Archive for the ‘Saul BELLOW’ Category

MixLit 68: Os espaços

Ela, prazerosa, no esplendor do seu sorriso1 costumava dizer: “A vida é espantosamente curta.2 Você chegou a tempo de eu perceber que não deveria desistir.”3

Não deu certo.4 MixLit 68 - imagem

Senti que estávamos separados não há três meses, mas há três anos. Pensei em como seria difícil conhecer outra pessoa, descobrir outro corpo, sem brotoejas na nuca, sem cicatriz na perna, sem manchas de sol nas costas, sem calos nos dedos.5

As pessoas separam, seguem sua vida, se mudam.6 As mulheres deixam de amar.7 Uma coisa que eu não aprenderia nunca.8

Pelo menos estou tentando resolver isso…9  

Dar nomes para o espaço entre as coisas.10

Estou tentando!11

 


1 ONDJAKI. E se amanhã o medo. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2010, p.73.

2 Franz KAFKA. Um médico rural. Tradução de Modesto Carone. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p.40.

3 Paulo SCOTT. Habitante irreal. Rio de Janeiro: Objetiva/Alfaguara, 2011, p.215.

4 Saul BELLOW. Herzog. Tradução de José Geraldo Couto. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p.67.

5 Danielle SCHLOSSAREK. Irene na multidão. Rio de Janeiro: Oito e meio, 2013, p.19.

6 Dash SHAW. Umbigo sem fundo. Tradução de Érico Assis. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, sem número de página, início da “Parte 2”.

7 Saul BELLOW. Idem, p.65.

8 Laura ERBER. Esquilos de Pavlov. Rio de Janeiro: Objetiva/Alfaguara, 2013, p.113.

9 Dash SHAW. Idem.

10 Waltercio CALDAS. Manual da ciência popular. São Paulo: Cosac Naify, 2007, página sem número, seção “21 – A estória da arte”.

11 Dash SHAW. Idem, página seguinte à usada anteriormente.

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MixLit 37: Em busca da franqueza

Ao acordar, ao invés de sentir-me aliviado, eu enxergava o meu crime, sem as cores do delírio. Levantei. Andei pelos cantos1. Entre seres humanos só há duas alternativas, a fraternidade ou o crime2. “Procure equilíbrio em tudo”3? – humilhações em que eu via minha simples vontade contrariada, ferida por uma espécie de zombaria4. Digo isto porque certas vezes5, meu peito ardendo de falta de ar6, eu me via pronunciando palavras que pareciam ainda mais sinceras do que meus pensamentos7. E eu era a maldade em pessoa, eu era muitas maldades numa pessoa só8. É possível isso?9 Quem nos conhece neste lugar? Quem dará crédito às coisas que dissermos?10

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1 Ronaldo CORREIA DE BRITO. Galileia. Alfaguara/Objetiva. Rio de Janeiro. 2008, p.148.

2 Saul BELLOW. Henderson, o rei da chuva. Tradução de José Geraldo Couto. Companhia das Letras. São Paulo. 2010, p.101.

3 Açúcar UNIÃO Premium. Embalagem de 60 gramas. Cosan Alimentos S.A. São Paulo. Data de validade: 2012.

4 Rubens FIGUEIREDO. O livro dos lobos. Companhia das Letras. São Paulo. 2009, p.125.

5,7,9 Mario BENEDETTI. A trégua. Tradução de Joana Angélica D’Avila Melo. Alfaguara/Objetiva. Rio de Janeiro. 2007, p.127.

6,8 José REZENDE JR. Eu perguntei pro velho se ele queria morrer (e outras estórias de amor). 7Letras. Rio de Janeiro. 2009, p.12/27

10 PETRÔNIO. Satyricon. Século I. Tradução de Sandra Braga Bianchet. Crisálida. Rio de Janeiro. 2004, edição bilingue, p.25.

Imagem: From Roee Rosen, Live and Die as Eva Braun, The Israel Museum, 1997, Quoted in Death’s Showcase, Ariella Azoulay, ©2001 MIT Press

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