Archive for the ‘Neil GAIMAN’ Category

MixLit 52: A uma distância segura

Fechou o chuveiro, pegou a toalha1. Enorme, apareceu resmungando. Disse:

– O que está se passando?2

– Não consigo ficar bem com o sono. Mesmo tudo parecendo claro…3 A miragem, a alucinação, o sonho…4 Eu não faço idéia, pai. Podem ser muitas coisas5.

Os dois ficaram pensativos6.

– Por favor, não vá embora!7

O pai, sem pronunciar uma única palavra, pôs-se a andar de um lado para o outro8 num silêncio inquietante9, dirigindo-se até a janela da sala em busca de ar puro. Abriu-a violentamente, com gesto enérgico, quase que num ato de protesto silencioso contra o filho, que com um par de frases afundara toda sua vida dedicada com sucesso a10 cancelar11 o aumento da intimidade entre os dois12.

Olhou para as montanhas mais além de Lordsburg. Observando13, ficou sozinho com vontade de estar em algum lugar onde alguém gostasse dele14.

E voltou15.


1 Marçal AQUINO. Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios. Sã o Paulo: Companhia das Letras, 2009, pg.134.

2 Neil GAIMAN. Cabelo doido. Tradução de Leonardo Villa-Forte. Rio de Janeiro: Rocco, 2010, p.34.

3 Nira KAUFMAN. “Sonho”, em: Ar comprimido. São Paulo: Escola da Vila, 2001, p.73.

4 Michel TOURNIER. Sexta-feira ou Os limbos do pacífico. Tradução de Fernanda Botelho. São Paulo: Difel, 1985, p.48.

5 Antônio XERXENESKY. Areia nos dentes. Rio de Janeiro: Rocco, 2010, p.62.

6 Idem, p.57.

7 Maurice SENDAK. Onde vivem os monstros. Tradução de Heloisa Jahn. São Paulo: Cosac Naify, 2009, p.32.

8 Hermann BROCK. Pasenow ou O Romantismo, em: Os sonâmbulos. Tradução de Wilson Hilário Borges. São Paulo: Germinal, 2003, p.15.

9 Idem, p.13.

10 Enrique VILA-MATAS. A viagem vertical. Tradução de Laura Janina Hosiasson. São Paulo: Cosac Naify, 2010, p.42.

11 Ian McEWAN. Solar. Tradução de Jorio Dauster. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p.20.

12 Mallanaga VATSYAYANA. Kama Sutra. Tradução de Waltensir Dutra da versão cá·ssica de Richard Burton. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, p.146.

13 Ian McEWAN. Idem, p.308.

14 Maurice SENDAK. Idem, p.30.

15 Hermann BROCK. Idem, p.31.

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MixLit 45: Como acumular

No caminho de volta, a vida real me pegou. Liguei meu telefone. Havia mensagens. Fiquei surpreso ao ouvir1: mamãe chora e fala, mamãe fala e chora. Mamãe fala chorando e chora falando. Mamãe chorando realiza longas frases que não querem mais acabar, e se elas não me dissessem respeito, seriam belas. Mas elas são pesadas2: “Meu anjo, meu doce amor. Como é que fomos nos separar assim? Onde foi que nos perdemos?”3

Pronto, começou o chororô, pensei na minha indignação4 e5, chutando pedras, pisando na merda6, logo cheguei em casa.

Meus pais não estavam preocupados, embora tivessem se irritado com o pó laranja de ferrugem nas minhas roupas e o rasgo no meu calção. – Por onde você andou, afinal? – minha mãe perguntou.

– Fui fazer uma caminhada – falei. – Me esqueci da hora7.

Não fez comentário algum. Beijou-me, apenas, dizendo que esperava que eu me divertisse8.

E deixamos a coisa por isso mesmo9.

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1 David FOENKINOS. Quem se lembra de David Foenkinos? Tradução de Rejane Janowitzer. Rio de Janeiro: Rocco, 2009, p.69.

2 Herta MÜLLER. Depressões. Tradução de Ingrid Ani Assmann. São Paulo: Globo, 2010, p.88.

3 Carlos Eduardo LEAL. A última palavra. Rio de Janeiro: Rocco, 2009, p.27.

4 Cláudia LAGE. Mundos de Eufrásia. Rio de Janeiro: Record, 2009, p.22.

5 Neil GAIMAN. Coisas frágeis 2. Tradução de Michele de Aguiar Vartuli. São Paulo: Conrad, 2009, p.61.

6 Pola OLOIXARAC. As teorias selvagens. Tradução de Marcelo Barbão. Rio de Janeiro: Benvirá, 2011, p.188.

7 Neil GAIMAN. Idem.

8 W. SOMERSET MAUGHAN. O fio da navalha. Tradução de Lígia Junqueira Smith. São Paulo: Globo de bolso, 2009, p.166.

9 Neil GAIMAN. Idem.

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