Archive for the ‘José Luís PEIXOTO’ Category

MixLit 51: Descarregar

Na solidão em que se encontrava com cervejas e fumaças1, Nate sacudiu a cabeça, frustrado2,   cuspiu por entre os dentes3, deitado com o rosto virado para as costas do sofá, solidão no meio de uma cidade superpovoada e rodeado de inúmeros conhecidos – solidão mais completa que qualquer outra4, um silêncio espesso5.

Nate6 enxugou o suor com as mãos e7 fixou o olhar na estátua do Rio de Janeiro. Comparou o Cristo ao crucifixo que trazia preso ao pescoço. Deu-lhe ainda um último beijo8 e passou a mão por cima do bolso lateral para se certificar mais uma vez de que a pistola automática9 encontrava-se realmente ali10.

Na ponta do cabo, tinha gravada uma palavra11: Metalman12. Todas as ferramentas servem para modificar alguma coisa13, Nate pensou14.


1 Leon TOLSTOI. A morte de Ivan Ilitch. Tradução de Vera Karam. Rio Grande do Sul: L&PM, 2007, p.90.

2 John GRISHAM. O testamento. Tradução de Lilian Dias. Edição condensada da Seleções de Livros Reader´s Digest, 2002, p.123.

3 Jorge AMADO. Capitães de areia. Rio de Janeiro: Record, 1996, p.107.

4 Leon TOLSTOI. Idem.

5 Joel RUFINO DOS SANTOS. Quatro dias de rebelião. Rio de Janeiro: José Olympio, 2007, p.93.

6 John GRISHAM. Idem, p.123.

7 PETRÔNIO. Satyricon.  Tradução de Sandra Braga Bianchet. Rio de Janeiro: Crisálida, 2004, edição bilingue, p.19.

8 Alexandre José FRAGA. Quando os demônios vão ao confessionário. Rio de Janeiro: Eldorado, 2002, p.53.

9 John BERGER. G. Tradução de Roberto Grey. Rio de Janeiro: Rocco, 2005, p.202.

10 John BERGER. G. Idem.

11 José Luís PEIXOTO. Cemitério de pianos. Lisboa: Bertrand, 2007, pg.276.

12 David FOSTER WALLACE. The broom of the system. Nova York: Penguin, 2010, p.413.

13 Ludwig WITTGENSTEIN. Investigações Filosóficas – Coleção Os Pensadores. Tradução de José Carlos Bruni. São Paulo: Nova Cultural, 1999, p.31.

14 John GRISHAM. Idem, p.38.

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MixLit 40: O dia seguinte

A noite tinha sido difícil, a pior até agora, embora eu já estivesse acostumado ao interregno turbulento em que meu sono havia se transformado. Eram pequenas nebulosas no estado de vigília e não duravam mais de quinze minutos, tempo suficiente, contudo, para inquietar- me com as imagens pavorosas que apareciam nos sonhos1. Se a escuridão fosse completa, eu conseguiria encostar-me de novo, cerrar os olhos, pensar num encontro que tive durante o dia, recordar uma frase, um rosto, a mão que apertou os dedos, mentiras sussurradas inutilmente2. Tudo de repente se tornara um tanto solene, esquisito.

Eu ia dobrando as roupas e as depositava meio ritualisticamente numa valise de segunda mão que eu comprara fazia pouco tempo. Quando via uma camisa ou uma calça que acabara de colocar na valise eu respirava fundo, me vinham imagens mudas como a de uma velha vassoura varrendo folhas de uma calçada, figurações assim, rápidas e como que despojadas de uma motivação inicial, e eu me sentia a cumprir uma tarefa extrema, como se depois dali eu não tivesse que fazer malas nunca mais3.

Foi quando cinco raios sucederamse no céu, a trovoada reboou num barulho de fim do mundo4. Com uma chuva destas, que pouco lhe falta para um dilúvio, seria de esperar que as pessoas estivessem recolhidas, à espera que o tempo estiasse5. Foi a própria Ana que tomou a iniciativa de vir até a minha mesa. – Posso me sentar por um instante? – ela perguntou6 – Não retires de mim a tua mão, eu me prometo que talvez até o fim deste relato impossível talvez eu entenda, oh talvez pelo caminho do inferno eu chegue a encontrar o que nós precisamos, mas não retires a tua mão7. Pausei num sorriso de magia e encantamento, coisa familiar mesmo.

Acho que ela não ia acreditar se eu lhe dissesse a verdade8. – A questão é que minha insônia começou há 30 anos, quando nasci. E só vai terminar daqui a 30 anos, quando eu morrer9. Não podia mudar aquilo que era definitivo, mas apenas deixei os braços e as pernas perderem a força sobre a cama, apenas deixei o corpo repousar, aceitar a noite, quando, na escuridão do quarto, me convenci de que tinha tomado uma decisão10.

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1. Adriana LUNARDI. Vésperas. Rocco. Rio de Janeiro. 2002, pg.41.

2. Graciliano RAMOS. Insônia. 1947. Record. Rio de Janeiro. 2001, pg.10.

3. João Gilberto NOLL. Harmada. 2003. W11, selo Francis. São Paulo. 2003, pg.93.

4. Jorge AMADO. A morte e a morte de Quincas Berro D’água. 1959. Record. Rio de Janeiro.1998, 75a edição, pg.94.

5. José SARAMAGO. Ensaio sobre a cegueira. 1995. Companhia das Letras. São Paulo. 2004, 28a reimpressão, pg.225.

6. Sérgio SANT ́ANNA. A senhorita Simpson. 1989. Companhia das Letras. São Paulo. 2003, 3a reimpressão, pgs.160,161.

7. Clarice LISPECTOR. A paixão segundo G.H. 1964. Rocco. Rio de Janeiro. 1998, pg.73.

8. ONDJAKI. Os da minha rua. 2009. Língua Geral. Rio de Janeiro. 2009, 1a reimpressão, pg.129.

9. Gonçalo M. TAVARES. O homem ou é tonto ou é mulher. 2002. Casa da Palavra. Rio de Janeiro. 2005, pg.15.

10. José Luís PEIXOTO. Cemitério de pianos. 2006. Bertrand. Lisboa. 2007, 3a edição, pg.215.

Imagem: Foto, por Maria Beatriz Machado

ESTE TEXTO FOI PUBLICADO ORIGINALMENTE NA REVISTA PESSOA, EDIÇÃO ZERO, E COM ELE É DADO ENCERRADO O TRABALHO NO MixLit DURANTE O ANO DE 2010.

MixLit 29: A outra vida no Campo

Degraël deu com um magro volume intitulado A viagem de inverno, cujo autor, Hugo Vernier, era-lhe totalmente desconhecido, mas cujas primeiras páginas causaram-lhe uma impressão tão forte que só teve tempo de se desculpar junto ao amigo e a seus pais e subir correndo a fim de lê-lo no quarto(1):

Era domingo porque estava sol, porque eu tinha decidido não ir trabalhar, porque se ouviam poucos automóveis na cidade, porque o mundo parecia infinito, porque as minhas filhas tinham vestidos com laços que se atavam atrás da cintura e(2), com seus olhos tristes, despediam-se de Cosme, que ficava horas à porta da varanda com a esperança de uma oportunidade de voltar aos cuidados de suas donas(3).

Nesta última semana, nós todos ficamos um tanto confusos porque nossos amados sinos da Westetoren foram retirados para serem fundidos e usados na guerra, por isso não temos idéia da hora exata, seja da noite ou do dia. Ainda tenho esperança de que arranjem um substituto, feito de latão, cobre ou outra coisa, para que o bairro se lembre do relógio(4).

– Essa, então, é a vida ambígua do Campo(5).

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1. Georges PEREC. A viagem de inverno. 1979. Em: A coleção particular. Tradução de Ivo Barroso. CosacNaify. São Paulo. 2005, p.75.

2. José Luís PEIXOTO. Cemitério de pianos. 2006. Bertrand. Lisboa, Portugal. 2006, p.49.

3. Gabriela Guimarães GAZZINELLI. Prosa de papagaio. 2009. Record. Rio de Janeiro. 2010, p.95.

4. Anne FRANK. O diário de Anne Frank. 1942-1944. Tradução de Alves Calado. Record. Rio de Janeiro. 1995, p.126.

5. Primo LEVI. É isto um homem? 1958. Tradução de Luigi Del Re. Rocco. Rio de Janeiro. 1988, p.88.

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