MixLit 44: Contribuição para a vida

Comi-a com os olhos e disse a ela que não se mexa, porque queria detê-la nem que fosse um instante para sempre. A única coisa que eu temia era que passasse alguém, uma senhora de idade média (ou de classe média) e notasse minha turgência, minha urgência1.

– Entre – chamou2 – Entre, formosura3. O senhor está sem cor. Se sente mal?

– Já vai passar.

– Quer um cigarro?

– Não, não. Não, obrigado4. O que é isso?

– Dinheiro para o seu jantar.

– Desculpe, deve haver algum engano.

– Sei que é pouco, mas é tudo que tenho, senhor5. – E, com isso, cerrou os olhos6. –  O que o senhor esperava?7

Ela derrotou totalmente meus Nervos8. Segunda ordem. Sempre damos nisso se isolamos a dimensão amorosa do ato9. Voltei para casa, sentindo-me inteiramente adulto e capaz de assentar minha vida no lugar a que pertenço10: eu amo a rua11, a agasalhadora da miséria12.

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1 Guillermo CABRERA INFANTE. A ninfa inconstante. Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p.77.

2 Heinrich BÖLL. O anjo silencioso. Tradução de Karola Zimber. São Paulo: Estação Liberdade, 2004, p.129.

3 Menotti del PICCHIA. “A mulher que pecou”. Em: Mário de Andrade – Seus contos preferidos. Org. de Luiz Ruffato. Rio de Janeiro: Tinta Negra, 2011, p.205.

4 Edney SILVESTRE. Se eu fechar meus olhos agora. Rio de Janeiro: Record, 2009, p.250.

5 Manoela SAWITZKI. “Jardin des Tuileries”. Em: Escritores escritos. Org. de Victoria Saramago. Rio de Janeiro: Flaneur, 2010, p.17

6 Patrick SÜSKIND. O perfume – história de um assassino. Tradução de Flávio R- Kothe. Rio de Janeiro: Record, 1985, pg.112.

7 Joseph CONRAD. A linha de sombra. Tradução de Guilherme da Silva Braga. Rio de Janeiro: Revan, 2005, p.152.

8 Henry David THOREAU. Walden, ou a vida nos bosques. Tradução de Denise Bottman. Rio Grande do Sul: L&PM, 2010, pg.248.

9 Ismar TIRELLI NETO. “Yann(s)”. Em: Escritores escritos. Org. de Victoria Saramago. Rio de Janeiro: Flaneur, 2010, pg.31

10 Truman CAPOTE. Escritores em ação – As famosas entrevistas à Paris Review. Tradução de Brenno Silveira. Coordenação de Malcolm Cowley. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1968, p.113.

11 João DO RIO. A alma encantadora das ruas. Arquivo do Domínio Público em pdf. Página 1.

12 João DO RIO. Idem. Página 2.

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