Archive for the ‘José SARAMAGO’ Category

MixLit 40: O dia seguinte

A noite tinha sido difícil, a pior até agora, embora eu já estivesse acostumado ao interregno turbulento em que meu sono havia se transformado. Eram pequenas nebulosas no estado de vigília e não duravam mais de quinze minutos, tempo suficiente, contudo, para inquietar- me com as imagens pavorosas que apareciam nos sonhos1. Se a escuridão fosse completa, eu conseguiria encostar-me de novo, cerrar os olhos, pensar num encontro que tive durante o dia, recordar uma frase, um rosto, a mão que apertou os dedos, mentiras sussurradas inutilmente2. Tudo de repente se tornara um tanto solene, esquisito.

Eu ia dobrando as roupas e as depositava meio ritualisticamente numa valise de segunda mão que eu comprara fazia pouco tempo. Quando via uma camisa ou uma calça que acabara de colocar na valise eu respirava fundo, me vinham imagens mudas como a de uma velha vassoura varrendo folhas de uma calçada, figurações assim, rápidas e como que despojadas de uma motivação inicial, e eu me sentia a cumprir uma tarefa extrema, como se depois dali eu não tivesse que fazer malas nunca mais3.

Foi quando cinco raios sucederamse no céu, a trovoada reboou num barulho de fim do mundo4. Com uma chuva destas, que pouco lhe falta para um dilúvio, seria de esperar que as pessoas estivessem recolhidas, à espera que o tempo estiasse5. Foi a própria Ana que tomou a iniciativa de vir até a minha mesa. – Posso me sentar por um instante? – ela perguntou6 – Não retires de mim a tua mão, eu me prometo que talvez até o fim deste relato impossível talvez eu entenda, oh talvez pelo caminho do inferno eu chegue a encontrar o que nós precisamos, mas não retires a tua mão7. Pausei num sorriso de magia e encantamento, coisa familiar mesmo.

Acho que ela não ia acreditar se eu lhe dissesse a verdade8. – A questão é que minha insônia começou há 30 anos, quando nasci. E só vai terminar daqui a 30 anos, quando eu morrer9. Não podia mudar aquilo que era definitivo, mas apenas deixei os braços e as pernas perderem a força sobre a cama, apenas deixei o corpo repousar, aceitar a noite, quando, na escuridão do quarto, me convenci de que tinha tomado uma decisão10.

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1. Adriana LUNARDI. Vésperas. Rocco. Rio de Janeiro. 2002, pg.41.

2. Graciliano RAMOS. Insônia. 1947. Record. Rio de Janeiro. 2001, pg.10.

3. João Gilberto NOLL. Harmada. 2003. W11, selo Francis. São Paulo. 2003, pg.93.

4. Jorge AMADO. A morte e a morte de Quincas Berro D’água. 1959. Record. Rio de Janeiro.1998, 75a edição, pg.94.

5. José SARAMAGO. Ensaio sobre a cegueira. 1995. Companhia das Letras. São Paulo. 2004, 28a reimpressão, pg.225.

6. Sérgio SANT ́ANNA. A senhorita Simpson. 1989. Companhia das Letras. São Paulo. 2003, 3a reimpressão, pgs.160,161.

7. Clarice LISPECTOR. A paixão segundo G.H. 1964. Rocco. Rio de Janeiro. 1998, pg.73.

8. ONDJAKI. Os da minha rua. 2009. Língua Geral. Rio de Janeiro. 2009, 1a reimpressão, pg.129.

9. Gonçalo M. TAVARES. O homem ou é tonto ou é mulher. 2002. Casa da Palavra. Rio de Janeiro. 2005, pg.15.

10. José Luís PEIXOTO. Cemitério de pianos. 2006. Bertrand. Lisboa. 2007, 3a edição, pg.215.

Imagem: Foto, por Maria Beatriz Machado

ESTE TEXTO FOI PUBLICADO ORIGINALMENTE NA REVISTA PESSOA, EDIÇÃO ZERO, E COM ELE É DADO ENCERRADO O TRABALHO NO MixLit DURANTE O ANO DE 2010.

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MixLit 12: Coisa desagradável

Às dez e meia estávamos como dois colegiais na recepção do hotel, esperando. Chegaram Oscar Niemayer e José Aparecido, e desafiando, uma vez mais, o calor, partimos rumo a Canoas, um paraíso na Gávea.  A casa foi construída em 1953, mas desde há anos que Oscar não a habita, porque o sítio se tornou pouco seguro.(1)

Nós dois, brancos e rodeados por dez ou doze negros, e nada com que nos preocuparmos, nada a temer da parte deles: não éramos nós os seus opressores nem eram eles os nossos inimigos – o inimigo-opressor que nos aterrorizava a todos era a forma pela qual a sociedade estava organizada e era governada.(2)

– Consegue viver com isso?

– Você acha que um leão deve preocupar-se com as gazelas que mata? Acha que seria um leão melhor caso se preocupasse? A mim parece-me, pelo contrário, que seria um mau leão. A natureza dele é comer as gazelas. O destino das gazelas é deixarem-se comer pelos leões.(3)

Todos se sentiram desanimados quando viram o sol passar sobre suas cabeças e começar a declinar em direção ao longínquo horizonte. (4) Mal dava para perceber o recorte dos morros contra o céu, com a imponente silhueta da pedra da Gávea ao fundo.(5) No jardim, lá embaixo, a brisa levantava de vez em quando a bandeira adornada de um caduceu. O céu voltara a nublar-se em toda parte. Desapareceu o sol, e quase imediatamente surgiu um frio pouco hospitaleiro.(6)

– Embaixada cruel! Viagem malograda, preparativos inúteis, favor devolver-me as fotos.(7)

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1. José SARAMAGO. Cadernos de Lanzarote II. 1998. Companhia das Letras. São Paulo. 1999, pgs.62,63.

2. Philip ROTH. Casei com um comunista. 1998. Tradução de Rubens Figueiredo. Companhia das Letras. São Paulo. 2005, 1ª reimpressão, pg.126.

3. José Eduardo AGUALUSA. Um estranho em Goa. 2000. Editora Gryphus. Rio de Janeiro. 2001, pg.65.

4. J.K. ROWLING. Os contos de Beedle, O Bardo. 2008. Tradução de Lia Wyler. Editor Rocco. Rio de Janeiro. 2008, pg.29.

5. Luiz Alfredo GARCIA-ROZA. Céu de origamis. 2009. Companhia das Letras. São Paulo. 2009, pg.142.

6. Thomas MANN. A montanha mágica. 1924. Tradução de Herbert Caro. Editora Nova Fronteira. Rio de Janeiro. 2000, 9ª reimpressão, pg.110.

7. Julio CORTÁZAR. A volta ao dia em 80 mundos – tomo II. 1967. Tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht. Civilização Brasileira/Editora Record. Rio de Janeiro. 2008, pg.160.

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