Archive for the ‘Carlos Ruiz ZAFÓN’ Category

MixLit 69: Encontro

Uma mulher nos abriu a porta. Era a mulher que fazia os serviços da casa.1 Usava um tipo de saia espanhola com muitas cores e uma espécie de bustiê.2 Para tirar o cheiro da gordura da chapa em que trabalhava, ela ensopava de creme rinse o cabelo meio louro, meio preto.3 Parecia realmente maravilhosa.4 Fiquei paralisado.5 O que conversar? Como puxar assunto?6 Eu estava com medo, claro. Sentia medo de, por causa de um movimento infeliz,7 não me dar bem.8 Depressa, homem, depressa – balbuciei, quase sem fôlego.9 Bateu aquele frio na barriga. Respirei profundamente e caminhei10 com um olhar brilhante, impenetrável. Inclinei-me para beijá-la.11

Bruce-French_Darkness-is-the-Absence-of-Light,-Orange– Fora daqui – murmurou.12

– Não.

– Você está pálido.

– Eu sou pálido. Vamos, ande.13 Não vou assustá-la de novo.14

– Você sabe muito bem que tudo vai piorar.15

Eu estava entregando os pontos. Teria entregado os pontos se não fosse uma voz que se fez ouvir no meu coração. Essa voz dizia:16 ela precisava da minha companhia.17

– Quando voltarei a vê-la?

– Telefono para você amanhã ou depois – disse ela.18

O meu rosto assumiu uma expressão severa e determinada.19

– Promete?

Ela assentiu.

– Pode ligar para a minha casa ou a livraria. O número é o mesmo. Você tem, não é?20

Marquei de pegá-la na saída do trabalho.21

Nunca mais nos encontramos.22


1 João Gilberto NOLL. Hotel Atlântico. Em: Romances e contos reunidos. São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p.408.

2 Meg CABOT. O diário da princesa, Vol.1. Tradução de Fabiana Colasanti. Rio de Janeiro: Record, 2002, p.136.

3 Marcus Vinícius FAUSTINI. Guia afetivo da periferia. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2009, p.86.

4 Meg CABOT. Idem.

5 Carlos Ruiz ZAFÓN. A sombra do vento. Tradução de Marcia Ribas. Rio de Janeiro: Suma de Letras/Objetiva, 2007, p.256.

6 Thalita REBOUÇAS. Ela disse, ele disse. Rio de Janeiro: Rocco, 2010, p.9.

7 Ricardo LÍSIAS. Anna O. e outras novelas. São Paulo: Globo, 2007, p.16.

8 Meg CABOT. Idem.

9 Yann MARTEL. As aventuras de Pi. Tradução de Maria Helena Rouanet. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012, p.180.

10 Thalita REBOUÇAS. Idem.

11 Carlos Ruiz ZAFÓN. Idem, p.257.

12 Carlos Ruiz ZAFÓN. Idem, p.256.

13 Carlos Ruiz ZAFÓN. Idem.

14 Rick RIORDAN.  Percy Jackson e os Olimpianos – O mar de monstros.  Tradução de Ricardo Gouveia. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2009, p.278.

15 Rick RIORDAN. Idem.

16 Yann MARTEL. Idem.

17 Thalita REBOUÇAS. Idem.

18 Carlos Ruiz ZAFÓN. Idem.

19 Yann MARTEL. Idem.

20 Carlos Ruiz ZAFÓN. Idem, p.257.

21 Marcus Vinícius FAUSTINI. Idem.

22 Marcus Vinícius FAUSTINI. Idem.
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Este MixLit foi feito com os livros escolhidos para as seis oficinas de remix literário que dei durante a semana de dia das crianças no SESC Barra Mansa, Rio de Janeiro. Aproximadamente 100 estudantes, de 8 a 15 anos, remixaram essas mesmas páginas, montando seus próprios textos a partir das mesmas fontes.

MixLit 22: Bea, eu e meu esporte favorito

Diziam sempre que eu não era confiável. Ele não é confiável. Ele tem problemas de personalidade e higiene. Ele anda de um jeito, sei lá, esquisito.(1) Sinto que me torno obscuro. Seguramente, seriam necessários alguns termos definitivos para que pudesse explicar-me, termos que, por serem científicos, não chegam a ser impróprios. Mas não os empregarei. Não imagines que eu os receie: não se deve ter medo das palavras desde o momento em que se tenha consentido com os atos.(2) Só gosto de ler. Meu único esporte. Não faço ginástica. Leão não faz ginástica, dizia San Tiago. Então leio. Assim mesmo, leio pouco, menos do que devia, do que queria. Sem método.(3) A partir do dia em que descobri a biblioteca de aluguel de Sylvia Beach, li todo o Turgueniev, tudo o que havia de Gogol em inglês, as traduções de Tolstói feitas por Constance Garnett e as traduções de Tchekhov publicadas na Inglaterra.  Em Toronto, muito antes de virmos para Paris, haviam-me dito que Katherine Mansfield era uma boa contista, talvez mesmo uma grande contista; o diabo é tentar lê-la depois de Tchekhov. É como comparar as histórias bem arrumadinhas de uma solteirona com os contos de um clínico que fosse também bom escritor e tivesse estilo simples e direto. Antes beber água do que tomar a cerveja choca de Masnfield. (4)

Bea e eu agora tomamos conta da livraria. Eu fiquei com as contas e os números. Bea faz as compras e atende aos clientes, que a preferem a mim. Não os culpo.(5)

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1. Don DELILLO. Cosmópolis. 2003. Tradução de Paulo Henriques Britto. Companhia das Letras. São Paulo. 2003, PP.59,60.

2. Marguerite YOURCENAR. Alexis ou O tratado do vão combate. 1929. Tradução de Martha Calderaro. Nova Fronteira. Rio de Janeiro. 1981, 2ª edição, p.31.

3. Otto LARA RESENDE. O príncipe e o sabiá. 1994. Companhia das Letras. São Paulo.  1994, p.298.

4. Ernest HEMINGWAY. Paris é uma festa. 1964. Tradução de Ênio Silveira. Bertrand Brasil. Rio de Janeiro. 2006, 8ª edição, p.151.

5. Carlos Ruiz ZAFÓN. A sombra do vento. 2001. Tradução de Marcia Ribas. Suma de Letras/Objetiva. Rio de Janeiro. 2007, p.396.

Imagem: George Fisherman, mosaico “Faces of flower avenue”, detalhe “reading man”, 1991: http://web.me.com/georgefishman/commissioned_projects/public_art/faces_of_flower_avenue/fishmanfacesdetail.html

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