Oficina este sábado 15 na BPE e montagem de Paginário + Livraria da Travessa domingo 16 em Botafogo

Queridos,

este sábado a partir de 15h teremos a segunda parte da Oficina de Escrita (Re)Criativa na Biblioteca Parque Estadual do Rio de Janeiro, que já teve exercícios baseados no MixLit, e agora contará com outros baseados no Paginário.

Screen shot 2014-11-07 at 20.11.29Screen shot 2014-11-06 at 20.29.08

E no domingo…

convite paginario travessa domingo 16 de novembro

Apareçam!

Abraços,

Leonardo Villa-Forte.

http://www.leonardovillaforte.com

Oficina sobre MixLit, Paginário e Escrita (Re) Criativa

Olá!
Nos próximos dois sábados (8 e 15) darei uma oficina de Escrita (Re)criativa na Biblioteca Parque Estadual, no Rio de Janeiro. Você não quer vir? Seria ótimo.
Na oficina, falarei sobre meus trabalhos e os conceitos de Uncreative Writing de Kenneth Goldsmith e de Pós-produção de Nicolas Bourriaud, e apresentarei alguns trabalhos de outros artistas que dialogam com o MixLit. No entanto, a oficina será essencialmente prática. Juntos, (re)criaremos textos a partir de materiais como livros e documentos já existentes, misturando, recortando, editando, deslocando. Entre outros exercícios, está prevista a montagem de um Paginário (www.paginario.com.br) dentro da BPE durante a oficina, com páginas escolhidas pelos participantes.
Aqui segue uma apostila-base (que na verdade não precisa ser lida, é apenas uma inspiração, um algo a mais), com trechos de Giselle Beiguelman, Flávio Carneiro, Antoine Compagnon, Francisco Bosco, Lev Manovich, Mário de Andrade, Marshall McLuhan e outros: https://mixlit.files.wordpress.com/2010/03/apostila-oficina-de-remix-literario-mixlit-leonardo-villa-forte.pdf
A oficina começa às 15h, as vagas são limitadas e as inscrições são grátis, lá mesmo na BPE ou pelo email: cursos.bpe@bibliotecasparquerj.org.br
Telefone: 2332-7225
A Biblioteca Parque Estadual fica na Avenida Presidente Vargas, 1261.
Qualquer dúvida, pode escrever também para meu email: leovillaforte@yahoo.com.br
Te espero lá!
Abraços,
Leonardo Villa-Forte.

Novidades

Queridos seguidores do MixLit,

faz tempo não posto no blog. Isso não acontece porque parei de fazer o trabalho de literatura remixada, mas sim porque o trabalhou se desdobrou e caminha por novos trilhos. Um deles: meu projeto de mestrado. Entrei no mestrado em “Literatura, cultura e contemporaneidade” na PUC-RJ, no início de 2013, e agora ando estudando bastante para escrever uma boa dissertação. O assunto? Remix, apropriação e intervenção na literatura. Ou seja, no início de 2015 espero ter uma boa quantidade de páginas discutindo a ideia de autor como um montador (o autor-DJ) a partir da minha experiência com o MixLit e outros trabalhos de outros artistas que dialogam com a ideia de tratar o texto como algo móvel, manipulável e “misturável”.

Outro desdobramento do MixLit: as oficinas. Tenho recebido convites, e uma boa oficina requer um bom planejamento. Esse mês de abril, por exemplo, dei uma oficina para 100 alunos do 8o ano da Escola Parque da Barra da Tijuca. Acho que a garotada se amarrou. Em julho, darei uma nova oficina na 3a Bienal de Arte da Bahia, no Museu de Arte Moderna de Salvador. E daí por diante.

Quero falar ainda de um outro trabalho meu, que também é um desdobramento do MixLit. Mas antes disso, não gostaria de deixar vocês sem nenhuma novidade do próprio MixLit: o último MixLit postado aqui foi feito especialmente para uma revista da Inglaterra, a Modern Poetry in Translation, e agora que a edição já saiu, posso publicar aqui também a versão visual desse trabalho.

MixLit 70 - Mudança - sem site - Leonardo Villa-Forte

A edição da Modern Poetry in Translation traz ainda autores brasileiros que admiro bastante: Carlos Drummond de Andrade, Angélica Freitas, Adriana Lisboa, Nicolas Behr, Ana Martins Marques… vocês podem reparar que usei alguns deles para fazer esse poema MixLit. Além desse trabalho, a revista publicou também uma conversa minha com a tradutora norte-americana Hilary Kaplan – que traduz os livros da poeta brasileira Angélica Freitas. Segue aqui o link para a conversa – na qual falamos bastante sobre meu método e minhas intenções com o MixLit. Ficou ótima! Se você lê em inglês, recomendo clicar aqui: http://www.mptmagazine.com/feature/a-small-library-in-a-poem-a-conversation-66/

Quanto ao meu novo trabalho, ao invés de recortar trechos das páginas e conectá-los para fazerem sentido – como no MixLit -, neste novo trabalho eu uso páginas inteiras, sem recortá-las, mas marcando seus trechos mais interessantes (na verdade eu e vários colaboradores – Lopes, Ana Hupe, muitos outros), e disponho as páginas em muros da cidade sem a obrigação de elas construírem uma narrativa harmônica ao ficarem uma do lado da outra. Conheçam, aqui, o Paginário.

 

IMG_0291
Já temos quatro Paginários pela cidade e estão aparecendo convites para fazermos mais. Assim, estou com dois sites novos e gostaria de convidá-los para conhecerem.

O primeiro é o site do Paginário: www.paginario.com.br – que também conta com uma comunidade no Facebook. Procure no Facebook por “Paginário”.

O segundo é o meu site, que reúne muitos dos meus trabalhos até agora: www.leonardovillaforte.com

Obrigado pela companhia!

Grande abraço,

Leonardo Villa-Forte.

 

MixLit 70: Mudança

Homens célebres visitam a cidade                                                           rebatedor-circular-5x1_1_
Obrigatoriamente exaltam a paisagem1
As luzes cinéticas das avenidas
O vulto ao vento das palmeiras
E a ânsia insaciável dos jasmins2    

Tudo igual
Tudo rebocado
Só muda a cor3

Por muito tempo o tempo não passa4
O poema bom
O poema ruim5

Vou vestir as roupas da coleção do inverno passado6
Se um dia eu tiver que voltar
Para o lugar de onde vim7

____________________

1 Carlos Drummond de ANDRADE. Sentimento do mundo. Companhia das Letras, 2012, p.45.
2 Antonio CÍCERO. A cidade e os livros. Record, 2002, p.77.
3 Angélica FREITAS. Um útero é do tamanho de um punho. Cosac Naify, 2012, p.45.
4 Leda CARTUM. As horas do dia – Pequeno dicionário calendário. 7Letras, 2012, p.46.
5 Nicolas BEHR. Meio seio. Língua Geral, 2012, p.50.
6 Ricardo DOMENECK. a cadela sem Logos. 7Letras/Cosac Naify, 2007, p.95.
7 
Fabrício CORSALETTI. Esquimó. Companhia das Letras, 2010, p.49.

MixLit 69: Encontro

Uma mulher nos abriu a porta. Era a mulher que fazia os serviços da casa.1 Usava um tipo de saia espanhola com muitas cores e uma espécie de bustiê.2 Para tirar o cheiro da gordura da chapa em que trabalhava, ela ensopava de creme rinse o cabelo meio louro, meio preto.3 Parecia realmente maravilhosa.4 Fiquei paralisado.5 O que conversar? Como puxar assunto?6 Eu estava com medo, claro. Sentia medo de, por causa de um movimento infeliz,7 não me dar bem.8 Depressa, homem, depressa – balbuciei, quase sem fôlego.9 Bateu aquele frio na barriga. Respirei profundamente e caminhei10 com um olhar brilhante, impenetrável. Inclinei-me para beijá-la.11

Bruce-French_Darkness-is-the-Absence-of-Light,-Orange– Fora daqui – murmurou.12

– Não.

– Você está pálido.

– Eu sou pálido. Vamos, ande.13 Não vou assustá-la de novo.14

– Você sabe muito bem que tudo vai piorar.15

Eu estava entregando os pontos. Teria entregado os pontos se não fosse uma voz que se fez ouvir no meu coração. Essa voz dizia:16 ela precisava da minha companhia.17

– Quando voltarei a vê-la?

– Telefono para você amanhã ou depois – disse ela.18

O meu rosto assumiu uma expressão severa e determinada.19

– Promete?

Ela assentiu.

– Pode ligar para a minha casa ou a livraria. O número é o mesmo. Você tem, não é?20

Marquei de pegá-la na saída do trabalho.21

Nunca mais nos encontramos.22


1 João Gilberto NOLL. Hotel Atlântico. Em: Romances e contos reunidos. São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p.408.

2 Meg CABOT. O diário da princesa, Vol.1. Tradução de Fabiana Colasanti. Rio de Janeiro: Record, 2002, p.136.

3 Marcus Vinícius FAUSTINI. Guia afetivo da periferia. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2009, p.86.

4 Meg CABOT. Idem.

5 Carlos Ruiz ZAFÓN. A sombra do vento. Tradução de Marcia Ribas. Rio de Janeiro: Suma de Letras/Objetiva, 2007, p.256.

6 Thalita REBOUÇAS. Ela disse, ele disse. Rio de Janeiro: Rocco, 2010, p.9.

7 Ricardo LÍSIAS. Anna O. e outras novelas. São Paulo: Globo, 2007, p.16.

8 Meg CABOT. Idem.

9 Yann MARTEL. As aventuras de Pi. Tradução de Maria Helena Rouanet. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012, p.180.

10 Thalita REBOUÇAS. Idem.

11 Carlos Ruiz ZAFÓN. Idem, p.257.

12 Carlos Ruiz ZAFÓN. Idem, p.256.

13 Carlos Ruiz ZAFÓN. Idem.

14 Rick RIORDAN.  Percy Jackson e os Olimpianos – O mar de monstros.  Tradução de Ricardo Gouveia. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2009, p.278.

15 Rick RIORDAN. Idem.

16 Yann MARTEL. Idem.

17 Thalita REBOUÇAS. Idem.

18 Carlos Ruiz ZAFÓN. Idem.

19 Yann MARTEL. Idem.

20 Carlos Ruiz ZAFÓN. Idem, p.257.

21 Marcus Vinícius FAUSTINI. Idem.

22 Marcus Vinícius FAUSTINI. Idem.
__________________________________

Este MixLit foi feito com os livros escolhidos para as seis oficinas de remix literário que dei durante a semana de dia das crianças no SESC Barra Mansa, Rio de Janeiro. Aproximadamente 100 estudantes, de 8 a 15 anos, remixaram essas mesmas páginas, montando seus próprios textos a partir das mesmas fontes.

MixLit 68: Os espaços

Ela, prazerosa, no esplendor do seu sorriso1 costumava dizer: “A vida é espantosamente curta.2 Você chegou a tempo de eu perceber que não deveria desistir.”3

Não deu certo.4 MixLit 68 - imagem

Senti que estávamos separados não há três meses, mas há três anos. Pensei em como seria difícil conhecer outra pessoa, descobrir outro corpo, sem brotoejas na nuca, sem cicatriz na perna, sem manchas de sol nas costas, sem calos nos dedos.5

As pessoas separam, seguem sua vida, se mudam.6 As mulheres deixam de amar.7 Uma coisa que eu não aprenderia nunca.8

Pelo menos estou tentando resolver isso…9  

Dar nomes para o espaço entre as coisas.10

Estou tentando!11

 


1 ONDJAKI. E se amanhã o medo. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2010, p.73.

2 Franz KAFKA. Um médico rural. Tradução de Modesto Carone. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p.40.

3 Paulo SCOTT. Habitante irreal. Rio de Janeiro: Objetiva/Alfaguara, 2011, p.215.

4 Saul BELLOW. Herzog. Tradução de José Geraldo Couto. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p.67.

5 Danielle SCHLOSSAREK. Irene na multidão. Rio de Janeiro: Oito e meio, 2013, p.19.

6 Dash SHAW. Umbigo sem fundo. Tradução de Érico Assis. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, sem número de página, início da “Parte 2”.

7 Saul BELLOW. Idem, p.65.

8 Laura ERBER. Esquilos de Pavlov. Rio de Janeiro: Objetiva/Alfaguara, 2013, p.113.

9 Dash SHAW. Idem.

10 Waltercio CALDAS. Manual da ciência popular. São Paulo: Cosac Naify, 2007, página sem número, seção “21 – A estória da arte”.

11 Dash SHAW. Idem, página seguinte à usada anteriormente.

MixLit 67: As agruras de mamãe

Estávamos apertados uns contra os outros perto da lareira quando, de repente, minha mãe se levantou, desequilibrando toda a turma; surpresos, nós a vimos dirigir-se para a porta e, movida por um obscuro impulso, escancará-la.1 Ela ficou ainda um tempo com um sorriso no rosto. Alçou os ombros ligeiramente. Foi à janela, o olhar cansado e vazio:

- Talvez eu deva ouvir música.2

Pôs as mãos para trás, ficou na ponta dos pés, como se quisesse enxergar algo, mas era só um gesto de irritação.3

- Agora o que é que eu vou fazer? – perguntou com a voz esganiçada.4

- É isso aí, mãe. Vai em frente e xinga! Nós não nos importamos!5

hair-window - Michael Landau - KreativMichael

- Quando isso acontecer, Mis’Salim, vou saber que chegou a hora de6 sair de casa.7

Era uma maneira estranha de pensar. Mas ela era uma mulher estranha.8 Costumava dizer que uma mulher devia se sentir feliz no seio da sua família. Mas, como9 disse tio Ran10, o que uma mulher quer, para começar, é ter seu próprio círculo de relações, e11 mamãe não12 saía para ver ninguém.13 Passava a maior parte do tempo em seu quarto, com a porta trancada por dentro, mas de vez em quando emergia numa espécie de exaltação bêbada,14 voltava à costura de moldes baratos, à solidão de uma atividade cada vez mais anacrônica, sem perder o ânimo, nem o orgulho de quem passara a vida cortando e emendando tecidos. Dizia que muitas pessoas dançavam, marchavam, estudavam e se divertiam com roupas feitas por ela.15

 


1 Muriel BARBERY. A elegância do ouriço. Tradução de Rosa Freire D’Aguiar. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p.307

2 Clarice LISPECTOR. Perto do coração selvagem. Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p.92.

3 Milton HATOUM.  Cinzas do norte. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p.24.

4 J.K. ROWLING. Harry Potter e a pedra filosofal. Tradução de Lia Wyler. Rio de Janeiro: Rocco, 2000, p.137.

5 Bill WATERSON. Calvin e Haroldo – E foi assim que tudo começou. Tradução de Luciano Machado e Adriana Schwartz. São Paulo: Conrad, 2010, p, 49.

6 V.S. NAIPAUL. Uma curva no rio. Tradução de Carlos Graieb. São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p.10.

7 Arthur CONAN DOYLE. As aventuras de Sherlock Holmes. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Zahar, p.93.

8 V.S. NAIPAUL. Idem, p.10.

9 Arthur CONAN DOYLE. Idem, p.85.

10 Milton HATOUM.  Idem, p.18.

11 Arthur CONAN DOYLE. Idem, p.85.

12 J.K. ROWLING. Idem, p.25.

13V.S. NAIPAUL. Idem, p.149.

14 Arthur CONAN DOYLE. Idem, p.149.

15 Milton HATOUM. Idem, p.223.

Imagem: “Hair window”, pintura de Michael Landau, ou Kreativmichael.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 55 outros seguidores

%d blogueiros gostam disto: