Archive for the ‘João DO RIO’ Category

MixLit 46: Inventar a terra

Depois de ter transformado a sua casa na vila, em Amarante, num verdadeiro museu etnológico de Angola, tendo consumido em vão essa fúria que o movia desde pequeno, João Teixeira de Vasconcelos pôs-se a escrever o África vivida, que termina desta forma1:

“Já fui um rapaz e já fui uma jovem, já fui um arbusto e já fui um pássaro da floresta, assim como já fui um peixe mudo do mar2. O mundo vive, mesmo de outra maneira3.”

Pela sua expressão atenciosamente irônica entendi que ele não estava interessado4 naquele interior familiar5, na nossa terra6, em ninguém do mundo que freqüentava7.

João baixou a cabeça no peito8:

– Você acha que meu livro está pronto, Celeste?9

– Acorda, homem, que estás na tua terra!10 Que obsessão mais deselegante11. Um livro grosso assim…12 Para quem você escreveu isso?13

Confuso e aflito consigo, eriçado de interrogações, de dúvidas, de escrúpulos14, apenas desdenhou15:

– A curiosidade, essa estranha força que nos empurra para diante, mesmo quando todos os sentidos nos dizem para recuar, a curiosidade há-de levá-lo longe – eventualmente até o abismo16.

– Estas banalidades!17 Tudo na nossa terra é extraordinário18. Você é que deu pra implicar19. Tem os terrenos mais férteis do mundo…20

– Que valem, portanto? Nada!… E nada, nada e nada milhões de vezes nada21.

João22 olhou para o mato sem saber o que fazer23. Percorria o globo e os planetas dentro de poucos minutos24, em silêncio25, em imaginação26. Começou a andar27.

– Adeus; tenho ainda que ver umas coisas que me faltam para logo à noite28.

Foi-se e não voltou29. Nunca mais30.

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TEXTO E IMAGEM PUBLICADOS ORIGINALMENTE NA REVISTA PESSOA, EDIÇÃO 1, EM NOVEMBRO DE 2010.

1 Miguel SOUSA TAVARES. Não te deixarei morrer, David Crockett. Nova Fronteira. Rio de Janeiro, 2005, p.162.
2 Lygia FAGUNDES TELLES. Conspiração de nuvens. Rocco. Rio de Janeiro, 2007, p.96.
3 Pedro ROSA MENDES. Baía dos Tigres. Sá/Rosari. São Paulo, 2001, p.88.
4 Lygia FAGUNDES TELLES. Conspiração de nuvens. Rocco. Rio de Janeiro, 2007, p.96.
5,6,7 Lima BARRETO. Triste fim de Policarpo Quaresma. Ática. São Paulo, 1993, p.106, p.75 e p.39.
8 Dalton TREVISAN. 33 contos escolhidos. Record. Rio de Janeiro, 2005, p.137.
9 Lúcia BETTENCOURT. A secretária de Borges. Record. Rio de Janeiro, 2006, p.117.
10 Eça de QUEIRÓS. A cidade e as sereias. Villa Rica. Belo Horizonte/Rio de Janeiro, 1994, p.101.
11 Reinaldo MORAES. Tanto faz. Brasiliense. São Paulo, 1982, p.140.
12 Machado de ASSIS. A idéia de Ezequiel Maia. Domínio público. Arquivo no site do Domínio Público, Brasil, p.6.
13 Cristovão TEZZA. Juliano Pavollini. Record. Rio de Janeiro, 2010, p.122.
14 António LOBO ANTUNES. Memória de elefante. Dom Quixote. Lisboa, 2007, p.45.
15 Luiz Antonio de ASSIS BRASIL. A margem imóvel do rio. L&PM. Porto Alegre, 2003, p.111.
16 José Eduardo AGUALUSA. Um estranho em Goa. Gryphus. Rio de Janeiro, 2010, p.154.
17 João do RIO. A alma encantadora das ruas. Domínio público. Arquivo no site do Domínio Público, Brasil, p.125.
18,19,20 Lima BARRETO. Triste fim de Policarpo Quaresma. Ática. São Paulo, 1993, p.105, p.27 e p.74.
21 João do RIO. A alma encantadora das ruas. Domínio público. Arquivo no site do Domínio Público, Brasil, p.125.
22 Dalton TREVISAN. 33 contos escolhidos. Record. Rio de Janeiro, 2005, p.137.
23 José Claudio da SILVA. Pai, posso dar um soco nele?. Casa do Novo Autor. São Paulo, 2003, p.7.
24 Machado de ASSIS. A idéia de Ezequiel Maia. Domínio público. Arquivo no site do Domínio Público, Brasil, p.2.
25 Olavo BILAC. Via-Láctea. Domínio público. Arquivo no site do Domínio Público, Brasil, p.2.
26 João Batista ALMEIDA GARRET. Viagens na minha terra. Domínio público. Arquivo no site do Domínio Público, Brasil, p.13.
27 José Claudio da SILVA. Pai, posso dar um soco nele?. Casa do Novo Autor. São Paulo, 2003, p.7.
28 Artur AZEVEDO. Viagem ao Parnaso. Domínio público. Arquivo no site do Domínio Público, Brasil, p.35.
29,30 João Batista ALMEIDA GARRET. Viagens na minha terra. Domínio público. Arquivo no site do Domínio Público, Brasil, p.13 e p.32.

IMAGEM: Desenho de Maria Beatriz Machado: http://www.flickr.com/photos/mariabiamachado

MixLit 44: Contribuição para a vida

Comi-a com os olhos e disse a ela que não se mexa, porque queria detê-la nem que fosse um instante para sempre. A única coisa que eu temia era que passasse alguém, uma senhora de idade média (ou de classe média) e notasse minha turgência, minha urgência1.

– Entre – chamou2 – Entre, formosura3. O senhor está sem cor. Se sente mal?

– Já vai passar.

– Quer um cigarro?

– Não, não. Não, obrigado4. O que é isso?

– Dinheiro para o seu jantar.

– Desculpe, deve haver algum engano.

– Sei que é pouco, mas é tudo que tenho, senhor5. – E, com isso, cerrou os olhos6. –  O que o senhor esperava?7

Ela derrotou totalmente meus Nervos8. Segunda ordem. Sempre damos nisso se isolamos a dimensão amorosa do ato9. Voltei para casa, sentindo-me inteiramente adulto e capaz de assentar minha vida no lugar a que pertenço10: eu amo a rua11, a agasalhadora da miséria12.

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1 Guillermo CABRERA INFANTE. A ninfa inconstante. Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p.77.

2 Heinrich BÖLL. O anjo silencioso. Tradução de Karola Zimber. São Paulo: Estação Liberdade, 2004, p.129.

3 Menotti del PICCHIA. “A mulher que pecou”. Em: Mário de Andrade – Seus contos preferidos. Org. de Luiz Ruffato. Rio de Janeiro: Tinta Negra, 2011, p.205.

4 Edney SILVESTRE. Se eu fechar meus olhos agora. Rio de Janeiro: Record, 2009, p.250.

5 Manoela SAWITZKI. “Jardin des Tuileries”. Em: Escritores escritos. Org. de Victoria Saramago. Rio de Janeiro: Flaneur, 2010, p.17

6 Patrick SÜSKIND. O perfume – história de um assassino. Tradução de Flávio R- Kothe. Rio de Janeiro: Record, 1985, pg.112.

7 Joseph CONRAD. A linha de sombra. Tradução de Guilherme da Silva Braga. Rio de Janeiro: Revan, 2005, p.152.

8 Henry David THOREAU. Walden, ou a vida nos bosques. Tradução de Denise Bottman. Rio Grande do Sul: L&PM, 2010, pg.248.

9 Ismar TIRELLI NETO. “Yann(s)”. Em: Escritores escritos. Org. de Victoria Saramago. Rio de Janeiro: Flaneur, 2010, pg.31

10 Truman CAPOTE. Escritores em ação – As famosas entrevistas à Paris Review. Tradução de Brenno Silveira. Coordenação de Malcolm Cowley. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1968, p.113.

11 João DO RIO. A alma encantadora das ruas. Arquivo do Domínio Público em pdf. Página 1.

12 João DO RIO. Idem. Página 2.

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