Archive for the ‘Chico BUARQUE’ Category

MixLit 23: Expectativa

21h: bebendo devagar um Ovomaltine, ele preenchia os registros com as informações do dia. O lampião Petromax era acendido (que barulho fazia), insetos mergulhavam no escuro para bombardeá-lo como flores macias (mariposas) como iridescências (besouros). Linhas, colunas e quadrados (1), odor de percevejo e perfume barato, e no coração uma sensação de derrota e ressentimento que, mesmo naquele momento, vinha de cambulhada com a recordação do corpo branco de Katharine(2).

Sua respiração acelerou-se, e com isso a sufocação tornou-se mais intensa. Sentia dor e uma ardência no peito. Esticou os dedos gelados e puxou, com força, a campainha. Celeste não tardou a entrar, e percebeu de imediato a gravidade da situação(3).

– Demônios! – explodiu (4) – Será cedo demais para um martini?(5)

Ele ficou contente de ela recusar(6); com os pés sobre a mesa, fumava, olhava o telefone, estava pronto para assumir as funções de pai a qualquer momento(7).

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1. Kiran DESAI. O legado da perda. 2006. Tradução de José Rubens Siqueira. Alfaguara/Objetiva. Rio de Janeiro. 2007, p.86.

2. George ORWELL. 1984. 1949. Tradução de Wilson Velloso. Companhia Editorial Nacional. São Pauilo. 1977, 10ª edição, p.66.

3. Lúcia BETTENCOURT. A secretária de Borges. 2006. Record. Rio de Janeiro. 2006, conto: Os três últimos dias de Marcel Proust, p.118.

4. Mark TWAIN. Histórias alegres. Sem data. Seleção e tradução de Araújo Nabuco. Cultrix. DE ONDE É? Sem data, história: O demorado passaporte russo, p.119.

5. Erich Maria REMARQUE. Sombras no paraíso. 1971. Tradução de Bélchior Cornelio da Silva. Record. Rio de Janeiro. Sem data, p.188.

6. John UPDIKE. Contando histórias. (vários autores) Organização de Nadine Gordimer. 2004. Companhia das Letras. São Paulo. 2007, conto: A jornada para os mortos, 1995, Tradução de José Rubens Siqueira, p.128.

7. Chico BUARQUE. Leite derramado. 2009. Companhia das Letras. São Paulo. 2009, p.63.

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MixLit 14: Achei que era louco

Estudiamos lo mismo, declarou, e começou a me explicar sobre o que era sua tese. Discorreu sobre o sujeito fragmentado pós-moderno e os espaços confinados da pós-modernidade; sobre o fim da utopia, sobre Baudrillard, Lyotard e vários outros autores, alguns dos quais eu nunca tinha ouvido falar; depois partiu para uma autora chilena, Eltit, e então falou do último livro, como tinha gostado, ou não, não entendi direito.(1)

Es más real el agua de la fuente o la muchacha que se mira en ella?(2)

– Que diferença isso pode fazer agora?(3)

Devia ser proibido debochar de quem se aventura em língua estrangeira.(4)

Crúzame tu existencia, suponiendo que mi corazón está destruido.(5)

– Você está completamente louco.(6)

Ele já estava se levantando quando me lembrei de perguntar:

– Se acontecer alguma coisa com você, a quem eu devo avisar?

– O que pode me acontecer?

E acrescentou, já saindo pela porta:

– Isso tudo não é uma ficção?(7)

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1. Paloma VIDAL. Algum lugar. 2009. Editora 7Letras. Rio de Janeiro. 2009, pg.34.

2. Nicanor PARRA. Poemas & Antipoemas. 1954. Editorial Universitaria. Santiago, Chile. 2008, 6ª reimpressão, poema: “Preguntas a la hora del té”, pg. 47.

3. Nathan ENGLANDER. Para alívio dos impulsos insuportáveis. 1999. Tradução de Lia Wyler. Editora Rocco. Rio de Janeiro. 2007, pg.29.

4. Chico BUARQUE. Budapeste. 2003. Companhia das Letras. São Paulo. 2003, 2ª edição, 3ª reimpressão, pg.5.

5. Pablo NERUDA. Residência na Terra I. 1925-1931. Tradução de Paulo Mendes Campos. L&PM Pocket. Rio Grande do Sul. 2007, edição bilíngue, pg.32.

6. Henrik IBSEN. Um inimigo do povo. 1882. Tradução de Pedro Mantiqueira. L&PM Pocket. Rio Grande do Sul. 2007, pg.27.

7. Luis Fernando VERISSIMO. Os espiões. 2009. Editora Alfaguara/Objetiva. Rio de Janeiro. 2009, pg.60.

Imagem: capa do livro “Whispering gallery”, de Andrew Burke

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