Archive for the ‘Jorge Luis BORGES’ Category

MixLit 61: Um jogo

Ele estava no quarto, empurrando roupas para dentro de uma mala, quando ela chegou à porta.

– Estou contente por você estar indo embora, estou contente por você estar indo embora! – disse ela – Está ouvindo?1

– Você estava muito irritada agora há pouco.

– Fui apanhada de surpresa.

– Peço desculpas por isso.2 Meu pensamento esbarra nos seios, nas coxas e ancas das mulheres.3 É muito difícil ser inteligente neste corpo.4 Não é você que tem de suportar isso.5

“Por que ele está me dizendo isso?”, pensou Liôlia.6  Sentiu um duro apertão na traqueia, e7 teve um estremecimento íntimo.8 A tentação de9 beijos cheios de paixão, e tais como nunca recebera, fizeram-na de repente esquecer que talvez ele amasse outra mulher. Dali a pouco já não o considerava culpado.10 Estava jogando algum jogo, no qual precisava mover-se rapidamente11. Curvou-se em cima dele para sussurrar umas últimas palavras em seu ouvido:12

– Se quiser, por muito favor, ficar aqui até à noite, há de ficar calado; ao contrário – rua!13

Ele não respondeu. Foi ela quem se afastou, somente para voltar mais meiga e mais ousada. Tornou-se tão afoita, tão desesperada, que o deixou imaginando se algum dia conhecera a verdadeira natureza de sua mulher.14

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1 Raymond CARVER. Iniciantes. Tradução de Rubens Figueiredo. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.234.

2 Woody ALLEN. Adultérios. Tradução de Cássia Zanon. Rio Grande do Sul: L&PM, 2011, p.63.

3 Murilo MENDES. Poemas e Bumba-meu-Poeta. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989, p.61.

4 Gonçalo M. TAVARES. O homem ou é tonto ou é mulher. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2005, p.31.

5 William FAULKNER. O som e a fúria.  Tradução de Paulo Henriques Britto. São Paulo: Cosac & Naify, 2003, pg.264.

6 Anton TCHECKHOV. Um negócio fracassado e outros contos de humor. Tradução de Maria Aparecida Botelho Pereira Soares. Rio Grande do Sul: L&PM, 2010, p.29.

7 Domingos AMARAL. Quando Lisboa tremeu. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2011, p.18.

8 José de ALENCAR. Lucíola. São Paulo: Ática, 1998, p.119.

9 Jorge Luis BORGES. Discussão. Tradução de Josely Vianna Baptista. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p.42.

10 STENDHAL. O vermelho e o negro. Tradução de Raquel Prado. São Paulo: Cosac Naify. 2008, p.85.

11 Patrick SÜSKIND. O perfume – história de um assassino. Tradução de Flávio R- Kothe. Rio de Janeiro: Record, 1985, p.178.

12 J.M. COETZEE. Vida e época de Michael K. Tradução de José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p.206.

13 Aluísio AZEVEDO. O cortiço. São Paulo: Ática, 1992, p.95.

14 Nathan ENGLANDER. Para alívio dos impulsos insuportáveis. Tradução de Lia Wyler. Rio de Janeiro: Rocco, 2007, p.205.

Imagem: Bruce French, “Darkness is the absence of light”.


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MixLit 48: Parar antes de ter que parar

À noite, durante o jantar, após eu1 fazer a barba2, meu pai3 veio se sentar no sofá, ao meu lado. Queria me dizer alguma coisa. Eu o adivinhava desde o começo do jantar, e já sabia do que se tratava.

– Como bebi! – disse ele – Isso é pior do que qualquer veneno. Mas esta é a última vez. Palavra! A última vez! Tenho força de vontade…4

Coçava a cabeça com a caneta como se isto pudesse devolver-lhe a consciência interrompida pelo5 seu conhaque francês6.

– Chega um momento em que não se pode mais continuar7 – continuava falando8 – Livre! Enfim livre!9

Levantou-se e10 avançou dois passos, os braços estirados como para abraçar alguém, sem ver nada. Infelizmente escorregou no soalho muito lustroso e parou. Veio-lhe então a ideia de que escorregar era inconveniente. Não devia escorregar11.

– Me desculpa. Estou meio alegre. Esta noite nunca mais12.

Não ouço outra coisa desde que existo13. Que tragédia, meu pai14.


1 Vladimir NABOKOV. Lolita. Tradução de Jorio Dauster. Rio de Janeiro: O Globo; São Paulo: Folha de São Paulo, 2003, p.49.

2 Georg BÜCHNER. Woyzeck. 1835. Tradução de Tércio Redondo. Hedra. São Paulo. 2003, p.63.

3 Orhan PAMUK. Neve. 2002. Tradução de Luciano Machado. Companhia das Letras. São Paulo. 8ª edição, 2007, p.137.

4 Anton TCHEKHOV. Estranha confissão. 1945. Tradução do castelhano por Bernardo Ajzenberg. Editora Planeta. São Paulo. 2005, pg.63.

5Mariel REIS. A caderneta. Em: Revista Ficções 18. 7Letras. Rio de Janeiro. 2009, p.62.

6Autran DOURADO. Os mínimos carapinas do nada. Em: Os cem melhores contos brasileiros do século. Org. de Italo Moriconi. Objetiva. Rio de Janeiro. 2000, p.514.

7 e 10 Milan KUNDERA. O livro do riso e do esquecimento. Tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1987, p.47, 55.

8 Jorge Luis BORGES. Ficções. Tradução de Davi Arrigucci Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p.105.

9, 12 e 14Dalton TREVISAN. 33 contos escolhidos.  Rio de Janeiro: Record, 2005, p.92, 93 e 96.

11 Graciliano RAMOS. Insônia.  Rio de Janeiro: Record. 2001, pg.100.

13Thomas BERNHARD. Montaigne – Uma narrativa. Em: Revista Serrote. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2011, p.232.


MixLit 9: Julgamento

A multidão começava a se dispersar, os vendedores recolhiam as suas coisas em grandes cestos, das varias fórnices que despontavam nas paredes de rocha, baixavam cordas e havia sempre alguém, nas diversas moradias, que puxava as mercadorias. Era um sobe e desce operoso, e logo toda a cidade ficou deserta.(1)

A reunião estava aberta, faziam-se os rodeios e as demoras protocolares como manda a boa tradição. Não se entrou diretamente no assunto, vagueando-se sobre o vento, o calor e outras ninharias. Todos se serviram cerveja, patrocinada pelo Tio Casuarino. Não havia copo para Mwadia, ela era mulher. Os homens bebiam devagar por respeito à bebida. Fazendo de conta que ninguém no mundo nunca antes tivesse bebido.(2)

Garambold não conseguia disfarçar a própria perturbação. Por mais que não quisesse ter nenhuma responsabilidade, e por mais que de fato não fosse diretamente responsável pelo que acontecera, ainda assim se sentia de alguma forma comprometido com o desaparecimento do rapaz. “Purevbaatar deve ter uma explicação”, repetia a propósito do outro.(3)

– Por que deste o recém-nascido a este ancião?

– Por piedade, meu senhor.(4)

A discussão foi viva, mas não prosperou: uma dessas faíscas súbitas que sobressaltam uma paisagem quieta, ameaçam revolucionar tudo e depois se extinguem na mesma velocidade com que irromperam. Nada mudou.(5)

Com o tronco estendido para a frente os dois homens, ansiosos, não se olharam.

Nolan deu o sinal.

Pardo, vaidoso do que ia fazer, caprichou na mão e deu um corte vistoso que ia de uma a outra orelha. O correntino contentou-se com um pequeno talho. Das gargantas brotou um jato de sangue, os homens deram uns passos e caíram de bruços.(6)

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1. Umberto ECO. Baudolino. 2000. Tradução de Marco Lucchesi. Editora Record. Rio de Janeiro. 2001, pg.330.

2. Mia COUTO. O outro pé da sereia. 2006. Companhia das Letras. São Paulo. 2006, pg.128.

3. Bernardo CARVALHO. Mongólia. 2003. Companhia das Letras. São Paulo. 2004, 2a reimpressão, pg.48.

4. SÓFOCLES. A trilogia tebana. 430 a.C. Tradução de Mário da Gama Kury. Jorge Zahar Editor. Rio de Janeiro. 1989, 8a edição, tragédia: Édipo Rei, pg.82.

5. Alan PAULS. O passado. 2003. Tradução de Josely Vianna Baptista. CosacNaify editora. São Paulo. 2007, pgs.456, 457.

6. Jorge Luis BORGES. O informe de Brodie. 1970. Tradução de Hermilo Borba Filho. Editora Globo. Rio Grande do Sul. 1983, 2a edição, conto: O outro duelo, pg.90.

Imagem: “We will ride” (parte), de Mike Priddy, 2008, http://www.mikepriddy.com.au/

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