Archive for the ‘Walt WHITMAN’ Category

MixLit 59: A criança está para chegar

Tomando nosso café com torradas1, Maria olhava-me e ria2 sugerindo nomes (para meninos)3. Eu me levantei, pedi desculpas bestamente e4 saí à rua5. Durante a caminhada6, senti que um medo irracional e perturbador começou a me percorrer7.

Um filho?8 Meu filho9. O filho é a imagem mais próxima da ideia de destino, daquilo de que você não escapa. Ou daquilo de que você não pode escapar? Por quê? Por que eu não posso tomar outro rumo?10 Não conquistei nada11. Um derrotado na vida12. Quem não pode cumprir os deveres de pai não tem direito de tornar-se pai13.

– E se eu for um homem mau? – falei, e claro, me senti imediatamente desastrado14 – Não, não pode ser assim – disse15 – O que é que me tortura?16

Andei devagar para ganhar tempo17. Maria18 me aguardava andando pelo gramado, veio me abrir o portão19 e caminhou descalça até onde eu estava20. Tinha as faces vermelhas e molhadas de lágrimas21. Passou a mão na minha cabeça22 sem olhar para mim23 e sussurrou: “Na verdade, estou com um pouco de medo.”24

Cheguei a abrir a boca, e o que eu ia dizer envelheceu de imediato25. Então nos beijamos26.

Quando senti que a porta às minhas costas se fechava, não soube se começava a rir ou se chorava. Respirei aliviado27. Eu não queria mais lutar28. O que tem que ser será bom29.


1 Mario VARGAS LLOSA. Travessuras da menina má. Tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht. Rio de Janeiro: Objetiva, 2006, p.185.

2 e 18 Albert CAMUS. Estado de sítio/O estrangeiro. Tradução de Antonio Quadros. São Paulo: Abril Cultural, 1979, p.211.

3 Lionel SHRIVER. Precisamos falar sobre Kevin. Tradução de Beth Viera e Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2007, p.70.

4 Bernardo AJZENBERG. Olhos secos. Rio de Janeiro: Rocco, 2009, p.29.

5 e 12 Enrique VILA-MATAS. Doutor Pasavento. Tradução de José Geraldo Couto. São Paulo: Cosac Naify, 2009, p.189.

6 Herman HESSE. Sidarta. Tradução de Herbert Caro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1973, p.42.

7 Raymond CARVER. Iniciantes. Tradução de Rubens Figueiredo. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.83.

8 e 23 Milton HATOUM. Cinzas do Norte. São Paulo: Companhia das letras (de bolso), 2010, p.45 e p.13.

9 e 13 Jean-Jacques ROUSSEAU. Emílio ou Da educação. Tradução de Roberto Leal Ferreira. Rio de Janeiro: Martins Fontes, 2004, p.297 e p.27.

10 Cristovão TEZZA. O filho eterno. Rio de Janeiro: Record, 2010, p.41.

11 e 26 Roberto BOLAÑO. Estrela distante. Tradução de Bernardo Ajzenberg. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.142 e p.139.

14 João Gilberto NOLL. Harmada. São Paulo: Francis, 2003, p.96.

15 Leon TOLSTÓI. A morte de Ivan Ilitch. Tradução de Vera Karam. Rio Grande do Sul: L&PM, 2007, p.56.

16 Fernando PESSOA. Ficções do interlúdio. Lisboa: Assírio & Alvim, 2007, p.21.

17 Witold GOMBROWICZ. Cosmos. Tradução de Tomasz Barcinski e Carlos Alexandre Sá. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p.79.

 19 Raduan NASSAR. Um copo de cólera. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p.9.

20 Philip ROTH. Adeus Columbus. Tradução de Paulo Henriques Britto. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p.81.

21 Fernando SABINO. Duas novelas de amor. São Paulo: Ática, 2002, p.35.

22 Jorge AMADO. Capitães de areia. Rio de Janeiro: Record, 1996, p.54. 

23 Ian MCEWAN. Na praia. Tradução de Bernardo Carvalho. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p.68.

25 Adriana LUNARDI. A vendedora de fósforos. Rio de Janeiro: Rocco, 2011, p.80.

26 Marçal AQUINO. Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.228.

28 Clarice LISPECTOR. A paixão segundo G.H. Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p.88.

29 Walt WHITMAN. Folhas de relva. Tradução de Rodrigo Garcia Lopes. São Paulo: Iluminuras, 2008, p.153.

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MixLit 36: Piada no exílio

Aquilo tinha de ser uma piada, ele carregou os dois canos. Era um homem com senso de humor. Um gozador. Não se podia confiar em tal homem, um curinga no baralho1.

Estirado na areia, cochilo. É uma tarde de sol. Outra vez, as aves, que dançam sobre minha cabeça2 lentamente. A claridade da luz brinca num matiz de cinza, verde e marrom3.

Por que estamos aqui? Sei lá! Culpa dele4, meu tio comunista, exilado no mato. “É a revolução” – dizia mamãe5.

Passaram-se dias?

Anos?6

Cheguei até a sonhar essa cena, e nossa família me pareceu como a pequena corte do rei Jaime II, em exílio na costa de Haia7.

Ainda não me dei um tiro, como fez meu tio8. Uma das razões para isso é que sou preguiçoso demais – ou orgulhoso demais – para fazê-lo, a despeito de qualquer noção de “segurança”9. No entanto10, tenho curiosidade11. A ideia do suicídio é um poderoso consolo: ela ajuda a passar mais de uma noite ruim12.

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1 Joyce Carol OATES. Descansa em paz. Tradução de Eliza Nazarian. Leya. São Paulo. 2010, p.193.

2 José CASTELLO. Ribamar. Bertrand Brasil. Rio de Janeiro. 2010, p.90.

3 Walt WHITMAN. Folhas de Relva. 1855. Tradução de Rodrigo Garcia Lopes. Edição bilingue. Iluminuras. São Paulo. 2008, p.55.

4 Felipe PENA. O marido perfeito mora ao lado. Record. Rio de Janeiro. 2010, p.13.

5 Joca Reiners TERRON. Curva de rio sujo. Planeta. São Paulo. 2003, p.15.

6 Anne RICE. Violino. 1997. Tradução de Mário Molina. Rocco. Rio de Janeiro. 1999, p.203.

7 W.G. SEBALD. Os anéis de Saturno. 1995. Tradução de José Marcos Macedo. Companhia das Letras. São Paulo. 2010, p.57.

8 H.P. LOVECRAFT. A sombra de Innsmouth. 1931. Tradução de Guilherme da Silva Braga. Hedra. São Paulo. 2010, p.119.

9 Woody ALLEN. Em: Grandes diretores de cinema – entrevistas de Laurent Tirard. Tradução de Marcelo Jacques de Moraes. Nova Fronteira. Rio de Janeiro. 2006, p.86.

10 Deepak CHOPRA. Corpo sem idade, mente sem fronteiras – a alternativa quântica para o envelhecimento. 1993. Tradução de Haroldo Netto. Rocco. Rio de Janeiro. 1994, p.18.

11 Fernando PESSOA. Trecho de uma fala sua, reproduzido no site “Pensador”: http://www.pensador.info/curiosidade/2/

12 Friedrich NIETZSCHE. Além do Bem e do Mal. 1886. Tradução de Antônio Carlos Braga. Escala. São Paulo. 2007, p.91.

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