Archive for the ‘Autran DOURADO’ Category

MixLit 48: Parar antes de ter que parar

À noite, durante o jantar, após eu1 fazer a barba2, meu pai3 veio se sentar no sofá, ao meu lado. Queria me dizer alguma coisa. Eu o adivinhava desde o começo do jantar, e já sabia do que se tratava.

– Como bebi! – disse ele – Isso é pior do que qualquer veneno. Mas esta é a última vez. Palavra! A última vez! Tenho força de vontade…4

Coçava a cabeça com a caneta como se isto pudesse devolver-lhe a consciência interrompida pelo5 seu conhaque francês6.

– Chega um momento em que não se pode mais continuar7 – continuava falando8 – Livre! Enfim livre!9

Levantou-se e10 avançou dois passos, os braços estirados como para abraçar alguém, sem ver nada. Infelizmente escorregou no soalho muito lustroso e parou. Veio-lhe então a ideia de que escorregar era inconveniente. Não devia escorregar11.

– Me desculpa. Estou meio alegre. Esta noite nunca mais12.

Não ouço outra coisa desde que existo13. Que tragédia, meu pai14.


1 Vladimir NABOKOV. Lolita. Tradução de Jorio Dauster. Rio de Janeiro: O Globo; São Paulo: Folha de São Paulo, 2003, p.49.

2 Georg BÜCHNER. Woyzeck. 1835. Tradução de Tércio Redondo. Hedra. São Paulo. 2003, p.63.

3 Orhan PAMUK. Neve. 2002. Tradução de Luciano Machado. Companhia das Letras. São Paulo. 8ª edição, 2007, p.137.

4 Anton TCHEKHOV. Estranha confissão. 1945. Tradução do castelhano por Bernardo Ajzenberg. Editora Planeta. São Paulo. 2005, pg.63.

5Mariel REIS. A caderneta. Em: Revista Ficções 18. 7Letras. Rio de Janeiro. 2009, p.62.

6Autran DOURADO. Os mínimos carapinas do nada. Em: Os cem melhores contos brasileiros do século. Org. de Italo Moriconi. Objetiva. Rio de Janeiro. 2000, p.514.

7 e 10 Milan KUNDERA. O livro do riso e do esquecimento. Tradução de Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1987, p.47, 55.

8 Jorge Luis BORGES. Ficções. Tradução de Davi Arrigucci Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p.105.

9, 12 e 14Dalton TREVISAN. 33 contos escolhidos.  Rio de Janeiro: Record, 2005, p.92, 93 e 96.

11 Graciliano RAMOS. Insônia.  Rio de Janeiro: Record. 2001, pg.100.

13Thomas BERNHARD. Montaigne – Uma narrativa. Em: Revista Serrote. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2011, p.232.


MixLit 25: Ao redor

Fazia muito tempo que Tucker não ia a um lugar ouvir uma banda, e ele mal conseguia acreditar que tudo aquilo ainda lhe parecia familiar. Não deveria ter havido algum progresso desde então?(1) Parecia que a banda de botas envernizadas não sabia tocar outra coisa. O mesmo acontecia com a banda de milícia dos mulatos. Nas festas, nos desfiles, escutava-se sempre a mesma melodia lamentosa, girando redonda como um cavalo velho de carrossel(2).

A sombra de uma profunda tristeza toldou-lhe os olhos tão bondosos, os tracinhos finos das rugas que os cercavam acentuaram-se-lhe, tornando-lhe o olhar mais profundo. Relanceou a vista em redor, e disse, a si próprio se ironizando:(3)

– Ah, humilhação é quase tudo(4), homem é assim mesmo. Nem todos gostam de mostrar que estão sem fazer nada em casa, sempre saem(5).

A baba dele caía ao chão. Sua cabeça, pensamentos escassos.

Disparou o gatilho.

E por lá viram se espalhar os miolos dele(6).

____________________

1. Nick HORNBY. Juliet, nua e crua. 2009. Tradução de Paulo Reis. Rocco. Rio de Janeiro. 2009, p.111.

2. Alejo CARPENTIER. Os primeiros contos de dez mestres da narrativa latino-americana. (vários autores) Seleção, introdução e estudos críticos de Ángel Rama, 1978. Paz e Terra. Rio de Janeiro. 1978, conto: Ofício de trevas, tradução de Eliane Zagury, p.47.

3. Maximo GÓRKI. Tchekov. (vários autores) Sem data. Tradução de Emília Rodrigues. Arcádia. Lisboa. 1963, p.12.

4. Carola SAAVEDRA. Toda terça. 2007. Companhia das Letras. São Paulo. 2007, p.69.

5. Autran DOURADO. Armas e corações. 1978. Rocco. Rio de Janeiro. 2006, p.30.

6. Beatriz GRIMALDI. Coletânea Prêmio Off-Flip de Literatura 2008. (vários autores) Selo OFF Flip Editora. Rio de Janeiro. 2009, conto: Gravidade, p.43.

%d blogueiros gostam disto: