Archive for setembro \27\UTC 2010

MixLit 31: Antes, antes que aconteça

Houve uma porção de enforcados

E as caveiras espetadas nos postes(1).

Entre as formas decrépitas do povo(2),

num rosto tropecei mais porpurino.

“Por que me feres?”, disse o réu, chorando:

“Se não vens agravar meu sofrimento

Por Montaperti, não me vás pisando(3).

Enquanto como um rato

tu podes ouvir e ver

de teu buraco(4)

o mulato.”

Sem nome, desce a ladeira,

rearrumando os ossos (5)

antes que o mundo termine.

Antes do involuntário

adeus

me adianto e saio(6).

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1. Oswald de ANDRADE. Poesias Reunidas. 1924-1946. Civilização Brasileira. Rio de Janeiro. 1978. p.94.

2. Augusto dos ANJOS. Eu & outras poesias. 1912. Itatiaia. Belo Horizonte/Rio de Janeiro. 1982, p.93.

3. Dante ALIGHERI. A divina comédia. Volume 1 – Inferno. Início do séc. XIV. Tradução de Cristiano Martins. Itatiaia/USP. Belo Horizonte/Rio de Janeiro/São Paulo. 1979, p.384.

4. Ferreira GULLAR. Poema sujo. 1975. José Olympio. Rio de Janeiro. 2006, p.65.

5. Claufe RODRIGUES. Amor e seus múltiplos. Record. Rio de Janeiro. 1997, p.61.

6. Paula CAJATY. Sexo, tempo e poesia. 7Letras. Rio de Janeiro. 2010, p.23.

Imagem: Por snaphappy64.

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MixLit 30: Nunca, nenhuma, nada

Ajoelhado no assoalho de madeira, Silas orou suplicando perdão. Depois, tirando a túnica, estendeu o braço outra vez para pegar(1) o meu corpo, a minha pele clara, o meu seio(2).

– Nunca, na minha vida, nunca toquei numa prostituta!

– Eu conheço vocês todos!

– Sua nojentinha!

– Quem é que é nojenta?

– Você, sua vagabunda!(3) Tome. Quer mais? – Acrescentou uma nota maior, sentindo que a odiava, que teria dado qualquer coisa para não a ter encontrado(4). – Para tomar um traguinho – cochicha. E fica, todo excitado, a olhar para as estrelas(5). – O prazer e a dor – diz ele – que são dois sentimentos em si mesmos tão diferentes, não diferem tanto quanto a suas causas(6). Há apenas duas saídas e ambas estão igualmente trancadas: dos dois lados, nada posso fazer senão calar-me(7).

_ _ _ _

Ele tinha se enforcado de madrugada(8).

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1. Dan BROWN. O código Da Vinci. 2003. Tradução de Cecília Cavalcante Falck-Cook. Sextante. Rio de Janeiro. 2004, p.160.

2. Sérgio TAVARES. Cavala. 2009. Record. Rio de Janeiro. 2010, conto: Cavala, p.41.

3. Nelson RODRIGUES. Toda nudez será castigada. 1965. Em: O teatro completo de, 4 – Tragédias cariocas II. 1961-1978. Nova Fronteira. Rio de Janeiro. 1990, p.172.

4. Juan Carlos ONETTI. O possível Baldi. Sem data. Tradução de Eliane Zagury. Em: Os primeiros contos de dez mestres da narrativa latino-americana. Org. de Ángel Rama. Paz e Terra. Rio de Janeiro. 1978, p.132.

5. Érico VERÍSSIMO. As mãos de meu filho. 1942. Em: Os cem melhores contos brasileiros do século. Org. de Italo Moriconi. Objetiva. Rio de Janeiro. 2000, p.179.

6. David HUME. A tragédia. Entre 1741 e 1751. Hume – Vida e obra. Tradução de João Paulo Gomes Monteiro e Armando Mora D´Oliveira. Nova Cultural. São Paulo. 1999, coleção: Os pensadores, pg.326.

7. Roland BARTHES. Fragmentos de um discurso amoroso. 1977. Tradução de Márcia Valéria Martinez de Aguiar. Martins Fontes Editora. São Paulo, 2ª edição, 2007, p.322.

8. Hafid AGGOUNE. Os amanhãs. 2004. Tradução de Maria Angela Villela. Rocco. Rio de Janeiro 2005, p.14.

MixLit 29: A outra vida no Campo

Degraël deu com um magro volume intitulado A viagem de inverno, cujo autor, Hugo Vernier, era-lhe totalmente desconhecido, mas cujas primeiras páginas causaram-lhe uma impressão tão forte que só teve tempo de se desculpar junto ao amigo e a seus pais e subir correndo a fim de lê-lo no quarto(1):

Era domingo porque estava sol, porque eu tinha decidido não ir trabalhar, porque se ouviam poucos automóveis na cidade, porque o mundo parecia infinito, porque as minhas filhas tinham vestidos com laços que se atavam atrás da cintura e(2), com seus olhos tristes, despediam-se de Cosme, que ficava horas à porta da varanda com a esperança de uma oportunidade de voltar aos cuidados de suas donas(3).

Nesta última semana, nós todos ficamos um tanto confusos porque nossos amados sinos da Westetoren foram retirados para serem fundidos e usados na guerra, por isso não temos idéia da hora exata, seja da noite ou do dia. Ainda tenho esperança de que arranjem um substituto, feito de latão, cobre ou outra coisa, para que o bairro se lembre do relógio(4).

– Essa, então, é a vida ambígua do Campo(5).

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1. Georges PEREC. A viagem de inverno. 1979. Em: A coleção particular. Tradução de Ivo Barroso. CosacNaify. São Paulo. 2005, p.75.

2. José Luís PEIXOTO. Cemitério de pianos. 2006. Bertrand. Lisboa, Portugal. 2006, p.49.

3. Gabriela Guimarães GAZZINELLI. Prosa de papagaio. 2009. Record. Rio de Janeiro. 2010, p.95.

4. Anne FRANK. O diário de Anne Frank. 1942-1944. Tradução de Alves Calado. Record. Rio de Janeiro. 1995, p.126.

5. Primo LEVI. É isto um homem? 1958. Tradução de Luigi Del Re. Rocco. Rio de Janeiro. 1988, p.88.

MixLit 28: Um desafio tranquilo

Reclinado em uma poltrona, Hermes me encarou desafiador, enquanto desembaraçava uma infinidade de nós górdios ao longo de uma grosseira corda de cânhamo. Em seu rosto, a ferida estava reaberta, coberta de pomada e pus. Tentei desviar o olhar(1).

– Vamos virar umas cadeiras, quebrar umas coisas… pra dar uma aparência de luta…

– Era bom vosmicê pegar também o revólver…

– Ah sim… Eu também tenho que dar uns tiros… pra fingir que resisti(2).

Ao invés de acabar como homem, acovardou-se diante de mim, completamente desanimado, e, lançando-se no sofá, rompeu em lágrimas, rogando loucamente a todos os santos para que o ajudassem, como se eles pudessem estar interessados na sorte de um desgraçado como ele!

Percebi que não tinha nada a temer(3).

– Preciso de uma dose, Mark. Realmente preciso pra caralho de uma dose. Vamo, Mark, prepara uma dose pra mim…(4)

Bebi uísque com ele e terminei voltando para casa meio adormecido sobre o cavalo, um cavalo que cada dia aprecio mais, já que é bom conhecedor do caminho de volta e foi avançando lentamente em direção ao meu modesto refúgio(5).

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1. Paulo de Paiva SERRAN. Vespúcia do Sul. 2010. Maquinária. Rio de Janeiro. 2010, p.53.

2. Dias GOMES. O bem-amado. 1962. Bertrand Brasil. Rio de Janeiro. 2006, 7ª edição, pp.133, 134.

3. William M. THACKERAY. Barry Lyndon. 1844. Tradução de Jorge Arnaldo Fortes. Círculo do Livro/Artenova. São Paulo. 1976, p.143.

4. Irvine WELSH. Trainspotting. 1993. Tradução de Daniel Galera e Daniel Pellizzari. Rocco. Rio de Janeiro. 2004, p.64.

5. Enrique VILA-MATAS. Doutor Pasavento. 2005. Tradução de José Geraldo Couto. Cosac Naify. São Paulo. 2009, p.301.

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