Archive for the ‘Ernesto SABATO’ Category

MixLit 53: O sim, o não, as conclusões

Sozinho, a meio da noite, a febril luz do pequeno candeeiro a arder1, enquanto o fósforo se apagava, vi como me olhava com ternura. Depois, já na completa escuridão, senti que sua mão acariciava minha cabeça. Disse-me2 que queria transformar aqueles pobres-coitados em ferozes defensores da pátria3. O que seria dela se também se apagasse como se apagou a chama daquela luz débil?4

– De quanto vocês precisam para fazer a sua revolução? – perguntou5.

Permaneci calado, com os olhos fixos na terra aos meus pés. Eu e a terra – e ela ao lado6.

– E os seus amigos? – disse ela – Não pensa neles?7

Mais uma vez eu precisava dizer alguma coisa, mas antes que pudesse8, saiu fechando a porta sem fazer ruído9.

O vento cantava os funerais de algum desconhecido. As árvores se curvavam, gemedoras e soluçantes, Alguma coisa… possivelmente uma veneziana… rangia desesperadamente e batia contra a base da janela10. Fazer uma revolução?11 Por que tudo tem de ter resposta?12 Por mais que se lute contra a realidade13… Não sei bem o que dizer14… Como evitar a aura de conclusão de uma última sentença?15


1 valter hugo MÃE. A máquina de fazer espanhóis. São Paulo: Cosac Naify, 2011, p.167.

2 Ernesto SABATO. O túnel. Tradução de Sérgio Molina. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p.64.

3 Luiz RUFFATO. O livro das impossibilidades. Rio de Janeiro: Record, 2008, p.81.

4 Juan RULFO. Pedro Páramo. Tradução de Eric Nepomuceno. Editora Record. Rio de Janeiro. Edições BestBolso, p.114.

5 Juan RULFO. Idem, p.110

6 Witold GOMBROWICZ. Cosmos. Tradução de Tomasz Barcinski e Carlos Alexandre Sá. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p.129.

7 Gustave FLAUBERT. Madame Bovary. Tradução de Fernanda Ferreira Graça. Linda-a-Velha, Portugal: Biblioteca Visão, 2000, p.130.

8 Witold GOMBROWICZ. Idem, p.129.

9 Juan RULFO. Idem, p.114.

10 Anton TCHEKHOV. “Então, era ela!”; em: Os mais brilhantes contos de. Tradução de Yolanda Vettori. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, sem data, p.99

11 Wolfgang HOHLBEIN, e Heike HOHLBEIN. Marchenmond II – Os filhos das terras sombrias. Tradução de Elisabeth Loibl.  Rio de Janeiro: Prestígio editoria/Ediouro, sem data, edição digital no Scribd, sem numeração de página.

12 Ernesto SABATO. Idem, p.64.

13 Ricardo DOMENECK. A cadela sem Logos. Rio de Janeiro/São Paulo: 7Letras/Cosac Naify, 2007, p.123.

14 Laura ERBER. Os dias e os corpos. São Paulo: Editora de Cultura, 2008, p.58.

15 Ricardo DOMENECK. Idem.

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MixLit 39: A lei ainda não havia pegado

Os boatos assumiam a forma de notícias falsas que circulavam captadas no rádio1. Uma multidão de curiosos acompanhava da rua a confusão no pátio maior. A maioria permanecia calada, mas alguns gritavam, cheios de entusiasmo2: “União entre irmãos3!”

Quando chegamos à casa encontramos Hunter muito agitado (embora fosse daqueles que acham de mau gosto mostrar as paixões); tentava disfarçar, mas era evidente que alguma coisa estava acontecendo4.

Não será coisa da raça e da cultura deles? – eu disse5.

– Os malditos negros deviam ter sua própria cadeira elétrica – comentou6 – Por que não podem esperar até amanhã?7

Já havia passado mais de um ano da data em que o tráfico de escravos estava proibido8.

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1. J.M.G. LE CLÉZIO. Refrão da fome. Tradução de Leonardo Fróes. Cosac Naify. São Paulo. 2009, p.196.

2. Ismail KADARÉ. Uma questão de loucura. Tradução de Bernardo Joffily. Companhia das Letras. São Paulo. 2008, p.42.

3. Paulo NADER. Curso de direito civil – Direito de família – Vol.5. Forense. Rio de Janeiro. 2010, p.85.

4. Ernesto SABATO. O túnel. Tradução de Sérgio Molina. Companhia das Letras. São Paulo. 2000, p.113.

5. Sérgio SANT´ANNA. A senhorita Simpson. Companhia das Letras. São Paulo. 2003, 3ª reimpressão pg.214.

6. Stephen KING. Á espera de um milagre. Tradução de H.G. Cortes. Objetiva. Rio de Janeiro. 2010, p.199.

7. Henry MILLER. Dias de paz em Clichy. Tradução de Roberto Muggiati. Rio de Janeiro: José Olympio, 2004, p.62.

8. Ana Maria GONÇALVES. Um defeito de cor. Record. Rio de Janeiro. 2008, p.435.

Imagem: “Fat white oppression”, ilustração de Geert Oosterhof: http://geertoosterhof.blogspot.com/

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