Archive for the ‘André DE LEONES’ Category

MixLit 64: Ela com os dela, eu com os meus

Apoiando o dorso das mãos na testa e ronronando impaciente1, Beatriz enfim ergueu os olhos atentos do papel amarelo – ela acabava de ler a expressão2 todo muro é um tanto confuso3. Pronuciava a frase diante do espelho em voz baixa4 e com as próprias palavras ia-se excitando. Os olhos brilhavam5 metidos à procura de um ponto fixo, abstrato, que a fizesse encontrar uma resposta para uma pergunta sem resposta6, à espera de que alguma coisa, qualquer coisa, acontecesse7.

Fingi mais uma vez que não via nada8. Falei que ia embora9.

Quietos estamos salvos10, cada qual com seus demônios11.









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1 Daniel GALERA. Dentes guardados. Rio Grande do Sul: Livros do Mal, 2004, p.9.

2 Cristovão TEZZA. Um erro emocional. Rio de Janeiro: Record, 2010, p.57.

3 Ricardo DOMENECK. A cadela sem Logos. Rio de Janeiro/São Paulo: 7Letras/Cosac Naify, 2007, p.98.

4 Bernardo AJZENBERG. Olhos secos. Rio de Janeiro: Rocco, 2010, p.11.

5 Luandino VIEIRA. A cidade e a infância. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p.40.

6 Valter HUGO MÃE. A máquina de fazer espanhóis. São Paulo: Cosac Naify, 2011, p.146.

7 André DE LEONES. Dentes negros. Rio de Janeiro: Rocco, 2011, p.36.

8 Bruna BEBER. “Baixo orelhão”. Em: Liberdade até agora – uma antologia de contos. Organização de Eduardo Coelho e Márcio Debellian, Rio de Janeiro: Móbile, 2011, p.45.

9 Luiz RUFFATO. O livro das impossibilidades. Rio de Janeiro: Record, 2008, p.75.

10 Laura ERBER. Os corpos e os dias. São Paulo: Editora De Cultura, 2008, p.49.

11 José REZENDE JR. Eu perguntei pro velho se ele queria morrer. Rio de Janeiro: 7Letras, 2009, p.70.

Este MixLit com apenas autores de língua portuguesa foi publicado sob o título de “E o muro se ilumina” na terceira edição da Revista Pessoa.

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MixLit 24: O papel de cada um

-Para sabê-lo tenho de ver você inteira. Inteira. Tenho de ver você nua. Com o máximo de detalhes. Você diz que sofreu um acidente. Diz que manca um pouco. Um pouco. Mas não me deixa ver quão pouco é esse pouco. Queria ver essa perna ferida. Como ficou. Ver seus peitos. Sua boceta(1).

Fabiana pensa em sua boceta. No que fazer com ela depois de sacá-la assim, como do nada. O que exigir dela. O que colocar nela(2). Verdade é que bastava observar aquela carne transpirante e sadia, aqueles pulsos rijos e cabeludos, aquele peito largo, aquele pescoço nervoso e duro, para que a gente fizesse logo uma idéia justa do que seria capaz o Borges em matéria de força muscular(3).

Ajeitou o vestido. Vindo ao seu encontro, sorriu, como se dissesse: tudo bem(4), este é meu papel no filme(5).

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1. Javier MARÍAS. Coração tão branco. 1992. Tradução de Eduardo Brandão. Martins Fontes. São Paulo. 1995, p.177.

2. André DE LEONES. Hoje está um dia morto. 2006. Record. Rio de Janeiro. 2006, p.19.

3. Aluísio AZEVEDO. Filomena Borges. Sem data. Martins. São Paulo. 1960, p.11.

4. Luiz Antonio de ASSIS BRASIL. A margem imóvel do rio. 2003. L&PM. Rio Grande do Sul. 2003, p.101.

5. Jack KEROUAC. Tristessa. 1960. Tradução de Edmundo Barreiros. L&PM. Rio Grande do Sul. 2006, p.101.

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