Mixlit 7: Corte no mundo

Tudo na cidade continuava como antes – o exército no quartel, as fotografias do presidente por todo lado, o vapor realizando suas viagens regulares vindo da capital. Mas os homens haviam perdido ou rejeitado a idéia de uma autoridade vigilante(1). O pelotão que saía à noite para proteger o quartel, alapado nas matas rasas que cresciam, amarelentas, na areia, torcidas de anemia, aproximava-se no escuro, passava sob a lâmpada coberta de um abajur de insectos, dispersava-se sem ruído nas cabanas das casernas, onde a profundidade do sono se media pela intensidade do cheiro dos corpos, amontoados ao acaso como nas fossas de Auschwitz, e eu perguntava ao capitão O que fizeram do meu povo(2).

Desci a viela bêbado a ponto de precisar me apoiar na parede das casas, a maioria pintada de branco, uma afronta ao pó avermelhado daquele lugar(3). Nossas janelas estavam escuras. A entrada estava vazia. Entrei caminhando junto à parede da esquerda, mas não havia ninguém: só a escada subindo em curva na sombra ecos de passos de gerações tristes como poeira leve sobre as sombras, meus passos a despertá-las como pó, que depois descia, leve, outra vez. Vi a carta antes mesmo de acender a luz, em pé, apoiada num livro sobre a mesa, para que eu a visse:(4)

“Se a voz de uma mulher que conta histórias tem o poder de trazer crianças ao mundo, é também verdade que uma criança tem o poder de dar vida a histórias. Dizem que um homem ficaria louco se não pudesse sonhar à noite. Do mesmo modo, se não é permitido a uma criança entrar no…”(5)

Ouviu?, é tiro, vamos lá!(6)

____________________

1. V.S. NAIPUL. Uma curva no rio. 1979. Tradução de Carlos Graieb. Companhia das Letras. São Paulo. 2004, pg.239.

2. Antonio LOBO ANTUNES. Os cus de Judas.  1979. Alfaguara – Objetiva. Rio de Janeiro. 2007, 2ª edição, pg.54.

3. Marçal AQUINO. Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios. 2005. Companhia das Letras. São Paulo. 2009, 4ª reimpressão, pg.78.

4. William FAULKNER. O som e a fúria. 1929. Tradução de Paulo Henriques Britto. Cosac & Naify. São Paulo.2003, pg.166.

5. Paul AUSTER. A invenção da solidão. 1982. Tradução de Rubens Figueiredo. Companhia das Letras. São Paulo. 1999, pg.172.

6. Luiz RUFFATO. Eles eram muitos cavalos. 2001. Boitempo editorial. São Paulo. 2002, 2ª edição, pg 143.

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One response to this post.

  1. Posted by Vinicius on 13 13UTC abril 13UTC 2010 at 0:19

    fala amigão adorei a idéia…vc sempre orginal, mesmo quando copia!
    minha crítica: não gostei do terceiro trecho, achei que ficou fora do tom dos outros.
    abraços

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