Archive for the ‘Angélica FREITAS’ Category

MixLit 70: Mudança

Homens célebres visitam a cidade                                                           rebatedor-circular-5x1_1_
Obrigatoriamente exaltam a paisagem1
As luzes cinéticas das avenidas
O vulto ao vento das palmeiras
E a ânsia insaciável dos jasmins2    

Tudo igual
Tudo rebocado
Só muda a cor3

Por muito tempo o tempo não passa4
O poema bom
O poema ruim5

Vou vestir as roupas da coleção do inverno passado6
Se um dia eu tiver que voltar
Para o lugar de onde vim7

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1 Carlos Drummond de ANDRADE. Sentimento do mundo. Companhia das Letras, 2012, p.45.
2 Antonio CÍCERO. A cidade e os livros. Record, 2002, p.77.
3 Angélica FREITAS. Um útero é do tamanho de um punho. Cosac Naify, 2012, p.45.
4 Leda CARTUM. As horas do dia – Pequeno dicionário calendário. 7Letras, 2012, p.46.
5 Nicolas BEHR. Meio seio. Língua Geral, 2012, p.50.
6 Ricardo DOMENECK. a cadela sem Logos. 7Letras/Cosac Naify, 2007, p.95.
7 
Fabrício CORSALETTI. Esquimó. Companhia das Letras, 2010, p.49.

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MixLit 54: Uma ida à vida

Aqui o público entra e diz: VEJAMOS A CENA.

O morto responde: Eis1 o verdadeiro método para chegar ao conhecimento de todas as coisas2: Deus desistiu? Não resta nada para nós a não ser derramar nosso próprio sangue?3 De que estava Deus querendo nos lembrar? Não sou pessoa que precise ser lembrada de que dentro de tudo há sangue. Não só não esqueço o sangue de dentro como eu o admito e o quero, sou demais o sangue para esquecer o sangue, e para mim a palavra espiritual não tem sentido4, uma mistificação colossal5, e nem a palavra terrena6. Mas a verdade é que7 depois de dias fechados, uma manhã de bom tempo8, vacas aparando a grama, galinhas arregaladas9, brilho e sutileza da atmosfera: uma seda fresca e luminosa; este momento vazio (nenhum significado) produz uma evidência: vale a pena viver10. Mas não é lá um conselho que eu siga11. A estadia foi boa12, mas ela foi também forçosamente monótona13.

A essa altura, então, na peça bem desenvolvida (e, talvez, na vida honestamente analisada)14 estaremos livres para suspirar ou lamentar. E aí poderemos ir para casa15.

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1 Valère NOVARINA. Diante da palavra. Tradução de Ângela Leite Lopes. Rio de Janeiro: 7 Letras. 2009, p.29.

2 René DESCARTES. “Discurso do método”, em Descartes – Vida e obra, coleção Os pensadores. Tradução de Enrico Corvisieri. São Paulo: Nova Cultural, 1999, p.48.

3 Toni MORRISON. Amada. Tradução de José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p.257.

4 Clarice LISPECTOR. Felicidade clandestina. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1998, conto: Perdoando Deus, p.42.

5 Nelson RODRIGUES. O beijo no asfalto.Em: O teatro completo de, 4 – Tragédias cariocas II. 1961-1978. Nova Fronteira. Rio de Janeiro. 1990, p.143.

6 Clarice LISPECTOR. Idem, p.42.

7 Angélica FREITAS. Rilke-shake. Rio de Janeiro/São Paulo: 7Letras/Cosac Naify, 2006, p.28.

8 Roland BARTHES. A preparação do romance, vol.1. Tradução de Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Martins Fontes, 2005, p.99.

9 Angélica FREITAS. Idem, p.20.

10 Rolanda BARTHES. Idem, p.99.

11 Bruno AZEVÊDO. Breganejo Blues – novela trezoitão. Maranhão: Pitomba, 2009, p.48.

12 Bernardo AJZENBERG. Olhos secos. Rio de Janeiro: Rocco, 2011, p.9.

13 Bernardo AJZENBERG. Idem.

14 David MAMET. Três usos da faca. Tradução de Paulo Reis. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001, p.77.

15 David MAMET. Idem.

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