Archive for the ‘Gustave FLAUBERT’ Category

MixLit 53: O sim, o não, as conclusões

Sozinho, a meio da noite, a febril luz do pequeno candeeiro a arder1, enquanto o fósforo se apagava, vi como me olhava com ternura. Depois, já na completa escuridão, senti que sua mão acariciava minha cabeça. Disse-me2 que queria transformar aqueles pobres-coitados em ferozes defensores da pátria3. O que seria dela se também se apagasse como se apagou a chama daquela luz débil?4

– De quanto vocês precisam para fazer a sua revolução? – perguntou5.

Permaneci calado, com os olhos fixos na terra aos meus pés. Eu e a terra – e ela ao lado6.

– E os seus amigos? – disse ela – Não pensa neles?7

Mais uma vez eu precisava dizer alguma coisa, mas antes que pudesse8, saiu fechando a porta sem fazer ruído9.

O vento cantava os funerais de algum desconhecido. As árvores se curvavam, gemedoras e soluçantes, Alguma coisa… possivelmente uma veneziana… rangia desesperadamente e batia contra a base da janela10. Fazer uma revolução?11 Por que tudo tem de ter resposta?12 Por mais que se lute contra a realidade13… Não sei bem o que dizer14… Como evitar a aura de conclusão de uma última sentença?15


1 valter hugo MÃE. A máquina de fazer espanhóis. São Paulo: Cosac Naify, 2011, p.167.

2 Ernesto SABATO. O túnel. Tradução de Sérgio Molina. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p.64.

3 Luiz RUFFATO. O livro das impossibilidades. Rio de Janeiro: Record, 2008, p.81.

4 Juan RULFO. Pedro Páramo. Tradução de Eric Nepomuceno. Editora Record. Rio de Janeiro. Edições BestBolso, p.114.

5 Juan RULFO. Idem, p.110

6 Witold GOMBROWICZ. Cosmos. Tradução de Tomasz Barcinski e Carlos Alexandre Sá. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p.129.

7 Gustave FLAUBERT. Madame Bovary. Tradução de Fernanda Ferreira Graça. Linda-a-Velha, Portugal: Biblioteca Visão, 2000, p.130.

8 Witold GOMBROWICZ. Idem, p.129.

9 Juan RULFO. Idem, p.114.

10 Anton TCHEKHOV. “Então, era ela!”; em: Os mais brilhantes contos de. Tradução de Yolanda Vettori. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, sem data, p.99

11 Wolfgang HOHLBEIN, e Heike HOHLBEIN. Marchenmond II – Os filhos das terras sombrias. Tradução de Elisabeth Loibl.  Rio de Janeiro: Prestígio editoria/Ediouro, sem data, edição digital no Scribd, sem numeração de página.

12 Ernesto SABATO. Idem, p.64.

13 Ricardo DOMENECK. A cadela sem Logos. Rio de Janeiro/São Paulo: 7Letras/Cosac Naify, 2007, p.123.

14 Laura ERBER. Os dias e os corpos. São Paulo: Editora de Cultura, 2008, p.58.

15 Ricardo DOMENECK. Idem.

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MixLit 13: O amor ao longo do tempo

– Principais motivos para morrer: é o que os outros esperam que se faça quando você chega à minha idade; a decrepitude e senilidade iminentes; o desperdício de dinheiro – gastando a herança – para manter viva uma saca de ossos velhos incontinentes, com o cérebro morto; interesse reduzido nas notícias, fomes, guerras, etc. (1)

Carlos achou miseráveis as suas ideias. Na impossibilidade de encontrar palavras à altura da cena, tão simples e tão elevada ao mesmo tempo, respondeu com lugares-comuns sobre o destino das mulheres:

– Senhora – ele disse – é preciso sabermos esquecer nossas dores, ou então cavamos nossa sepultura.

Mas a razão é sempre mesquinha em face do sentimento; uma é naturalmente limitada, como tudo que é positivo, e o outro é infinito. Raciocinar onde é preciso sentir, isso é próprio das almas medíocres.(2)

– Que é que você está pretendendo? – ela perguntou finalmente.

– Nada, ora essa, já não falei? Quer que eu vá embora?

– Não… Pode ficar.

Sem se olharem, cada um esperava que o outro prosseguisse a conversa.(3)

– Você não quer voltar pra festa?

Laura franze as sobrancelhas.

– Acho que tá chata aquela festa.

E ri.

– Sério, você lembra o que aconteceu?

– Ahn, não muito. Eu fiquei tonta e comecei a pensar e ver umas coisas meio doidas. É isso que eu lembro.

– Talvez você devesse comer uns doces. Eu posso trazer uns doces pra você.(4)

– És um homem, tu! Tens tudo o que é preciso para te fazeres amar. Mas vamos recomeçar, não é verdade? Vamo-nos amar muito. Vês? Estou a rir, sinto-me feliz! Que dizes?(5)

– Viver é fazer mal, aos outros e a si próprio, através dos outros.(6)

– Mas você me ama.

– Por isso eu te amo.(7)

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1. Julian BARNES. Um toque de limão. 2004. Tradução de Ana Deiró. Editora Rocco. Rio de Janeiro. 2006, conto: Saber francês, pgs.190, 191.

2. Honoré de BALZAC. A mulher de trinta anos. 1842. Tradução de Casimiro Fernandes e Wilson Lousada. Círculo do Livro/Editora Globo. São Paulo. 1973, pg.132.

3. Fernando SABINO. Duas novelas de amor. 1998. Editora Ática. São Paulo. 2002, novela: Noite única, pg.85.

4. Carol BENSIMON. Pó de parede. Não Editora. Rio Grande do Sul. 2008, pgs.38, 39.

5. Gustave FLAUBERT. Madame Bovary. 1857. Tradução de Fernanda Ferreira Graça. Abril/Controljornal Edipresse. Linda-a-velha, Portugal. Biblioteca Visão, pg.285.

6. Albert CAMUS. Diário de viagem – A visita de Camus ao Brasil. 1949. Publicado na França em 1978. Tradução de Valerie Rumjnek Chaves. Editora Record. Rio de Janeiro.  Sem data, 2ª edição, pg.116.

7. Ian McEWAN. Na praia. 2007. Tradução de Bernardo Carvalho. Companhia das Letras. São Paulo. 2008, 6ª reimpressão, pg.100.

Imagem: Joan Brockwoldt, “The elderly couple”, http://joanbreckwoldt.blogspot.com

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