Archive for the ‘Luiz RUFFATO’ Category

MixLit 64: Ela com os dela, eu com os meus

Apoiando o dorso das mãos na testa e ronronando impaciente1, Beatriz enfim ergueu os olhos atentos do papel amarelo – ela acabava de ler a expressão2 todo muro é um tanto confuso3. Pronuciava a frase diante do espelho em voz baixa4 e com as próprias palavras ia-se excitando. Os olhos brilhavam5 metidos à procura de um ponto fixo, abstrato, que a fizesse encontrar uma resposta para uma pergunta sem resposta6, à espera de que alguma coisa, qualquer coisa, acontecesse7.

Fingi mais uma vez que não via nada8. Falei que ia embora9.

Quietos estamos salvos10, cada qual com seus demônios11.









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1 Daniel GALERA. Dentes guardados. Rio Grande do Sul: Livros do Mal, 2004, p.9.

2 Cristovão TEZZA. Um erro emocional. Rio de Janeiro: Record, 2010, p.57.

3 Ricardo DOMENECK. A cadela sem Logos. Rio de Janeiro/São Paulo: 7Letras/Cosac Naify, 2007, p.98.

4 Bernardo AJZENBERG. Olhos secos. Rio de Janeiro: Rocco, 2010, p.11.

5 Luandino VIEIRA. A cidade e a infância. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p.40.

6 Valter HUGO MÃE. A máquina de fazer espanhóis. São Paulo: Cosac Naify, 2011, p.146.

7 André DE LEONES. Dentes negros. Rio de Janeiro: Rocco, 2011, p.36.

8 Bruna BEBER. “Baixo orelhão”. Em: Liberdade até agora – uma antologia de contos. Organização de Eduardo Coelho e Márcio Debellian, Rio de Janeiro: Móbile, 2011, p.45.

9 Luiz RUFFATO. O livro das impossibilidades. Rio de Janeiro: Record, 2008, p.75.

10 Laura ERBER. Os corpos e os dias. São Paulo: Editora De Cultura, 2008, p.49.

11 José REZENDE JR. Eu perguntei pro velho se ele queria morrer. Rio de Janeiro: 7Letras, 2009, p.70.

Este MixLit com apenas autores de língua portuguesa foi publicado sob o título de “E o muro se ilumina” na terceira edição da Revista Pessoa.

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MixLit 55: Uma visita à sra. Mercado

Sentada no parapeito, cabisbaixa, imersa em pensamentos1, embriaguez2, juntamente alegre e triste3, a sra. Mercado só percebeu a nossa aproximação quando Poirot estacou diante dela e a saudou4.

— Q-q-quanto é?5

Ela ficou curiosa pela figura: terno, gravata, o cabelo penteado com capricho, mudando do cinza pro grisalho. Um coroa, mais um. Estava se especializando no antendimento à terceira idade6.

— Quanto você tem aí?7

Viuva, baixinha, feia, gordinha8, um hálito de mamute9. Só não tenho medo dela quando estamos na cama10, eu disse11, De bom não tem nada, nem o exotismo12.

— Que importa?13, me disse14 Poirot15 — Xá comigo!16

— Faça bom proveito!17

Acendi um cigarro, ele trouxe uma garrafa de cerveja, dois copos, não podia ver ninguém bebendo sozinho, “Me dá aflição!”, brindamos, sumiu atrás da mulher18.

Meu respeito por ele aumentou19.


1 Agatha CHRISTIE Morte na Mesopotâmia. Tradução de Henrique Guerra. Rio Grande do Sul: L&PM, p.168.

2 Marçal AQUINO. Eu receberia as piores noticias dos seus lindos lábios. Sã o Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.85.

3 Machado DE ASSIS O alienista. Rio Grande do Sul: L&PM, 1998, p.87.

4 Agatha CHRISTIE. Idem.

5 Atiq RAHIMI. Syngué sabour – Pedra-de-paciência. Estação Liberdade. P.110.

6 Marçal AQUINO. Idem.

7 Atiq RAHIMI. Idem, p.111.

8 Muriel BARBERY. A elegância do ouriço. Tradução de Rosa Freire D`Aguiar. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p.115.

9 Muriel BARBERY. Idem.

10 Péter ESTERHÁZY. Uma mulher. Tradução de Paulo Schiller. São Paulo: Cosac Naify, 2011, p.96.

11 Marçal AQUINO. Idem, p.217.

12 Péter ESTERHÁZY. Idem, p.83.

13 Machado DE ASSIS. Idem, p.25.

14 Luiz RUFFATO. Estive em Lisboa e lembrei de você. São Paulo: Companhia  das Letras, 2009, p.19.

15 Agatha CHRISTIE. Idem.

16 Luiz RUFFATO. Idem.

17 Muriel BARBERY. Idem, p.34.

 18 Luiz RUFFATO. Idem.

 19 Agatha CHRISTIE. Idem, p.171.

Imagem: pintura de Emile Nolde, “Strange couple brown ground”.

MixLit 53: O sim, o não, as conclusões

Sozinho, a meio da noite, a febril luz do pequeno candeeiro a arder1, enquanto o fósforo se apagava, vi como me olhava com ternura. Depois, já na completa escuridão, senti que sua mão acariciava minha cabeça. Disse-me2 que queria transformar aqueles pobres-coitados em ferozes defensores da pátria3. O que seria dela se também se apagasse como se apagou a chama daquela luz débil?4

– De quanto vocês precisam para fazer a sua revolução? – perguntou5.

Permaneci calado, com os olhos fixos na terra aos meus pés. Eu e a terra – e ela ao lado6.

– E os seus amigos? – disse ela – Não pensa neles?7

Mais uma vez eu precisava dizer alguma coisa, mas antes que pudesse8, saiu fechando a porta sem fazer ruído9.

O vento cantava os funerais de algum desconhecido. As árvores se curvavam, gemedoras e soluçantes, Alguma coisa… possivelmente uma veneziana… rangia desesperadamente e batia contra a base da janela10. Fazer uma revolução?11 Por que tudo tem de ter resposta?12 Por mais que se lute contra a realidade13… Não sei bem o que dizer14… Como evitar a aura de conclusão de uma última sentença?15


1 valter hugo MÃE. A máquina de fazer espanhóis. São Paulo: Cosac Naify, 2011, p.167.

2 Ernesto SABATO. O túnel. Tradução de Sérgio Molina. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p.64.

3 Luiz RUFFATO. O livro das impossibilidades. Rio de Janeiro: Record, 2008, p.81.

4 Juan RULFO. Pedro Páramo. Tradução de Eric Nepomuceno. Editora Record. Rio de Janeiro. Edições BestBolso, p.114.

5 Juan RULFO. Idem, p.110

6 Witold GOMBROWICZ. Cosmos. Tradução de Tomasz Barcinski e Carlos Alexandre Sá. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p.129.

7 Gustave FLAUBERT. Madame Bovary. Tradução de Fernanda Ferreira Graça. Linda-a-Velha, Portugal: Biblioteca Visão, 2000, p.130.

8 Witold GOMBROWICZ. Idem, p.129.

9 Juan RULFO. Idem, p.114.

10 Anton TCHEKHOV. “Então, era ela!”; em: Os mais brilhantes contos de. Tradução de Yolanda Vettori. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, sem data, p.99

11 Wolfgang HOHLBEIN, e Heike HOHLBEIN. Marchenmond II – Os filhos das terras sombrias. Tradução de Elisabeth Loibl.  Rio de Janeiro: Prestígio editoria/Ediouro, sem data, edição digital no Scribd, sem numeração de página.

12 Ernesto SABATO. Idem, p.64.

13 Ricardo DOMENECK. A cadela sem Logos. Rio de Janeiro/São Paulo: 7Letras/Cosac Naify, 2007, p.123.

14 Laura ERBER. Os dias e os corpos. São Paulo: Editora de Cultura, 2008, p.58.

15 Ricardo DOMENECK. Idem.

Mixlit 7: Corte no mundo

Tudo na cidade continuava como antes – o exército no quartel, as fotografias do presidente por todo lado, o vapor realizando suas viagens regulares vindo da capital. Mas os homens haviam perdido ou rejeitado a idéia de uma autoridade vigilante(1). O pelotão que saía à noite para proteger o quartel, alapado nas matas rasas que cresciam, amarelentas, na areia, torcidas de anemia, aproximava-se no escuro, passava sob a lâmpada coberta de um abajur de insectos, dispersava-se sem ruído nas cabanas das casernas, onde a profundidade do sono se media pela intensidade do cheiro dos corpos, amontoados ao acaso como nas fossas de Auschwitz, e eu perguntava ao capitão O que fizeram do meu povo(2).

Desci a viela bêbado a ponto de precisar me apoiar na parede das casas, a maioria pintada de branco, uma afronta ao pó avermelhado daquele lugar(3). Nossas janelas estavam escuras. A entrada estava vazia. Entrei caminhando junto à parede da esquerda, mas não havia ninguém: só a escada subindo em curva na sombra ecos de passos de gerações tristes como poeira leve sobre as sombras, meus passos a despertá-las como pó, que depois descia, leve, outra vez. Vi a carta antes mesmo de acender a luz, em pé, apoiada num livro sobre a mesa, para que eu a visse:(4)

“Se a voz de uma mulher que conta histórias tem o poder de trazer crianças ao mundo, é também verdade que uma criança tem o poder de dar vida a histórias. Dizem que um homem ficaria louco se não pudesse sonhar à noite. Do mesmo modo, se não é permitido a uma criança entrar no…”(5)

Ouviu?, é tiro, vamos lá!(6)

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1. V.S. NAIPUL. Uma curva no rio. 1979. Tradução de Carlos Graieb. Companhia das Letras. São Paulo. 2004, pg.239.

2. Antonio LOBO ANTUNES. Os cus de Judas.  1979. Alfaguara – Objetiva. Rio de Janeiro. 2007, 2ª edição, pg.54.

3. Marçal AQUINO. Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios. 2005. Companhia das Letras. São Paulo. 2009, 4ª reimpressão, pg.78.

4. William FAULKNER. O som e a fúria. 1929. Tradução de Paulo Henriques Britto. Cosac & Naify. São Paulo.2003, pg.166.

5. Paul AUSTER. A invenção da solidão. 1982. Tradução de Rubens Figueiredo. Companhia das Letras. São Paulo. 1999, pg.172.

6. Luiz RUFFATO. Eles eram muitos cavalos. 2001. Boitempo editorial. São Paulo. 2002, 2ª edição, pg 143.

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