Archive for the ‘PETRÔNIO’ Category

MixLit 51: Descarregar

Na solidão em que se encontrava com cervejas e fumaças1, Nate sacudiu a cabeça, frustrado2,   cuspiu por entre os dentes3, deitado com o rosto virado para as costas do sofá, solidão no meio de uma cidade superpovoada e rodeado de inúmeros conhecidos – solidão mais completa que qualquer outra4, um silêncio espesso5.

Nate6 enxugou o suor com as mãos e7 fixou o olhar na estátua do Rio de Janeiro. Comparou o Cristo ao crucifixo que trazia preso ao pescoço. Deu-lhe ainda um último beijo8 e passou a mão por cima do bolso lateral para se certificar mais uma vez de que a pistola automática9 encontrava-se realmente ali10.

Na ponta do cabo, tinha gravada uma palavra11: Metalman12. Todas as ferramentas servem para modificar alguma coisa13, Nate pensou14.


1 Leon TOLSTOI. A morte de Ivan Ilitch. Tradução de Vera Karam. Rio Grande do Sul: L&PM, 2007, p.90.

2 John GRISHAM. O testamento. Tradução de Lilian Dias. Edição condensada da Seleções de Livros Reader´s Digest, 2002, p.123.

3 Jorge AMADO. Capitães de areia. Rio de Janeiro: Record, 1996, p.107.

4 Leon TOLSTOI. Idem.

5 Joel RUFINO DOS SANTOS. Quatro dias de rebelião. Rio de Janeiro: José Olympio, 2007, p.93.

6 John GRISHAM. Idem, p.123.

7 PETRÔNIO. Satyricon.  Tradução de Sandra Braga Bianchet. Rio de Janeiro: Crisálida, 2004, edição bilingue, p.19.

8 Alexandre José FRAGA. Quando os demônios vão ao confessionário. Rio de Janeiro: Eldorado, 2002, p.53.

9 John BERGER. G. Tradução de Roberto Grey. Rio de Janeiro: Rocco, 2005, p.202.

10 John BERGER. G. Idem.

11 José Luís PEIXOTO. Cemitério de pianos. Lisboa: Bertrand, 2007, pg.276.

12 David FOSTER WALLACE. The broom of the system. Nova York: Penguin, 2010, p.413.

13 Ludwig WITTGENSTEIN. Investigações Filosóficas – Coleção Os Pensadores. Tradução de José Carlos Bruni. São Paulo: Nova Cultural, 1999, p.31.

14 John GRISHAM. Idem, p.38.

Anúncios

MixLit 37: Em busca da franqueza

Ao acordar, ao invés de sentir-me aliviado, eu enxergava o meu crime, sem as cores do delírio. Levantei. Andei pelos cantos1. Entre seres humanos só há duas alternativas, a fraternidade ou o crime2. “Procure equilíbrio em tudo”3? – humilhações em que eu via minha simples vontade contrariada, ferida por uma espécie de zombaria4. Digo isto porque certas vezes5, meu peito ardendo de falta de ar6, eu me via pronunciando palavras que pareciam ainda mais sinceras do que meus pensamentos7. E eu era a maldade em pessoa, eu era muitas maldades numa pessoa só8. É possível isso?9 Quem nos conhece neste lugar? Quem dará crédito às coisas que dissermos?10

_____________________

1 Ronaldo CORREIA DE BRITO. Galileia. Alfaguara/Objetiva. Rio de Janeiro. 2008, p.148.

2 Saul BELLOW. Henderson, o rei da chuva. Tradução de José Geraldo Couto. Companhia das Letras. São Paulo. 2010, p.101.

3 Açúcar UNIÃO Premium. Embalagem de 60 gramas. Cosan Alimentos S.A. São Paulo. Data de validade: 2012.

4 Rubens FIGUEIREDO. O livro dos lobos. Companhia das Letras. São Paulo. 2009, p.125.

5,7,9 Mario BENEDETTI. A trégua. Tradução de Joana Angélica D’Avila Melo. Alfaguara/Objetiva. Rio de Janeiro. 2007, p.127.

6,8 José REZENDE JR. Eu perguntei pro velho se ele queria morrer (e outras estórias de amor). 7Letras. Rio de Janeiro. 2009, p.12/27

10 PETRÔNIO. Satyricon. Século I. Tradução de Sandra Braga Bianchet. Crisálida. Rio de Janeiro. 2004, edição bilingue, p.25.

Imagem: From Roee Rosen, Live and Die as Eva Braun, The Israel Museum, 1997, Quoted in Death’s Showcase, Ariella Azoulay, ©2001 MIT Press

%d blogueiros gostam disto: