÃO. Babilaques. Trabalho: “Construtivista tabaréu”, 1977. Rio de Janeiro: Contracapa. 2007, pg.41

8. Soren KIERKEGAARD. Temor e Tremor. Tradução de Torrieri Guimarães. Rio de Janeiro: Ediouro. Sem data, p.35

9. Walter CAMPOS DE CARVALHO. A lua vem da Ásia. Escrito em 1956, edição eletrônica em pdf disponível na internet, p.71.

10. André MALRAUX. A condição humana. Tradução de Jorge de Sena. São Paulo: Abril. 1972, p.41.

MixLit 36: Piada no exílio

Aquilo tinha de ser uma piada, ele carregou os dois canos. Era um homem com senso de humor. Um gozador. Não se podia confiar em tal homem, um curinga no baralho1.

Estirado na areia, cochilo. É uma tarde de sol. Outra vez, as aves, que dançam sobre minha cabeça2 lentamente. A claridade da luz brinca num matiz de cinza, verde e marrom3.

Por que estamos aqui? Sei lá! Culpa dele4, meu tio comunista, exilado no mato. “É a revolução” – dizia mamãe5.

Passaram-se dias?

Anos?6

Cheguei até a sonhar essa cena, e nossa família me pareceu como a pequena corte do rei Jaime II, em exílio na costa de Haia7.

Ainda não me dei um tiro, como fez meu tio8. Uma das razões para isso é que sou preguiçoso demais – ou orgulhoso demais – para fazê-lo, a despeito de qualquer noção de “segurança”9. No entanto10, tenho curiosidade11. A ideia do suicídio é um poderoso consolo: ela ajuda a passar mais de uma noite ruim12.

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1 Joyce Carol OATES. Descansa em paz. Tradução de Eliza Nazarian. Leya. São Paulo. 2010, p.193.

2 José CASTELLO. Ribamar. Bertrand Brasil. Rio de Janeiro. 2010, p.90.

3 Walt WHITMAN. Folhas de Relva. 1855. Tradução de Rodrigo Garcia Lopes. Edição bilingue. Iluminuras. São Paulo. 2008, p.55.

4 Felipe PENA. O marido perfeito mora ao lado. Record. Rio de Janeiro. 2010, p.13.

5 Joca Reiners TERRON. Curva de rio sujo. Planeta. São Paulo. 2003, p.15.

6 Anne RICE. Violino. 1997. Tradução de Mário Molina. Rocco. Rio de Janeiro. 1999, p.203.

7 W.G. SEBALD. Os anéis de Saturno. 1995. Tradução de José Marcos Macedo. Companhia das Letras. São Paulo. 2010, p.57.

8 H.P. LOVECRAFT. A sombra de Innsmouth. 1931. Tradução de Guilherme da Silva Braga. Hedra. São Paulo. 2010, p.119.

9 Woody ALLEN. Em: Grandes diretores de cinema – entrevistas de Laurent Tirard. Tradução de Marcelo Jacques de Moraes. Nova Fronteira. Rio de Janeiro. 2006, p.86.

10 Deepak CHOPRA. Corpo sem idade, mente sem fronteiras – a alternativa quântica para o envelhecimento. 1993. Tradução de Haroldo Netto. Rocco. Rio de Janeiro. 1994, p.18.

11 Fernando PESSOA. Trecho de uma fala sua, reproduzido no site “Pensador”: http://www.pensador.info/curiosidade/2/

12 Friedrich NIETZSCHE. Além do Bem e do Mal. 1886. Tradução de Antônio Carlos Braga. Escala. São Paulo. 2007, p.91.

MixLit 11: Sim, me queixo

Não seguro a barra dessa solidão espessa sem um copo na mão. E um charo bem enrolado. Tem razão o Pascal: o homem não toma jeito enquanto não aprende a ficar quieto no seu quarto. Ele diz também que a calma entedia o cidadão e o obriga a sair e “mendigar o tumulto”. Jogo mais uísque nas pedras.(1)

Digo-lhe francamente que começo a ter medo de não conseguir escapar disto, pois minha constituição seria bastante boa se não tivesse que jejuar tanto tempo, mas precisei jejuar ou então trabalhar menos, e sempre que possível escolhi a primeira solução, até o momento em que me vi excessivamente fraco. Como continuar a resistir?(2) A vida seria impossível se tomássemos consciência dela. Felizmente não o fazemos. Vivemos com a mesma inconsciência que os animais, do mesmo modo fútil e inútil, e se antecipamos a morte, que é de supor, sem que seja certo, que eles não antecipam, antecipamo-la através de tantos esquecimentos, de tantas distrações e desvios, que mal podemos dizer que pensamos nela.(3)

Eu odeio ler jornal. Tem muita realidade e ela não me agrada, então pra que eu vou ficar fazendo um troço desagradável só pra mostrar que sei das coisas. Não fico fazendo tipo e não sei e não sei e pronto. To me danando pra tudo isso.(4) Um homem capaz de compreender Buda, um homem que tem noção dos céus e dos abismos da natureza humana, não deveria viver num meio em que domina o senso comum, a democracia e a educação burguesa.(5) Em resumo, eu nunca encontrei um matemático puro em que pudesse confiar fora de suas raízes e de suas equações, ou algum que sustentasse clandestinamente como ponto de fé que x ao quadrado + px era absoluta e incondicionalmente igual a q, e, tendo-o feito entender o que você quer dizer, saia fora de seu alcance tão rápido quanto for conveniente, porque, acima de qualquer dúvida, ele se empenhará em derrubá-lo.(6)

Não posso atinar os meios pelos quais Deus ou a natureza moldam a personalidade, mas às vezes me pergunto por que não me deram uma vida mais fácil. Poderia existir uma pílula de personalidade, algo como um elixir, à disposição de qualquer um, que ensinasse as mais duras lições da vida sem que a pessoa tivesse que experimentá-las… mas não.(7)

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1. Reinaldo MORAES. Tanto faz. 1980. Editora Brasiliense. São Paulo. 1982, cantadas literárias, 2ª edição, pg.42.

2. Vincent VAN GOGH. Cartas a Théo. 1879-1890. Tradução de Pierre Ruprechet. Editora L&PM. Rio Grande do Sul. 1997, pg.43.

3. Fernando PESSOA. Livro do desassossego. 1913-1934. Companhia das Letras. São Paulo. 2009, edição de bolso, 3ª reimpressão, pg.372.

4. Ana Paula MAIA. O habitante das falhas subterrâneas. 2003. Editora 7letras. Rio de Janeiro. 2003, Coleção Rocinante, pg.141.

5. Herman HESSE. O lobo da estepe. 1955. Tradução de Ivo Barroso. Editora Record. Rio de Janeiro. Sem data, 15ª edição, pg.70.

6. Edgar Allan POE. Os assassinatos na Rua Morgue/A carta roubada. 1844. Tradução de Erline T.V. dos Santos. Editora Paz e Terra. 1996, 2ª edição, pgs.84, 85.

7. Arnaldo BAPTISTA. Rebelde entre os rebeldes. 1980 e algo. Editora Rocco. Rio de Janeiro. 2007, pg.19.

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