Archive for the ‘James JOYCE’ Category

MixLit 63: Os noivos

Naquela mesma noite, Emilia mentiu pela primeira vez para Julio, e a mentira foi1: não sou virgem.2

Ele não sabia o que dizer. Filho único, internato só de meninos – não sabia como falar com uma mulher quando as coisas davam errado.3 A verdade não se comunica4, cada um que entra imagina ser o primeiro a entrar.5

Levantou o rosto, apertou os olhos, estremeceu. A sua face doía. E quando pensava em levantar-se, logo desistia.6

Um estado de contemplação associado a uma respiração forte começou a acalmá-lo e, enquanto os ombros baixavam em verdadeiro relaxamento, lhe veio a ideia7: Largar o cobertor, a cama, o medo, o terço, o quarto, largar toda simbologia e religião; largar o espírito, largar a alma, abrir a porta principal e sair.8

 Emilia9 permaneceu deitada com o corpo tensionado10 em silêncio, o silêncio mais longo que já houvera entre eles.11


//


//


1 Alejandro ZAMBRA. Bonsai. Tradução de Josely Vianna Baptista. São Paulo: Cosac Naify, 2012, p.21.

2 Nicolas BEHR. Poesia marginal – Poeta marginal? Eu, hein? No site do autor: http://www.nicolasbehr.com.br/pagpoesiamarg.htm

3 Ian MCEWAN. Serena. Tradução de Caetano Galindo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p.79.

4 Elaine PAUVOLID. O silêncio como contorno da mão. Rio de Janeiro: Multifoco, 2011, p.61.

James JOYCE. Ulysses. Tradução de Caetano Galindo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p.1029.

6 Nilton RESENDE. Diabolô. Maceió: Editora da Universidade de Alagoas, 2011, p.55

7 Leandro JARDIM. Rubores. Rio de Janeiro: Oito e meio, 2012, p.65.

8 Antônio CÍCERO. A cidade e os livros. Rio de Janeiro: Record, 2002, p.8 na amostra distribuída durante a Flip em Paraty, 2012.

9  Alejandro ZAMBRA, idem.

10 Jennifer EGANA visita cruel do tempo. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2011, p.16 na amostra distribuída durante a Flip em Paraty, 2012.

11 Jennifer EGAN, idem.

MixLit 32: O que lhe passa?

– Desconfio que, nesses últimos meses, ele nunca procurou emprego. Dá pra fazer isso, vestido de sunga e camiseta?1

– Esses bichos aí – declarou Gridoux -, a gente nunca sabe o quê que eles têm na cabeça2.

Macedonio3, aborrecido consigo mesmo, esforçou-se por esconder o rosto dos olhares deles, fingindo contemplar, virado para um lado, o movimento das águas sem profundidade debaixo da ponte4.

– O que é que você anda fazendo esses dias?5 Com o quê que você sonha? – perguntou Gridoux6.

– Estou tão melancólico, sou muito fantasioso. Acabo sempre por chorar, só de ver meu casaco pendurado na parede. É lá que ele fica.

– Hum, inchado, obeso, pescoço volumoso, constituição apoplética7. Já está ficando mais amolecido. Também dever ser de ter pensado muito8. Aconteceu-lhe alguma coisa?

– Sim9. – tentou gritar.

Começou a chorar de mansinho10.

– Fiquei impressionado com a futilidade das esperanças e ambições que acossam, incansavelmente, a maioria dos homens durante toda a sua vida11. – diria Macedonio12.

Teria conseguido13.

____________________

1 Ana Cristina MELO. Caixa de desejos. 2010. Usina de Letras. Brasília/Rio de Janeiro. 2010, p.40.

2,6 Raymond QUENEAU. Zazie no metrô. 1959. Tradução de Paulo Werneck. CosacNaify. São Paulo. 2009, p.130/p.133.

3,12 Ricardo PIGLIA. Formas breves. 2000. Tradução de José Marcos Mariani de Macedo. Companhia das Letras. São Paulo. 2004, p.30/p.25.

4 James JOYCE. Retrato do artista quando jovem. 1916. Tradução de José Geraldo Vieira. Ediouro e Publifolha. Rio de Janeiro e São Paulo. 1998, p.174.

5 Ian MCEWAN. O jardim de cimento. 1878. Tradução de Jorio Dauster. Companhia de bolso. São Paulo. 2009, p.92.

7 Georg BÜCHNER. Woyzeck. 1835. Tradução de Tércio Redondo. Hedra. São Paulo. 2003, p.61.

8 João GUIMARÃES ROSA. Sagarana. 1937. Nova Fronteira. Rio de Janeiro. 2001, p.168

9 André MALRAUX. A condição humana. 1933. Tradução de Jorge de Sena. Abril. São Paulo, 1972, p.41.

10 Mauro SIQUEIRA. Conto: Lullaby. Em: Revista Ficções 18. 7Letras. Rio de Janeiro. 2009, p.40.

11 Albert EINSTEIN. O pensamento vivo de. Tradução de José Geraldo Simões Jr. Ediouro. Rio de Janeiro. 1986, p.81.

13 Marguerite DURAS. O homem sentado no corredor/A doença da morte. 1980/1983. Tradução de Vadim Nikitin. Cosac Naify. São Paulo. P.18

Imagem: hardyc: http://www.flickr.com/people/hardyc/

Mixlit 4: Os deslizes

Após a discussão de toda noite, ele demora-se no banheiro. Ali no espelho xinga-se de rato piolhento, mergulha o rosto na água fria. Mais calmo, volta para o quarto: sua alma coágulo de sangue negro. De nada serviu a espera.(1)

_ _ _ _

Ao levantar da cama, a primeira ideia que me acudiu foi aquela que escrevi ontem, à meia-noite: “Esta moça (Fidélia) foge a alguma coisa, se não foge a si mesma.(2) O melhor que faço é me casar com ela. Depois posso moldar-lhe a alma como bem desejar. É um pedaço de cera em minhas mãos: darei a ela a forma que eu quiser. Durante minha ausência, quase a arrebataram de mim, devido à sua inocência exagerada. Mas, com tudo isso, ainda acho melhor que a mulher que escolhi erre por esse lado. Essa espécie de erro tem remédio bem fácil. Toda pessoa simples obedece a lições. E quando alguém a desvia do caminho do bem, duas palavras certas fazem com que retorne imediatamente. Mas uma mulher esperta é outro animal. Nossa sorte toda pende e depende apenas da sua vontade: nada a afastará daquilo a que se propôs, e tudo o que dissermos é orquestra pra surdos. Usa a inteligência para ridicularizar nossas lições, para transformar seus vícios em virtudes. E pra chegar a seus fins inomináveis encontra desvios capazes de iludir o mais habilidoso.(3) Se para outras mulheres a sedução é uma segunda natureza, uma rotina insignificante, para ela, de agora em diante, é o campo de uma investigação importante que deve ajudá-la a descobrir aquilo de que é capaz. Mas por ser tão importante, tão grave, sua sedução perdeu toda a leveza, é forçada, intencional, excessiva. O equilíbrio entre a promessa e ausência de garantia (em que reside precisamente o autêntico virtuosismo da sedução!) foi rompido. Está pronta demais…” (4)

…Até que chegava o momento em que, entre palavras de ódio, surgiam palavras doces. E essas palavras doces acabavam se transformando em beijos doces (desesperados), em toques doces (desesperados), em carinhos doces (desesperados). Então, fazíamos amor (doce, desesperado) como nunca antes. Devorávamo-nos como se tivéssemos acabado de nos conhecer, como se entre nós não houvesse rancores. Os corpos melados sobre a cama, o cheiro do sexo no quarto inteiro. Depois de muito tempo, decidíamos tomar um banho gelado, e era como se fôssemos duas crianças, como se nunca tivéssemos brigado, como se nunca tivéssemos terminado, como se sempre tivéssemos sido um do outro, como se fôssemos sempre um do outro(5) ao fim, assim que ela erga e vibre inquieta o seu turíbulo. E alto, longo, à turva; sobrelevada nave; a estrela-sino tange, enquanto, calmas; as espirais do incenso ascendem, nuvem sobre nuvem; rumo-ao-vazio, do venerável; resíduo de almas.(6)

____________________

1. Dalton TREVISAN. Contos eróticos. 1984. Editora Record. Rio de Janeiro. 1999, 5ª edição, pg.41.

2. Machado DE ASSIS. Memorial de Aires. 1908. Klick Editora. Sem local, sem data, pg.11.

3. MOLIÉRE. Escola de mulheres. 1662 (1ª encenação). Tradução de Millôr Fernandes. Círculo do Livro. São Paulo. Sem data, pgs.58, 59.

4. Milan KUNDERA. A insustentável leveza do ser. 1984. Tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca. Companhia das Letras. São Paulo. 2007, 9ª reimpressão, pgs. 164, 165.

5.Tatiana SALEM LEVY. A chave de casa. 2007. Editora Record. Rio de Janeiro. pgs.91, 92.

6. James JOYCE. Pomas, um tostão cada. 1913-1916. 1927 (1ª publicação). Tradução de Alípio Correia de Franca Neto. Editora Iluminuras. São Paulo. 2001, poema: Noturno, pg.63.

%d blogueiros gostam disto: