Archive for the ‘STENDHAL’ Category

MixLit 61: Um jogo

Ele estava no quarto, empurrando roupas para dentro de uma mala, quando ela chegou à porta.

– Estou contente por você estar indo embora, estou contente por você estar indo embora! – disse ela – Está ouvindo?1

– Você estava muito irritada agora há pouco.

– Fui apanhada de surpresa.

– Peço desculpas por isso.2 Meu pensamento esbarra nos seios, nas coxas e ancas das mulheres.3 É muito difícil ser inteligente neste corpo.4 Não é você que tem de suportar isso.5

“Por que ele está me dizendo isso?”, pensou Liôlia.6  Sentiu um duro apertão na traqueia, e7 teve um estremecimento íntimo.8 A tentação de9 beijos cheios de paixão, e tais como nunca recebera, fizeram-na de repente esquecer que talvez ele amasse outra mulher. Dali a pouco já não o considerava culpado.10 Estava jogando algum jogo, no qual precisava mover-se rapidamente11. Curvou-se em cima dele para sussurrar umas últimas palavras em seu ouvido:12

– Se quiser, por muito favor, ficar aqui até à noite, há de ficar calado; ao contrário – rua!13

Ele não respondeu. Foi ela quem se afastou, somente para voltar mais meiga e mais ousada. Tornou-se tão afoita, tão desesperada, que o deixou imaginando se algum dia conhecera a verdadeira natureza de sua mulher.14

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1 Raymond CARVER. Iniciantes. Tradução de Rubens Figueiredo. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.234.

2 Woody ALLEN. Adultérios. Tradução de Cássia Zanon. Rio Grande do Sul: L&PM, 2011, p.63.

3 Murilo MENDES. Poemas e Bumba-meu-Poeta. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989, p.61.

4 Gonçalo M. TAVARES. O homem ou é tonto ou é mulher. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2005, p.31.

5 William FAULKNER. O som e a fúria.  Tradução de Paulo Henriques Britto. São Paulo: Cosac & Naify, 2003, pg.264.

6 Anton TCHECKHOV. Um negócio fracassado e outros contos de humor. Tradução de Maria Aparecida Botelho Pereira Soares. Rio Grande do Sul: L&PM, 2010, p.29.

7 Domingos AMARAL. Quando Lisboa tremeu. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2011, p.18.

8 José de ALENCAR. Lucíola. São Paulo: Ática, 1998, p.119.

9 Jorge Luis BORGES. Discussão. Tradução de Josely Vianna Baptista. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p.42.

10 STENDHAL. O vermelho e o negro. Tradução de Raquel Prado. São Paulo: Cosac Naify. 2008, p.85.

11 Patrick SÜSKIND. O perfume – história de um assassino. Tradução de Flávio R- Kothe. Rio de Janeiro: Record, 1985, p.178.

12 J.M. COETZEE. Vida e época de Michael K. Tradução de José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p.206.

13 Aluísio AZEVEDO. O cortiço. São Paulo: Ática, 1992, p.95.

14 Nathan ENGLANDER. Para alívio dos impulsos insuportáveis. Tradução de Lia Wyler. Rio de Janeiro: Rocco, 2007, p.205.

Imagem: Bruce French, “Darkness is the absence of light”.


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MixLit 42: Oportunidade de trabalho

Uma semana depois, estava de volta ao Brasil1.

Cook ficou assombrado com o tamanho e a forma da Grande Barreira de Recifes, um tipo de estrutura “pouquíssimo conhecida na Europa. Trata-se de uma muralha de rocha de coral elevando-se quase na perpendicular do oceano insondável”2.

Sente no estômago a curiosa sensação que sempre produzem as relíquias de um passado inconcebível3. Mais além, na margem esquerda, serpenteiam cinco ou seis vales onde o olhar distingue perfeitamente pequenos riachos4.

– Tenho sede dessa água, disse5.

– Aprova então o meu projeto?6

– Vou dizer a vocês, com toda a segurança: aqui nós temos trabalho para vinte anos7. Consegue ouvir o ruído? Ouça. Fabuloso, não? As máquinas8.

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1 Fernando GABEIRA. O que é isso, companheiro? Rio de Janeiro: Codecri. 1980, p.38.

2 Gavin MENZIES. 1421 – O ano em que a China descobriu o mundo. Tradução de Ruy Jungmann. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. 2006, p.200

3 Erich von DÄNIKEN. Eram os deuses astronautas? Tradução de E.G. Kalmus. São Paulo: Melhoramentos. 1970, p.95.

4,6 STENDHAL. O vermelho e o negro. Tradução de Raquel Prado. São Paulo: Cosac Naify. 2008, 4.pg.24, 6.pg.30.

5 Antoine de SAINT-EXUPÉRY. O pequeno príncipe. Tradução de Dom Marcos Barbosa. Agir: Rio de Janeiro. 1972, p.82.

7 Guilherme FIÚZA. 3.000 dias no bunker. Rio de Janeiro: Record. 2006, p.45.

8 Gonçalo M. TAVARES. A máquina de Joseph Walser. São Paulo: Companhia das Letras. 2010, p.156.

MixLit 35: Gente velha

Sempre que vejo gente velha, especialmente meu pai, sinto que não estou nem mais nem menos perto da morte do que qualquer um deles, e isso me deixa profundamente inquieto: eles me fazem pensar que talvez eu tenha1 essa expressão fria e a mil léguas de distância da sensação presente2.

Com seu jeito tranquilo, minha mãe3 havia chegado à terceira idade e continuava desinteressada de esportes, ginástica, clubes de dança, enfim, do que cheirasse a “lazer para velhos que, divertindo, melhora a saúde e prolonga a vida”4.

– Sou a favor de qualquer coisa que me ajude a viver melhor. Mas bem no fundo, todos, em qualquer momento, sabemos mais ou menos o que está acontecendo.

– E o que acha que está acontecendo agora? – perguntei.

Sentia a sua mão na minha cabeça, mexendo no meu cabelo5.

– Deus vos abençoe, meu filho6.

Era preciso traçar-lhe novos horizontes7.

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1 João Paulo CUENCA. O único final feliz para uma história de amor é um acidente. 2010. Companhia das Letras. São Paulo. 2010, p.82.

2 STENDHAL. O vermelho e o negro. 1830. Tradução de Raquel Prado. CosacNaify. São Paulo. 2008, 2ª edição, 1ª reimpressão, p.301.

3 Ian MCEWAN. O jardim de cimento. 1978. Tradução de Jorio Dauster. Companhia das Letras. São Paulo. 2009, edição de bolso, p.18.

4 Adélia PRADO. Filandras. 2001. Record. Rio de Janeiro. 2001, p.125.

5 Gabi MARTÍNEZ. Sudd. 2007. Tradução de Mario Fondelli. Rocco. Rio de Janeiro. 2010, p.318.

6 Francis BACON. Nova Atlântida. 1627. Em: Bacon – Vida e obra. Tradução de José Aluysio Reis de Andrade. Nova Cultural. São Paulo. 1999, coleção: Os pensadores, pg.245.

7 João MELO. Crônica verdadeira da língua portuguesa. Sem data. Em: Revista Pessoa. Mombak/Imprensa Oficial. São Paulo. 2010, p.19.

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